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segunda-feira, 28 de junho de 2010

O que aconteceu com os evangélicos?


Quando Paulo Romeiro escreveu Evangélicos em Crise em meados da década de 90, ele apenas tocou em uma das muitas áreas em que o evangelicalismo havia entrado em colapso no Brasil: a sua incapacidade de deter a proliferação de teologias oriundas de uma visão pragmática e mercantilista de igreja, no caso, a teologia da prosperidade.




Fica cada vez mais claro que os evangélicos estão atualmente numa crise muito maior, a começar pela dificuldade – para não falar da impossibilidade – de ao menos se definir hoje o que é ser evangélico.



Até pouco tempo, “evangélico” indicava vagamente aqueles protestantes de entre todas as denominações – presbiterianos, batistas, metodistas, anglicanos, luteranos e pentecostais, entre outros, que consideravam a Bíblia como Palavra de Deus, autoritativa e infalível, que eram conservadores no culto e nos padrões morais, e que tinham visão missionária.



Hoje, no Brasil, o termo não tem mais essa conotação. Ele tem sido usado para se referir a todos os que estão dentro do cristianismo em geral e que não são católicos romanos: protestantes históricos, pentecostais, neopentecostais, igrejas emergentes, comunidades dos mais variados tipos, etc.



É evidente a crise gigantesca em que os evangélicos se encontram: a falta de rumos teológicos definidos, a multiplicidade de teologias divergentes, a falta de uma liderança com autoridade moral e espiritual, a derrocada doutrinária e moral de líderes que um dia foram reconhecidos como referência, o surgimentos de líderes totalitários que se auto-denominam pastores, bispos e apóstolos.



A conquista gradual das escolas de teologia pelo liberalismo teológico, a falta de padrões morais pelos quais ao menos exercer a disciplina eclesiástica, a depreciação da doutrina, a mercantilização de várias editoras evangélicas que passaram a publicar livros de linha não evangélica, e o surgimento das chamadas igrejas emergentes. A lista é muito maior e falta espaço nesse post.



Recentemente um amigo meu, respeitado professor de teologia, me disse que o evangelicalismo brasileiro está na UTI. Concordo com ele. A crise, contudo, tem suas raízes na própria natureza do evangelicalismo, desde o seu nascedouro.



Há opiniões divergentes sobre quando o moderno evangelicalismo nasceu. Aqui, adoto a opinião de que ele nasceu, como movimento, nas décadas de 50 e 60 nos Estados Unidos. Era uma ala dentro do movimento fundamentalista que desejava preservar os pontos básicos da fé (veja meu post sobre Fundamentalismo), mas que não compartilhava do espírito separatista e exclusivista da primeira geração de fundamentalistas.



A princípio chamado de “neo-fundamentalismo”, o evangelicalismo entendia que deveria procurar uma interação maior com questões sociais e, acima de tudo, obter respeitabilidade acadêmica mediante o diálogo com a ciência e com outras linhas dentro da cristandade, sem abrir mão dos “fundamentos”.



Eles queriam se livrar da pecha de intransigentes, fechados, bitolados e obscurantistas, ao mesmo tempo em que mantinham doutrinas como a inerrância das Escrituras, a crença em milagres, a morte vicária de Cristo, sua divindade e sua ressurreição de entre os mortos. Eram, por assim dizer, fundamentalistas esclarecidos, que queriam ser reconhecidos academicamente, acima de tudo.



O que aconteceu para o evangelicalismo chegasse ao ponto crítico em que se encontra hoje? Tenho algumas idéias que coloco em seguida.



1. O diálogo com católicos, liberais, pentecostais e outras linhas sem que os pressupostos doutrinários tivessem sido traçados com clareza. Acredito que podemos dialogar e aprender com quem não é reformado. Contudo, o diálogo deve ser buscado dentro de pressupostos claros e com fronteiras claras. Hoje, os evangélicos têm dificuldades em delinear as fronteiras do verdadeiro cristianismo e de manter as portas fechadas para heresias.



2. A adoção do não-exclusivismo como princípio. Ao fazer isso, os evangélicos começaram a abrir a porta para a pluralidade doutrinária, a multiplicidade de eclesiologias e o relativismo moral, sem que tivessem qualquer instrumento poderoso o suficiente para ao menos identificar o que estivesse em desacordo com os pontos cruciais.



3. O abandono gradual da aderência a esses pontos cruciais com o objetivo de alargar a base de comunhão com outras linhas dentro da cristandade. Com a redução cada vez maior do que era básico, ficou cada vez mais ampla a definição de evangélico, a ponto de perder em grande parte seu significado original.



4. O abandono da confessionalidade, dos grandes credos e confissões do passado, que moldaram a fé histórica da Igreja com sua interpretação das Escrituras. Não basta dizer que a Bíblia não tem erros. Arminianos, pelagianos, socinianos, unitários, eteroteólogos, neopentecostais – todos afirmarão isso.



O problema está na interpretação que fazem dessa Bíblia inerrante. Ao jogar fora séculos de tradição interpretativa e teológica, os evangélicos ficaram vulneráveis a toda nova interpretação, como a teologia relacional, a teologia da prosperidade, a nova perspectiva sobre Paulo, etc.



5. A mudança de uma orientação teológica mais agostiniana e reformada para uma orientação mais arminiana. Isso possibilitou a entrada no meio evangélico de teologias como a teologia relacional, que é filhote do arminianismo. Permitiu também a invasão da espiritualidade mística centrada na experiência, fruto do reavivalismo pelagiano de Charles Finney. (Nota do CACP*: Aqui o autor critica a exacerbação do arminianismo... entendemos que tanto o radicalismo arminiano como o calvinista é contraproducente)



Essa mudança também trouxe a depreciação da doutrina em favor do pragmatismo, e também o antropocentrismo no culto, na igreja e na missão, tudo isso produto da visão arminiana da centralidade do homem.



Mas talvez o pior de tudo foi a perda da cosmovisão reformada, que serviria de base para uma visão abrangente da cultura, ciência e sociedade, a partir da soberania de Deus sobre todas as áreas da vida. Sem isso, o evangelicalismo mais e mais tem se inclinado a ações isoladas e fragmentadas na área social e política, às vezes sem conexão com a visão cristã de mundo.



6. Por fim, a busca de respeitabilidade acadêmica, não somente da parte dos demais cristãos, mas especialmente da parte da academia secular. Essa busca, que por vezes tem esquecido que o opróbrio da cruz é mais aceitável diante de Deus do que o louvor humano, acabou fazendo com que o evangelicalismo, em muitos lugares, submetesse suas instituições teológicas aos padrões educacionais do Estado e das universidades.



Padrões esses comprometidos metodológica, filosófica e pedagogicamente com a visão humanística e secularizada do mundo, em que as Escrituras e o cristianismo são estudados de uma perspectiva não cristã. Abriu-se a porta para o velho liberalismo.



Não há saída fácil para essa crise. Contudo, vejo a fé reformada como uma alternativa possível e viável para a igreja evangélica brasileira, desde que se mantenha fiel às grandes doutrinas da graça e aos lemas da Reforma, e que faça certo aquilo que os evangélicos não foram capazes de fazer:



(1) dialogar e interagir com a diversidade delineando com clareza as fronteiras do cristianismo;



(2) abandonar o inclusivismo generalizado e adotar um exclusivismo inteligente e sensível;



(3) voltar a valorizar a doutrina, especialmente os pontos fundamentais da fé cristã expressos nos credos e confissões, que moldaram os inícios do movimento evangélico.



Talvez assim possamos delinear com mais clareza os contornos da face evangélica em nosso país.


Rev. Augustus Nicodemus Lopes



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Augustus Nicodemus Lopes é pastor presbiteriano. Bacharel em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte (Recife), mestre em Novo Testamento pela Universidade Reformada de Potchefstroom (África do Sul) e doutor em Interpretação Bíblica pelo Westminster Theological Seminary (EUA), com estudos no Seminário Reformado de Kampen (Holanda). É chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro.

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Fonte: CACP

Livre-arbítrio: Afinal, temos ou não temos?

Por: Rev. Waldemar Alves da Silva Filho


Introdução

Neste estudo, iremos procurar entender a questão que envolve o termo “Livre-arbítrio”.

Trata-se de um tema que trouxe grande discussão durante alguns períodos da História. O entendimento diferente acerca deste tema, ou seja a defesa da existência de um “livre-arbítrio” ou a sua negação, tem divido pessoas até hoje.

Mas, afinal temos ou não temos livre-arbítrio? É isto mesmo que iremos verificar, não só analisando as posições teológicas acerca do assunto, mas, buscando luz da Bíblia para clarear nosso entendimento.

Antes de mais nada precisamos definir o que seja esse tal “Livre-arbítrio”:



1. Livre-arbítrio

“Livre-arbítrio”, tem sido definido, como a capacidade dada ao homem, por ocasião de sua criação, para escolher entre o bem e o mal, entre agradar a Deus ou desobedecê-Lo. Seria o “livre poder de eleger o bem ou o mal”.

Héber Carlos de Campos também a define como tendo sido a capacidade que o homem teve, “de escolher as coisas que combinavam com a sua natureza santa, mas que, mutavelmente, pudesse escolher aquilo que era contrário à sua natureza santa”.

Vejam que tais definições, estão de acordo com o que prescreve a nossa Confissão de Fé:

O homem em seu estado de inocência , tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder.



É importante dizermos que quanto a definição, não existe dificuldade. O problema todo que envolve o tema, é se o homem hoje, depois da queda , possui ou não esse tal de livre-arbítrio.

Antes mesmo de entrar propriamente na discussão, se o homem ainda dispõe dessa capacidade, precisamos dizer algo acerca de uma faculdade natural e inalterada no homem, mesmo depois da queda, chamada de “livre agência” ou “capacidade de escolha”.



2. Livre Agência ou Capacidade de Escolha

Existe no homem uma capacidade tal que lhe dá condições de fazer escolhas, de acordo com o que lhe é agradável. O homem sempre e em qualquer condição, faz as suas escolhas, de tal forma que ele é responsabilizado por elas. “Essa capacidade ou aptidão é um aspecto inalienável da natureza humana normal”. Ele é livre para escolher o que lhe agrada, de acordo com suas inclinações.

Sobre este aspecto da existência humana a CFW diz o seguinte:

Deus dotou a vontade do homem com tal liberdade natural, que ela nem é forçada para o bem nem para o mal, nem a isso determinada por qualquer necessidade absoluta de sua natureza. Ref. Tiago 1:14; Deut. 30:19; João 5:40; Mat. 17:12; At.7:51; Tiago 4:7.



Comentando acerca desta seção da CFW, A. A. Hodge diz o seguinte:

...que a alma humana, inclusive todos os seus instintos, idéias, juízos, emoções e tendências, tem o poder de decidir por si mesma; isto é, a alma decide em cada caso como geralmente lhe agrade.



O homem é livre para escolher, sendo que nada externamente pode forçar suas escolhas. Isto é essencial no homem, faz parte da sua criação a imagem e semelhança de Deus. “À parte dela, não pode haver qualquer responsabilidade, confiança ou planejamento. À parte dela, não pode haver educação, religião ou adoração. À parte dela, não pode haver qualquer arte, ciência ou cultura. A capacidade de escolher é uma condição sine qua non de toda a vida humana”.

A definição de Campos sobre este assunto é também esclarecedora:

Livre Agência, por outro lado, poderia ser definida como a capacidade que todos os seres racionais têm de agir espontaneamente, sem serem coagidos de fora, a caminharem para qualquer lado, fazendo o que querem e o que lhes agrada, sendo, contudo, levados a fazer aquilo que combina com a natureza deles.



Campos ainda falando sobre este aspecto, enfatizando a responsabilidade humana em suas escolhas diz:

É importante que o ser racional que ele aja sempre movido pelo seu ego. A responsabilidade dele sempre estará diretamente ligada à voluntariedade do seu ato. Todos os atos dele devem ser auto-inclinados e auto-determinados.



Portanto, para que haja responsabilidade, não é necessário que haja o poder de escolha contrária, mas sim, que haja o poder de auto-determinação, que a ação seja nascida nas inclinações do ser racional.



Pelo que ficou demonstrado, em qualquer época o homem é livre para agir conforme sua condição, sua natureza, ou seja, ele sempre faz o que quer conforme a sua inclinação.



3. A queda do homem: O que aconteceu ao livre-arbítrio?

Como dissemos acima, na criação o homem recebeu a capacidade de fazer escolhas e possuía também a liberdade de fazer escolhas certas, ou seja podia escolher agradar a Deus, de tal forma que pudesse cair desse estado em que foi criado. O homem foi criado totalmente santo, integro, contudo podia escolher algo que fosse contrário a essa sua natureza. E foi isso o que aconteceu, ou seja, escolheu pecar. “No princípio, portanto, o homem não era um ser neutro, nem bom nem mau, mas um ser bom que era capaz de, com a ajuda de Deus, viver uma vida totalmente agradável a Deus”. Como dizia Agostinho, o homem tinha a “capacidade de não pecar” (posse non peccare).

Neste sentido, até antes de sua queda podemos dizer, o homem possuía o livre-arbítrio, contudo com a desobediência, ele perdeu tal capacidade, sendo que não mais consegue fazer escolhas certas, não consegue agradar a Deus. Suas escolhas serão sempre determinadas pelo estado em que caiu. Suas escolhas serão de acordo com a sua natureza.

É neste ponto que surgem então discussões, pois, diferente da posição Reformada Calvinista, os Arminianos irão afirmar que o homem ainda possui o livre-arbítrio. Ele pode sem a intervenção de Deus, em seu estado natural, fazer escolhas espirituais acertadas.

Para os arminianos a queda do homem, embora tenha trazido algum prejuízo não afetou totalmente o homem, sendo que, continua em seu estado natural a ter habilidades para escolher a salvação, para escolher agradar a Deus. Desta forma, a depravação não foi total.

Vejam mais detalhadamente a posição dos arminianos quanto a depravação do homem:

Embora a natureza humana tenha sido seriamente afetada pela queda, o homem não ficou reduzido a um estado de incapacidade total. Deus, graciosamente, capacita todo e qualquer pecador a arrepender-se e crer, mas o faz sem interferir na liberdade do homem. Todo pecador possui uma vontade livre (livre arbítrio), e seu destino eterno depende do modo como ele usa esse livre arbítrio. A liberdade do homem consiste em sua habilidade de escolher entre o bem e o mal, em assuntos espirituais. Sua vontade não está escravizada pela sua natureza pecaminosa.. O pecador tem o poder de cooperar com o Espírito de Deus e ser regenerado ou resistir à graça de Deus e perecer. O pecador perdido precisa da assistência do Espírito, mas não precisa ser regenerado pelo Espírito antes de poder crer, pois a fé é um ato deliberado do homem e precede o novo nascimento. A fé é o dom do pecador a Deus, é a contribuição do homem para a salvação.



O ensino arminiano segue o raciocínio de Pelágio, com diferença apenas no fato de que este, dizia que a queda não afetou em nada a humanidade, de tal forma que “o homem continua nascendo na mesma condição em que Adão estava antes da queda. Esta isento não só de culpa, como também de polução.” Por isso, os arminianos são considerados semi-pelagianos, pois pensam que o homem depois da queda tenha capacidade para fazer escolhas certas.

Os reformados calvinistas, em contra partida, afirmam que a queda incapacitou totalmente o homem, afetando todas as suas faculdades. O homem após a queda perdeu tal liberdade, sendo agora escravo do pecado, morto espiritualmente.

Vejam mais detalhadamente o pensamento calvinista sobre a depravação total

Devido à queda, o homem é incapaz de, por si mesmo, crer de modo salvador no Evangelho. O pecador está morto, cego e surdo para as coisas de Deus. Seu coração é enganoso e desesperadamente corrupto. Sua vontade não é livre, pois está escravizada à sua natureza má; por isso ele não irá - e não poderá jamais - escolher o bem e não o mal em assuntos espirituais. Por conseguinte, é preciso mais do que simples assistência do Espírito para se trazer um pecador a Cristo. É preciso a regeneração, pela qual o Espírito vivifica o pecador e lhe dá uma nova natureza. A fé não é algo que o homem dá (contribui) para a salvação, mas é ela própria parte do dom divino da salvação. É o dom de Deus para o pecador e não o dom do pecador para Deus.



Os calvinistas neste sentido, seguem os ensinos de Agostinho, que por sua vez combateu os ensinamentos de Pelágio. Agostinho ensinou que quando os seres humanos “pecaram, embora não perdessem a sua capacidade de fazer escolhas, perderam a sua capacidade de servir a Deus sem o pecado – em outras palavras, a sua verdadeira liberdade. O homem tornou-se, então, um escarvo do pecado; ele passou ao estado de ‘não ser capaz de não pecar’ (non posse non peccare).”

A CFW afirma o seguinte acerca disso:

O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso. Ref. Rom. 5:6 e 8:7-8; João 15:5; Rom. 3:9-10, 12, 23; Ef.2:1, 5; Col. 2:13; João 6:44, 65; I Cor. 2:14; Tito 3:3-5.



Calvino também disse o seguinte acerca desta situação do homem:

As Escrituras atestam que o homem é escravo do pecado; o que significa que seu espírito é tão estranho à justiça de Deus que não concebe, deseja, nem empreende coisa alguma que não seja má, perversa, iníqua e impura; pois o coração, completamente cheio do veneno do pecado, não pode produzir senão os frutos do pecado.



O homem, após a queda não possui mais o livre-arbítrio, não pode mais escolher algo que é contrário a sua natureza pecaminosa. Ele está morto, cego, é escravo do pecado.

Esta doutrina defendida pelos calvinistas, pelos reformados, que por sua vez é negada pelos arminianos, não se trata apenas de uma posição teológica diferente, e sim de afirmação bíblica. Nega-la é o mesmo que renunciar a Palavra de Deus neste assunto.

São inúmeros os textos que afirmam tal verdade, falando que o homem está incapacitado totalmente de atender ao convite de salvação, de atender as exigências divinas. Isto acontece por seu próprio pecado, por sua própria inclinação e desejo. À parte da graça de Deus o homem, por sua própria iniciativa não pode salvar-se, ou escolher isto.

Vejamos textos que servem de base para a doutrina calvinista:

1. O homem está morto, incapaz de qualquer bem, precisando da intervenção divina: Jr 13.23; Ef. 2.1-10; Rm 3.9-18, 23; Cl 2.13; Tt 3.3-5.

2. O homem não consegue ir até Jesus, senão com a ajuda somente de Deus: Jo 6.44, 65; Rm 9.16.

3. O homem precisa nascer de novo, contudo, isto só aconteça através da atuação do Espírito Santo, que age soberanamente: Jo 3.1-15.

4. O homem não pode compreender as coisas espirituais, senão pelo Espírito: I Co 2.14-16.

5. A Bíblia declara que o homem está cego, é escarvo do pecado. Não pode fazer outra coisa senão pecar, a não ser que Deus mude seu estado: Ef. 4.18; Jo 8.31-36; Jo 9.35-41; Rm 6.15-23; 2 Tm 2.26.

6. O homem não pode apresentar um fruto diferente daquilo que ele é: Mt 7.16-18; Tg 1.16-18.

Percebam que, afirmar que o homem tem o livre-arbítrio, é o mesmo que ignorar tais textos da Bíblia.

É importante enfatizar que, o homem mesmo neste estado, continua ser um agente livre, ou seja, ele exerce “a livre agência”. Isto quer dizer que continua a fazer as suas escolhas, contudo, não escolhe nada que seja contrário a sua natureza pecaminosa (Jo 5.40; Tg 1.14; Mt 17.12; At 7.51; Ef 2.3). O homem nunca é forçado a fazer algo que não deseja. Faz sempre aquilo que lhe traz prazer.

Sobre isto, diz Calvino:

Não pensemos, entretanto, que o homem peca como que impelido por uma necessidade incontrolável; pois peca com o consentimento de sua própria vontade continuamente e segundo sua inclinação. Mas, visto que, por causa da corrupção de seu coração, odeia profundamente a justiça de Deus; e, por outro lado, atrai para si toda sorte de maldade, por isso afirmamos que não tem o livre poder de eleger o bem ou o mal – que é o que chamamos livre-arbítrio.



Campos diz também o mesmo:

Originalmente, antes da queda, o homem teve tanto o livre arbítrio como a livre agência. Depois da queda o homem ficou somente com a livre agência, pois perdeu tanto o desejo quanto a capacidade de fazer o bem, isto é, o poder de agir contrariamente à sua natureza.



Assim, é o homem quem escolhe continuar no pecado, contudo, não tem capacidade, por causa do seu próprio pecado e maldade, para escolher coisa diferente a não ser que suas inclinações e vontade sejam transformadas por Deus, recebendo habilidade para escolher o que é bom e reto. Por isso o homem é sempre responsabilizado por seus atos, pois, sempre escolhe o que lhe agrada.



4. Na Redenção do Homem: O que acontece ao livre-arbítrio?

Quando Deus em sua livre graça, resolvendo salvar o homem, age em seu coração, pela ação do Espirito lhe implanta vida, o que acontece é que o homem recebe habilidade para escolher o que é reto e bom. A Bíblia descreve este ato, como o da libertação de um escravo, dando-lhe liberdade para escolher o que é agradável a Deus, contudo, muito embora liberto, pode ainda inclinar-se para o pecado. O homem passa a desejar o que é bom. Isto não significa que não deseje o pecado, pois, ainda permanece nele a imperfeição.

Sobre isto diz a CFW:

Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta da sua natural escravidão ao pecado e, somente pela sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção, ainda nele existente, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau. Ref. Col.1: 13; João 8:34, 36; Fil. 2:13; Rom. 6:18, 22; Gal.5:17; Rom. 7:15, 21-23; I João 1:8, 10.



Estaria o homem regenerado na mesma condição de Adão antes da queda, ou seja, teria ele agora novamente o livre-arbítrio? Não, pois, não voltamos a ser como era Adão. Ele era perfeitamente reto, santo, e podia escolher algo que fosse contrário ao que era a sua natureza. O homem regenerado, recebe liberdade para escolher o que é bom, contudo, não tem o livre arbítrio, pois não escolhe algo contrário ao que ele é. Ou seja, quando escolhe o que é bom, faz isso de acordo com a sua nova natureza criada em Cristo e quando escolhe pecar, faz isso, conforme a sua natureza carnal. Esta é a luta que reside dentro do homem restaurado. Ele não pode dar lugar ao velho homem (Ef 4.17-24; Cl 3.1-11).

É importante ressaltar que, sendo regenerado o homem recebe habilidade, que antes não tinha, para escolher a Deus. Conforme Agostinho, o homem recebe a capacidade de não pecar (posse non peccare). Por isso, e somente assim, pode atender ao convite do Evangelho para a sua salvação. O homem na regeneração, continua a exercer a sua “livre agência”.

Vejam como a CFW, fala da condição que o homem para fazer escolhas espirituais, como um ser ativo:

Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça. Ref. João 15:16; At. 13:48; Rom. 8:28-30 e 11:7; Ef. 1:5,10; I Tess. 5:9; 11 Tess. 2:13-14; IICor.3:3,6; Tiago 1:18; I Cor. 2:12; Rom. 5:2; II Tim. 1:9-10; At. 26:18; I Cor. 2:10, 12: Ef. 1:17-18; II Cor. 4:6; Ezeq. 36:26, e 11:19; Deut. 30:6; João 3:5; Gal. 6:15; Tito 3:5; I Ped. 1:23; João 6:44-45; Sal. 90;3; João 9:3; João6:37; Mat. 11:28; Apoc. 22:17.



Esta vocação eficaz é só da livre e especial graça de Deus e não provem de qualquer coisa prevista no homem; na vocação o homem é inteiramente passivo, até que, vivificado e renovado pelo Espírito Santo, fica habilitado a corresponder a ela e a receber a graça nela oferecida e comunicada.

Ref. II Tim. 1:9; Tito 3:4-5; Rom. 9:11; I Cor. 2:14; Rom. 8:7-9; Ef. 2:5; João 6:37; Ezeq. 36:27; João5:25.



É o homem que diz sim a Deus, que diz sim ao chamado do Evangelho, depois de Ter sido habilitado, libertado do pecado. O abrir do olhos, a nova criação, o nascer de novo, é obra da livre graça de Deus e se não for assim, ninguém poderá crer em Cristo. Se não recebermos a fé que vem do Senhor, nunca poderemos crer. Maravilhosa graça!



5. Na glorificação do Homem: Terá o livre-arbítrio?

Quando formos glorificados, por ocasião da vinda de Cristo e completação de nossa salvação, teremos de volta o livre-arbítrio? Não, na glorificação, não voltaremos a ser como Adão, estaremos à frente dele, pois, ele quando criado não gozava de uma perfeição permanente, ou seja, podia cair de tal estado. Ele podia escolher algo contrário a sua natureza, contudo, se tivesse sido obediente poderia Ter alcançado a perfeição permanente. Os crente glorificados alcançarão o que Adão não pode alcançar. Teremos perfeita liberdade para servir a Deus. Continuaremos a ser agentes livres, pois, escolheremos o que estará de acordo com a nossa natureza perfeita. Nunca escolheremos pecar, pois, não haverá tal possibilidade, então, nunca mais teremos o livre-arbítrio.

Desta forma, como disse Agostinho, alcançaremos o estado “não posso pecar” (non posse peccare).

Diz a CFW:

É no estado de glória que a vontade do homem se torna perfeita e imutavelmente livre para o bem só. Ref. Ef. 4:13; Judas, 24; I João 3:2.



Comentando a CFW, Hodge diz:

Quanto ao estado dos homens glorificados no céu, nossa Confissão ensina que continuam, como antes, agentes livres; contudo, os restos de suas velhas tendências morais corruptas, sendo extirpadas para sempre, e as graciosas disposições implantadas na regeneração, sendo aperfeiçoadas, e o homem todo, sendo conduzido à medida da estatura do varão perfeito, à semelhança da humanidade glorifica de Cristo, permanecem para sempre perfeitamente livres e imutavelmente dispostos à perfeita santidade. Adão era santo e instável. Os homens não regenerados são impuros e estáveis; isto é, são permanentes na impureza. Os homens regenerados possuem duas tendências morais opostas, digladiando-se pelo domínio em seus corações. São lançadas entre elas, contudo a tendência graciosamente implantada gradualmente por fim prevalece perfeitamente. Os homens glorificados são santos e estáveis. São todos livres e, portanto, responsáveis.



Portanto na glorificação, seremos para sempre livres, sem também o livre-arbítrio para sempre.







Conclusão

Os reformados, os calvinistas crêem no livre-arbítrio, como tendo sido uma habilidade concedida a Adão e perdida na queda. Desde então o homem ficou desprovido de qualquer habilidade para fazer escolhas santas, agradáveis a Deus. Não lhe resta outro desejo senão o de pecar, conforme as inclinações de seu próprio coração, sendo assim, um agente livre e responsável.

Cremos que, nunca mais tal habilidade fará parte da existência humana. O fato de Deus nos libertar do pecado nos habilitando a fazer escolhas acertadas, não é o mesmo que dizer que temos o livre-arbítrio. As escolhas sempre estarão de acordo com a nossa natureza, ou naturezas.

Nem antes, nem depois, voltaremos a ser como era Adão. Na glorificação estaremos à frente dele, num estado em que o pecado não será possível.

Dizermos que existe um tal de livre-arbítrio, seria o mesmo que dizer que Deus não é soberano sobre a salvação do pecador, que Ele está sujeito ao querer do homem.

Se não fosse Deus, sua graça o que seria de nós, nunca escolheríamos a Ele.

Que o estudo acerca desse tema, possa-nos motivar a glorificar a Deus por causa da sua graça que, agindo em nós mudou nos inclinações e vontade, fazendo-nos querer, desejar, o que não queríamos nem desejávamos.



Sola Gratia!

Soli Deo Gloria!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

BREVES E LIVRES APONTAMENTOS SOBRE O FUNDAMENTALISMO

O fundamentalismo quer uma espécie de "volta" ao pensamento tradicional da Reforma, mas os reformadores não foram em nada "literalistas" na interpretação da Escritura, como o são os fundamentalistas.

Basta destacar a reserva que tinha Lutero com alguns livros da Bíblia, como, por exemplo, Tiago, Hebreus e o Apocalipse: para Lutero havia uma chave hermenêutica de interpretação da Bíblia, que era o "Cristo da justificação pela fé". Quando algo, em algum texto bíblico, lhe parecia contrário a este ponto, ele o tratava de modo "crítico".

Calvino, por sua vez, tinha como chave hermenêutica a questão da "soberania de Deus" e, de igual modo, fez a sua leitura da Bíblia partindo deste princípio e coordenando textos à luz disso.

Vê-se, pois, que os reformadores foram na verdade proto-críticos da Bíblia (visto que o criticismo bíblico só surgiu no Séc. XVIII), lançando, assim, as bases principais da chamada crítica bíblica.

O fundamentalismo só pode ser entendido no seu embate em relação ao liberalismo. Ele é reação no final do Séc. XIX, ao liberalismo desenvolvido nos Séc. XVIII e XIX.

Na base deste conflito estão dois modos de ler a realidade e seus métodos: o empirismo, com seu método indutivo e o racionalismo idealista com o seu método dedutivo.

Para o idealismo o homem não é uma tábula rasa, mas já tem, em si, antes de qualquer experiências, idéias natas que o ajudam a conhecer a realidade. Razão por que o conhecimento, no idealismo, é um conhecimento da realidade mediado, ou seja, antes vêm as idéias e, depois, o conhecimento da realidade.

O empirismo vê o homem como uma tábua rasa, sem qualquer verdade nata que o habilite ao conhecimento da realidade. Razão por que entendem que o conhecimento depende da experiência: se a realidade não passar pelos sentidos.

Na filosofia clássica moderna destacam-se Francis Bacon (inglês) como empirista e René Descarte (francês) como idealista. Descartes deduziu a sua existência de seu pensar, no famoso axioma: "Penso, logo existo". Bacon, por outro lado, dizia que todo conhecimento se baseia na observação e, desta experiência, induz-se a verdade.

David Hume (escocês), empirista, muito contribui para a doutrina do senso comum. Criticando Descarte (e o método cartesiano, ou seja, o dedutivo) desprezou como tola ilusão o método dedutivo de causa e efeito (ou a chamada "noção de causalidade").

Seguindo Hume, Thomas Reid fundamentou a teoria do senso comum: todos podemos experimentar, todos podemos observar e, por isso, todos podemos chegar às mesmas conclusões, visto que não há idéias prévias mas, somente, os fatos em si que só podem expressar uma única verdade. O conhecimento está ao alcance de qualquer pessoa, visto que não depende de nenhuma outra mediação (seja filosófica, seja científica ,ou mesmo de idéias inatas): basta observar e deduzir.

Em suma: a realidade é diretamente acessível e sua compreensão não depende de mediação qualquer. Conclusão:

• a verdade é universal, o que significa: ela é a mesma em todo lugar e em qualquer época, visto que é imutável e não adaptável às circunstâncias;

• a linguagem expressa o real: se a verdade é única e universal, pode ser expressa em qualquer tempo e lugar, ora, como a expressão e a transmissão da verdade se faz pela linguagem, esta não depende de interpretações, pois é a fiel transmissão da realidade;

• a memória pode registrar objetivamente o passado: ora, se a verdade é universal, se pode ser transmitida fielmente, pode, também, ser armazenada de modo inalterado.

Aplicando-se estes princípios à teologia, chega-se à conclusão de que não existem fatores capazes de alterar a compreensão de algo (sejam sociais, econômicos, políticos, culturais, étnicos, psicológicos). A verdade é única, universal e imutável. Não se deve levar em consideração as questões quer da teoria da comunicação, quer da filosofia da linguagem: a verdade é universal e a linguagem (o texto) a transmite corretamente. Por outro lado, o interlocutor pode receber esta mensagem de modo claro e sem necessidade de mediações. Cabe pois, acolher o relato, que, por usa vez, foi acolhido pelos seus transmissores, e, como eles, devemos armazenar e transmitir.


Veremos, neste ponto, a relação entre a filosofia do senso comum e o conceito de "inerrância bíblica" do fundamentalismo.

Tanto em Lutero como em Calvino a volta a Bíblia significou a redescoberta da palavra que Deus dirige à humanidade através dos patriarcas, profetas e, sobretudo, Jesus Cristo. O que estava em questão não era, por isso, a "letra" (gramata - termo usado por Paulo: " a 'gramata' mata"). Calvino mesmo chega a questionar os "literalistas" quando combate os anabatistas no IV livro das Institutas.

Porém, no fundamentalismo a Palavra de Deus é uma questão de letra. Para estes a Bíblia só pode ser a revelação perfeita de Deus se for isenta de equívocos ou paradoxos. Por isso privilegiaram o termo "inerrância" sobre "inspiração plena" ou mesmo "infalibilidade". Assim, a Bíblia é autoridade religiosa porque nela não há erro qualquer, de qualquer natureza.

Desta base de "inerrância" é que nasce o conceito de "inspiração verbal". Os autores bíblicos reproduziram o que Deus determinou: não é uma questão de "inspiração" mas algo semelhante a uma espécie de ditado. Os manuscritos originais (e não os fragmentos e cópias mais antigas que dispomos) não tinham erros. Nota-se nesta postura já uma defesa contra a crítica bíblica, pois, como não temos os textos autógrafos dos autores, não se pode verificar o valor desta afirmativa axiomática fundamentalista.

O conceito de inerrância bíblica é, pois, no fundamentalismo, uma questão de fé (um axioma). Mesmo que haja discrepâncias entre os Sinóticos, por exemplo, ao descreverem fatos da vida de Jesus, isso não fere o principio da inerrância, solucionando-se o problema com a idéia da complementação recíproca, onde passagens mais difíceis são interpretadas com a ajuda das mais fáceis e com uma explicação extra-textual.

Mesmo que aqui ou acolá um fundamentalista aceite que existem erros geográficos e gramaticais em um texto, todos concordarão que em duas coisas a Bíblia não erra: nas verdades espirituais e na verdade histórica. Por exemplo: se Jesus citou Jonas como exemplo, Jonas não é um personagem, mas uma figura histórica que verdadeiramente foi engolido por um peixe enorme (Lc. 11:30); se Jesus referiu-se a Caim e Abel, eles foram figuras históricas e não meros personagens de antigas tradições (Lc. 11:51). Na Bíblia não existe mito, lenda, saga, narrativa parabólica (só parábolas). Se a burra de Balaão falou, não podemos ver nisso uma fábula (histórias em que os bichos falam), mas fato histórico; a questão, por exemplo, da esposa de Caim, soluciona-se dizendo que ele casou com uma sobrinha, ou irmã, ou filha (ainda que a Bíblia seja contra o incesto); em Mt. Judas se enforcou, em At. jogou-se de um princípio, apela-se, aqui, para a complementação recíproca, no estilo: Judas se enforcou perto de um precipício, caiu (não se sabe como - galho partido?) e seu abdome se cortou na queda; etc.

Mas o literalismo fundamentalista aceita por vezes a alegoria como método de interpretação da Bíblia, mas sempre vista como aplicações figurativas (por exemplo, Cantares de Salomão - onde, esposo e esposa devem ser interpretados como figuras de Cristo e da Igreja; ou mesmo Sara e Hagar, em Gálatas, figuras do eleito para a salvação e do eleito para a perdição). Mesmo nestes casos a alegoria é vista como uma "aplicação".

Mas o fundamentalismo aplicará literalismo e subjetividade conforme o princípio das fundamentais. Note-se: se a Bíblia diz que Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo descansou, verdadeiramente foram dias de 24 horas cada, mesmo que no primeiro dia não houvesse distinção entre noite e dia e os luminares só tivessem sido criados no quarto dia. Veja-se bem: os verbos no texto estão no modo indicativo, ou seja, indicam e não determinam. Porém, quando Jesus diz ao moço rico: Vai, vende tudo que tens, depois vem e me segue e terás um lugar no Reino, este é um texto alegórico e deve ser interpretado. Ou seja, não é para os ricos venderem as suas propriedades, mas para colocarem o Reino em primeiro, e não as suas posses (embora o texto nada fale sobre isso). Entretanto o verbo aqui é um imperativo e não um indicativo. Imperativo é uma ordem. Ordens devem ser cumpridas. Em resumo: o fundamentalismo, quando lhe interessa, trata o indicativo como imperativo e o imperativo como indicativo.

A Escritura deve ser a prova de que a dogmática está certa (ou seja, a Bíblia serve, somente, para justificar e provar o que diz a teologia dogmática). Teologia seria, por isso mesmo, uma repetição sistemática. Para isso elegeram as cartas paulinas como princípio e secundarizaram os evangelhos.

No fundamentalismo teologia e apologética se confundem, sendo, para alguns, uma e a mesma coisa.

Aplicando-se isso ao senso comum (ou este àquilo) tem-se uma espécie de ideologia e não de teologia (não é sem razão que nos EUA o fundamentalismo está ligado aos republicanos e às suas teses reacionárias).

O fundamentalismo é marcadamente ideológico, visto que ele não manifesta uma metodologia ou um princípio hermenêutico, mas uma mentalidade que o torna doutrinariamente rígido, inflexível, bélico: uma espécie de "racismo" teológico. Neste racismo não há lugar para o amor, mas para o ódio teológico e sistemático.

O fundamentalismo é eticamente legalista e, por isso, heteronômico. Conseqüência disso é um afastamento da sociedade, de suas realidades culturais, de suas idéias: "demonologização" daquilo que não lhe é semelhante (narcisismo ético e teológico).

O mundo fundamentalista é séria e irreversivelmente hermético: não há lugar para a criatividade, a novidade, a imaginação, visto que tudo já está decidido e predeterminado (quer na história, quer na prática do indivíduo, pelo legalismo que dita o modo de proceder). A pergunta pelo que e o como fazer é central na ética fundamentalista.

O fundamentalista é social e politicamente reacionário: sua atitude é, de um lado negativista, visto que julga que o mundo caminha para a desgraça, o caos e a destruição final (quialismo), assim, nada há que se possa fazer para mudar isto, daí a atitude passiva em relação à questão social e política. Deus, na Bíblia, já determinou a condenação deste mundo que caminha para desgraças maiores e cumulativas, assim, tentar mudar isso é como lutar contra a vontade de Deus.

A cosmovisão fundamentalista é dicotomista: matéria oposta ao espírito. Assim corpo X alma, espiritual X social, teologia X filosofia estão em contraste irreversível e insuperável. Assim, não existe diálogo com a contemporaneidade, mas relação bélica.

A cristologia fundamentalista é semi-docética: enfatiza e supervaloriza a divindade de Jesus e olha com sérias desconfianças qualquer cristologia que parta da humanidade de Jesus. É semi-docético, por que faz de Jesus um Deus que habitou em um corpo humano, meramente, negando qualquer kenosis (termo retirado de Fil. 2:7 que deu lugar a uma cristologia chamada kenótica que afirma que Deus em Cristo estava limitado, por exemplo, dos atributos externos de Deus: onipresença, onipotência, onisciência, a glória divina, dentre outros).

O fundamentalismo é notoriamente a-histórico (visto que a verdade é universal e a-temporal), o que faz do mesmo algo meramente ideológico.

Embora esteja dentro das diferentes igrejas, ele não se desenvolve eclesiasticamente, mas ideologicamente, por meio de grupos e organizações de fora da Igreja, organizadas e dirigidas por eles para criar métodos e meios de propagarem-se nas igrejas.

Assemelham-se aos escribas e fariseus dos tempos de Jesus que, em nome da sã doutrina, colocaram para fora o seu ódio e mataram Jesus, pretextando piedade e o culto de Deus. Não toleram atitudes como as de Jesus, baseadas na liberdade, na criatividade, na crítica religiosa e doutrinária, na liberdade ética e não legalista.

Rev. Prof. Carlos Alberto Chaves Fernandes
Professor de Introdução e Análise do Novo Testamento e
Professor de Teologia do Novo Testamento do
Seminário Teológico Presbiteriano do Rio de Janeiro

sábado, 19 de junho de 2010

Chuva destrói Igreja Presbiteriana de Cortês

Na Mata Sul do Estado, o rio Sirinhaém invadiu a cidade de Cortês, distante cerca de 103 km de Recife. As pessoas estão deixando as suas casas e procurando os lugares mais altos. Mais de 200 famílias estão desalojadas, segundo o prefeito do município, José Genivaldo dos Santos (Geninho), que decretou estado de calamidade pública.

De acordo com o prefeito, o centro da cidade está todo inundado. "Lojas e casas estão alagadas, algumas chegaram a desabar. A chuva levou mercadorias. Na ilha da Saudade, 12 a 15 pessoas estão ilhadas. O Governo do Estado mandou um helicóptero para salvá-las. Nunca vi um desastre parecido aqui", falou.

Um homem identificado como José Heleno, de aproximadamente 37 anos, morreu devido a um deslizamento de barreira, na rua Aparador, no centro do município. O templo da Igreja Presbiteriana (foto acima) construído em 1931 não suportou a força das águas e tombou, ficando só a fachada. Portanto, aqueles irmãos precisam de ajuda não somente para reconstruírem suas casas e vidas, mas também para reconstruírem o templo que foi completamente destruído.

Veja a reportagem da TV Globo no vídeo abaixo:



A situação e a tarefa a realizar são imensas e isso me fez lembrar o que aconteceu com o povo de Deus, que após a invasão da Babilônia pelos exércitos de Nabucodonosor, viveu aproximadamente 70 anos de cativeiro, mas que com a graça de Deus voltaram paulatinamente, a terra prometida.

É óbvio que os prejuízos foram imensos, pois não tinham mais cidades, muros, casas, ruas, nem templo. O sofrimento e as necessidades foram gigantescas. Tiveram que reconstruir tudo, inclusive suas casas e o templo que fora completamente destruído.

Mas eles conseguiram. Não meramente pelas suas próprias forças, mas pela graça de Deus que levantou e capacitou líderes para ajudar o povo, a reconstruir os muros da cidade, restaurar as casas e por fim, também reconstruírem o templo, um lugar que simbolizava a habitação do Senhor no meio do seu povo e onde estes se reuniam para adorar ao Senhor, contemplando-o na beleza da sua santidade e exaltavam-no por aquilo que ele é e por aquilo que ele fez, fazia e faria.

Desejo que todos nós, num só pensamento, possamos nos unir em oração e em ação, com a finalidade de ajudarmos nossos irmãos que residem naquela cidade a reconstruírem suas vidas, suas casas e também, o templo.

Registro ao final desse pequeno texto os e-mail que recebi do Rev. Lamartine Santana e do Presbítero Frank Penha, que inclusive enviou-me a foto que ilustra tristemente este texto.

Que Deus se apiede daqueles irmãos e de todos que moram naquela localidade


Fonte: Blog dos Eleitos

sexta-feira, 18 de junho de 2010

LIVRE AGÊNCIA

Que significa livre agência ? Se dissermos que significa isenção de responsabilidade diante de algum poder superior, então não existe outro livre agente além de Deus. Contudo, não é esse o sentido em que a expressão "livre agência" e empregada tecnicamente, e segundo o qual ela denota uma agência voluntária — agência sem qualquer compulsão.

A criatura que age voluntariamente, reconhecendo a diferença entre o certo e o errado, esta devidamente sujeita ao governo moral de Deus. O bom senso humano determina que uma pessoa nessas condições é responsável pelos seus atos. Não precisamos entrar em qualquer inquirição metafísica a fim de determinar por meio de quais processos mentais foi formada essa ou aquela volição; basta-nos saber que tal volição foi formada. Se um homem fizer aquilo que não tencionava fazer, naturalmente ele agiu involuntariamente; porém, quando fica comprovada a intenção de perpetrar uma ação qualquer, lendo o sujeito pleno conhecimento da criminalidade dessa ação, então nenhuma sutileza metafísica será capaz de isentá-lo de culpa. Segundo o juízo humano comum, tal homem será considerado responsável pelo erro praticado.

Alguns pensadores têm afirmado que para responsabilizar um agente é mister que a vontade dele tenha a capacidade de autodeterminação. Esses pensadores asseveram ser necessário não somente que o agente atue voluntariamente, mas também que seja possuidor da capacidade de querer agir de modo contrário. Ora, que esse agente tenha a capacidade de agir contrariamente ao que fez fica implícito no seu ato voluntario, isto é, sem compulsão; assim atribuindo a ele a inteira responsabilidade pelas suas ações. Todavia a capacidade de querer agir de modo diferente do que se faz e uma adição suplementar a voluntariedade que o bom senso humano não procura perscrutar; mas, na qualidade de uma perplexidade metafísica, tal questão requer a nossa atenção.

Poder autodeterminador da vontade. E inconsistente com a precisão do pensamento filosófico falar da vontade como determinadora ou decisória. As faculdades da mente não são agentes distintos, de existência separada da própria mente. Podemos afirmar que uma pessoa compreende ou quer, bem como que sua mente compreende ou quer; mas para dizer que a sua compreensão compreende, ou que a sua vontade quer, implica uma filosofia confusa. Se concebermos que a vontade determina a si mesma, assim como uma agulha magnética determina sua posição, sem o concurso de qualquer raciocínio, sem qualquer direito de escolha, estaremos admitindo uma suposição que jamais poderá harmonizar-se com os pontos de vista daqueles que defendem a tese de que a vontade tem a capacidade autodeterminante. Por outro lado, se concebermos que a determinação da vontade é por deliberação própria, ou por qualquer outro processo mental, então a vontade estará sendo representada como um agente distinto, dotado de uma mente inteiramente sua.

Poder da vontade. Essa expressão aponta para uma outra incongruência. Nos atos externos dos seres humanos, poder e vontade são aspectos concomitantes e necessários a um ato qualquer. Com a ausência de um destes aspectos não pode concretizar-se o ato. Porém, além do ato de querer, o que se faz necessário alem da vontade? Qual poder precisa ser conjugado à vontade? Quão errônea seria a suposição de que a vontade tem vontade de exercer a volição, mas não tem o poder! Contudo, algo similar a isso precisa ser concebido, se quisermos emprestar uma significação distinta e inteligente à expressão "poder autodeterminante da vontade”.
 
John L. Dagg
Manual de Teologia, Pg 99.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

SALVAÇÃO: MÉRITO OU GRAÇA?

Por Brain Maiden


Praticamente todos os sistemas religiosos, com exceção do Cristianismo, são, em escala maior ou menor, religiões de méritos e de obras. Eles invariavelmente nos apresentam maneiras pelas quais podemos nos salvar a nós mesmos: uma lei a guardar, um ensino a seguir, rituais a cumprir, sacrifícios a oferecer. O homem ganha sua salvação através de esforços religiosos ou morais, de um tipo ou de outro. O Cristianismo, porém, é uma religião de graça, ou seja, é impossível merecer a salvação: mas ela é recebida como um presente gratuito, imerecido e indevido, da parte de um Deus amoroso e misericordioso. O evangelho proclama que Deus salva, aceita e perdoa as pessoas tal como se encontram, em sua falta de mérito e em sua culpa. Nada podemos fazer para merecer o favor de Deus. Apenas nos aproximamos dele e confiamos em sua misericórdia.

É óbvio que isso não significa que o cristão não se interesse em fazer o bem. O Novo Testamento é explícito em afirmar que um crente em Cristo deve ser “zeloso de boas obras”, mas isso porque ele é um cristão, e não a fim de se tornar um cristão. Deus salva os pecadores simplesmente porque deseja fazê-lo, e ele o faz através da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. A tentativa de acrescentar algo à graça de Deus ou à obra de Cristo através de esforços pessoais para alcançar a retidão pessoal é o que de mais prejudicial existe. A única maneira de sermos salvos é quebrando e despedaçando nossa atitude de retidão pessoal e de autoconfiança, e nos aproximando, humildes e arrependidos, de um Deus de misericórdia e graça. Essa é geralmente a coisa mais difícil que há para nossa natureza orgulhosa e auto-suficiente.

As diversas religiões do mundo se opõem diametralmente a isso. O hindu alcança a “libertação” através da meditação, da disciplina e da devoção. O budista theravada alcança a salvação pessoal ao vencer todo “desejo”, como conseqüência de seguir as quatro honoráveis verdades e a senda óctupla. O Islamismo é também, em grande parte, uma religião de obras. Tive o privilégio de conversar sobre a fé cristã com muçulmanos devotos, sauditas e kwaitianos. Ao abordar a questão do perdão, invariavelmente me garantiram que Alá, de fato, perdoava os pecados; mas jamais encontrei um muçulmano que pudesse dizer, com segurança, que todos os seus pecados haviam sido perdoados e que ele iria para o céu. Parecia que Alá perdoava aqueles que mereciam ser perdoados. A glória da fé cristã reside em que Deus perdoa gratuitamente aqueles que não merecem ser perdoados e que não conseguem erguer um único dedo para se ajudarem a si mesmos.

A mensagem do Novo Testamento é que nossa salvação é alcançada inteiramente, não por nós, mas por Deus. Não é uma questão de encontrarmos Deus, mas sim de Ele nos encontrar. É por essa razão que, ao contrário dos seguidores de muitas outras religiões, o cristão pode Ter certeza absoluta de sua aceitação definitiva por parte de Deus, e de sua entrada no céu. Enquanto os outros só podem contar com a esperança de terem “feito o suficiente”, o cristão pode Ter o conhecimento certo e seguro de que “Deus já fez tudo” por ele, através de Cristo.

Temos, portanto, de decidir entre o Cristianismo e todas as demais religiões. Ou nós mesmos nos esforçamos para que Deus nos aceite, ou Deus, na Sua misericórdia, nos aceita e nos salva do jeito que somos. É uma diferença fundamenta. E é impossível que ambas as colocações sejam igualmente certas.

Todas as Religiões São Iguais?
Brain Maiden
ABU Editora

terça-feira, 15 de junho de 2010

Paganismo versus Cristianismo - ou, Acaso versus Planejado.

Será que tudo que nos acontece é por acaso? Os acontecimentos, quer sejam bons ou maus, ocorrem acidentalmente, de maneira aleatória, sem que haja uma finalidade neles? Os que pensam assim, acham que Deus não determinou, decretou, ou planejou absolutamente nada com relação aos seres humanos, seu futuro histórico ou eterno, e muito menos os acontecimentos diários. Nada foi previsto ou determinado por Deus, inclusive os eventos naturais como terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas, acidentes, quedas de aviões, enfim – nada foi previsto ou determinado por ele. Portanto, tudo é imprevisível como num jogo de futebol. Não se sabe o futuro, não se pode prever absolutamente nada quanto ao fim da história. Junto com seus seres morais, Deus constrói em parceria o futuro, que neste acaso é aberto, indeterminado e incognoscível. Inclusive para ele mesmo.




Ou, será que as coisas que nos acontecem, mesmo as menores e piores, têm um propósito, ainda que na maior parte das vezes desconhecido para nós? Os que pensam assim entendem que Deus criou o mundo conforme um plano, um propósito, um projeto, elaborado em conformidade com sua sabedoria, justiça, santidade, misericórdia e poder. Nada que acontece, mesmo as mínimas coisas, o fazem ao acaso e de forma aleatória, contingencial e casual, mas segundo este plano sábio. As decisões dos seres humanos são tomadas livremente por eles mesmos, mas, de uma forma que não compreendemos, elas acabam contribuindo para a concretização do propósito divino sem que Deus seja o autor do pecado. Tudo que ocorre, coisas boas ou ruins, estão dentro deste propósito concebido antes da fundação do mundo.



A melhor maneira de avaliarmos qual das duas é a visão correta é perguntarmos qual delas se aproxima mais da visão de Deus, do mundo e do homem que a Bíblia apresenta. Como os autores bíblicos concebiam o mundo, a história e os acontecimentos?



Ninguém que conheça a Bíblia poderá ter dúvidas quanto à resposta. Os judeus, ao contrário dos povos pagãos ao seu redor, não acreditavam em sorte, azar, acaso, acidente ou contingências. Eram os filisteus e não os israelitas que acreditavam que as coisas podiam acontecer ao acaso (veja 1Sm 6.9). Os israelitas, ao contrário dos pagãos, não acreditavam no acaso.



Para eles, Deus tinha traçado planos para os homens e as nações, e os mesmos iriam se cumprir inevitavelmente. Estes planos não poderiam ser frustrados por homem algum (Jó 42.2; Pv 19.21; Is 14.27; Is 43.13; Is 46.10b-11). Tais acontecimentos estavam tão inexoravelmente determinados que Deus dava conhecimento deles de antemão, através dos profetas. O fato de que os profetas de Israel eram capazes de predizer o futuro com exatidão era a prova de que o Deus de Israel era superior aos deuses pagãos (Is 46.9-10).



Os autores do Antigo Testamento sempre descrevem eventos que aconteceram aparentemente ao acaso como sendo o meio pelo qual Deus realizava seu propósito final. Assim, o arqueiro que atirou sua flecha “ao acaso” durante uma batalha acabou atingindo o rei de Israel e dessa forma cumpriu a profecia sobre sua morte (2Cr 18.33). A tempestade que atingiu o navio em que Jonas fugia para Társis não foi mera contingência, mas resultado da ação de Deus em levar o profeta a Nínive (Jn 1.4). O amalequita que vagueava “por acaso” nos montes de Gilboa foi o que encontrou Saul agonizante e o matou, cumprindo assim a determinação do Senhor de castigá-lo por ter consultado a pitonisa (2Sm 1.6-10; 1Cr 10.13). O encontro “casual” do profeta com um leão causou-lhe a morte e assim cumpriu a profecia contra ele (1Re 13.21-24). A visita casual que Acazias foi fazer a Jorão e o encontro fortuito com Jeú era tudo “a vontade de Deus” conforme o autor do livro das Crônicas, para que Acazias fosse morto (2Cr 22.7-9). Dezenas de outras passagens poderiam ser citadas para mostrar que na cosmovisão dos autores do Antigo Testamento nada acontecia por acaso, nem mesmo as pequenas coisas.



Até mesmo ações pecaminosas dos homens são atribuídas a Deus pelos autores do Antigo Testamento. O endurecimento do coração de Faraó para não deixar o povo de Israel sair é atribuído à Deus, que queria mostrar sua glória e seu poder sobre os deuses do Egito (Ex 7.3; 9.12). O endurecimento dos filhos de Eli para não se arrependerem do mal praticado é atribuído à Deus que os queria matar (1Sm 2.25). O endurecimento do rei Seom para não deixar Israel passar por sua terra é atribuído a Deus, que queria entregá-lo nas mãos de Israel (Dt 2.30), bem como o endurecimento de todas as nações cananitas (Js 11.20). Ao mesmo tempo, é preciso acrescentar, os israelitas não consideravam Deus como culpado do pecado humano. Ele era santo, justo, verdadeiro e não podia contemplar o mal (Hab 1.13). Todos estes mencionados acima foram responsabilizados por seus próprios pecados.



A visão de um mundo onde as coisas acontecem ao acaso, acidentalmente, sem propósito, é completamente estranha ao mundo dos israelitas conforme temos registrado na Bíblia.



Quando chegamos na pessoa de Jesus, encontramos exatamente a mesma visão de mundo, de Deus e da história, que é refletida no Antigo Testamento. Para Jesus, até mesmo coisas tão insignificantes como o número de cabelos da nossa cabeça (Mt 10.30) e a morte de pardais (Mt 10.29) estavam sob o controle da vontade de Deus. Ele era capaz de profetizar acontecimentos futuros tão triviais quanto o local onde se encontrava uma jumenta e seu jumentinho (Mt 21.2), que Pedro iria achar moedas na boca de um peixe (Mt 17.27) e que um homem estaria em determinado momento entrando na cidade com um cântaro na cabeça (Lc 22.10-12). Obviamente estas coisas não aconteceram por acaso.



Jesus se referiu à vontade de Deus e ao plano dele inúmeras vezes, como por exemplo, ao ensinar aos seus discípulos que tinha vindo ao mundo para morrer na cruz para salvar pecadores (Mt 17.22-23). As parábolas que Jesus contou sobre o futuro de Israel e sobre o dia do juízo deixavam pouca dúvida de que, para Ele, a história caminhava para um fim já traçado e determinado por Deus. No sermão escatológico Jesus predisse com exatidão a queda de Jerusalém, a fuga dos discípulos, o surgimento dos falsos profetas, as catástrofes, terremotos, secas, pestes e guerras que haveriam de suceder à raça humana e as perseguições que sobreviriam a seus discípulos antes de sua vinda (Mt 24).



Os discípulos de Jesus, os autores do Novo Testamento, tinham exatamente a mesma visão de um mundo onde nada ocorre por acaso. Tudo o que havia acontecido com Jesus, como o local do seu nascimento (Mt 2.5-6), sua ida ao Egito (Mt 2.15), sua vinda a Nazaré (Mt 2.23), seus milagres (Mt 8.16-17), sua traição (Jo 17.12), seu sofrimento e sua morte na cruz (At 3.18) – inclusive detalhes como beber vinagre (Jo 19.28-29), ter sua túnica rasgada (Jo 19.24) e seu corpo furado por uma lança (Jo 19.34-36) – tudo isto havia sido determinado por Deus em detalhes, a ponto de Deus ter revelado estes fatos cerca de seiscentos anos antes dos mesmos terem acontecido por meio dos profetas de Israel. Pensemos na probabilidade de atos, decisões e eventos acidentais, aleatórios, ao acaso, contingenciais, acontecerem de tal forma que estas coisas aconteceram exatamente como os profetas tinham dito!



Não só os fatos ocorridos com Jesus haviam sido planejados, inclusive aqueles que cercaram o nascimento da igreja cristã. A substituição de Judas (At 1.16-26), o dia de Pentecoste (At 2.14-17), a rejeição de Israel (At 13.40), a inclusão dos gentios na Igreja (At 15.15-20) – tudo aquilo havia sido determinado por Deus e previsto nas Escrituras pelos profetas. Veja a quantidade de vezes que no livro de Atos se menciona que a história de Cristo e da igreja haviam sido determinadas por Deus e anunciada pelos profetas: Atos 3.18,21-25; 10.43; 13.27,40; 18.28; 26.22.



Nas cartas que escreveram às igrejas, os autores do Novo Testamento jamais, em qualquer lugar, ensinaram os crentes que as coisas acontecem por acaso. Ao contrário, eles ensinaram os crentes que a conversão deles era resultado da vontade de Deus. Eles foram predestinados (Rm 8.29-30; Ef 1.5,11), escolhidos antes da fundação do mundo (Ef 1.4). Os crentes são ensinados a buscar a vontade de Deus, a se submeter a ela e a entender que a vontade de Deus controla a história (Rm 8.27; 12.2; Ef 6.6; Cl 4.12; 1Ts 4.3; 5.18; Hb 10.36; 1Pd 2.15). Até o sofrimento por causa do Evangelho era visto como sendo pela vontade de Deus (1Pd 3.17; 4.19). Eles foram ensinados a ver uma santa conspiração divina em tudo que acontece em favor do bem deles (Rm 8.28), a ponto de serem exortados a dar graças em tudo (1Ts 5.18). Eles são exortados a dizer sempre “se Deus quiser” farei isto ou aquilo (Tg 4.15). Paulo sempre dizia que “se for a vontade de Deus” ele iria a este ou aquele local (Rm 1.10; 15.32). Ele sempre começa suas cartas dizendo que foi chamado “pela vontade de Deus” para ser apóstolo (1Co 1.1; Ef 1.1; Cl 1.1; 2Tm 1.1).



Os cristãos são encorajados a enfrentar firmes as provações e tentações, pois Deus não permitirá que eles sejam provados além de suas forças (1Co 10.31). Eles devem sofrer com paciência em plena confiança que o Deus que está no controle de todas as coisas lhes dá a vida eterna e que ninguém poderá arrancar seus filhos de suas mãos. Eles são consolados com a certeza de que Deus haverá de cumprir todas as suas promessas, e que há um final feliz para todos os que confiam nele e crêem em Jesus Cristo como seu único e suficiente Salvador. Eles são exortados a permanecer firmes pois o bem haverá de triunfar sobre o mal, a justiça prevalecerá e a verdade haverá de vencer. E isto só é possível porque Deus está no controle, porque Ele conduz a história para o fim que Ele mesmo determinou, de uma maneira sábia e misteriosa, na qual os seres humanos e os anjos são responsáveis por seus atos, decidem fazer o que querem e tomam as escolhas que desejam.



À semelhança dos autores do Antigo Testamento, os escritores do Novo também atribuem a Deus o fato de que os ímpios e pecadores impenitentes se afundam cada vez mais no pecado. Paulo por três vezes em Romanos 1 declara que Deus entregou os incrédulos de sua geração à corrupção de seus próprios corações, para que eles se afundassem ainda mais no pecado e na iniqüidade (Rm 1.24,26,28). Aos tessalonicenses, ele declara que Deus manda a operação do erro para que os que rejeitam a verdade e creiam na mentira (2Ts 2.11). Igualmente, à semelhança do Antigo Testamento. O Novo responsabiliza os seres humanos por seus próprios pecados e condenação.



É evidente que não será na Bíblia que encontraremos esta visão de um mundo onde as coisas acontecem por mero acaso, onde tudo é casual e contingencial. Mas, vamos encontrá-la na mentalidade pagã, nas religiões idólatras, de deuses pequenos, impotentes, egoístas. Vamos encontrar esta visão de um mundo onde as coisas ocorrem de maneira aleatória nas idéias dos maniqueístas e gnósticos, ateus e agnósticos, especialmente os evolucionistas, que defendem que tudo surgiu e acontece como resultado de uma combinação fortuita de tempo e de acaso.



Os verdadeiros cristãos, todavia, cantam “acasos para mim não haverá”.



Se tudo acontece por acaso, que combinação inimaginável de ações livres, aleatórias e catástrofes naturais fortuitas poderão unir-se numa conspiração impessoal e totalmente ao acaso para produzir o final que Deus prometeu na Bíblia? Se Deus não é Deus, então o acaso se torna Deus e não temos qualquer garantia de que o final feliz prometido na Bíblia haverá de acontecer.



Não nos enganemos. A discussão entre acaso versus planejamento não é uma disputa teológica entre cristãos arminianos e calvinistas, pois os arminianos e os calvinistas concordam que Deus tem um plano, que ele controla a história, que não existe acaso e que Ele conhece o futuro. Ambos aceitam a Bíblia como Palavra de Deus e querem se guiar por ela. O confronto, na verdade, é entre duas visões de mundo completamente antagônicas, a visão pagã e a visão bíblica, entre as religiões pagãs e a religião bíblica. Posso não entender tudo sobre este assunto, mas prefiro mil vezes ficar ao lado dos autores da Bíblia do que ao lado de filósofos, teólogos e poetas ateus, agnósticos e racionalistas.
 
Autor: Rev. Augustus Nicodemus Lopes


Fonte: [ Ó Tempora, O Mores! ]

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A EUCARISTIA - E A PERSPECTIVA REFORMADA

Antes da Reforma ocorrer a doutrina da Eucaristia era diferente da que nós temos hoje. A primeira realidade é que na “igreja primitiva, a celebração da Ceia do Senhor era o ponto central da adoração cristã”.( GEORGE, Timothy, 1993,p.145). Curiosamente o sacramento da Santa Ceia foi corrompido pala concepção da Transubstanciação ( a substância se transforma ). Tal doutrina passou a ser doutrina oficial na Igreja de Roma no quarto Concílio de Laterano em 1215 (BERKHOF, Louis., 1989, p.226.). Mas, essa idéia é bem anterior conforme podemos ver, pois,“ em 818 d.C um teólogo medieval chamado Pascácio Radbert formalmente propôs a doutrina de que os elementos, pelo poder divino, literalmente se transformam no mesmo corpo que nasceu de Maria” (BERKHOF, Louis, 1989, p.226.).


. No período da Idade das Trevas – ou Idade Média – a Santa Ceia passou a ser vista como algo miraculoso que protegia o viajante da doença, preservava os marinhos da fúria do mar, dava ainda a provisão na lavoura; chegava-se ao absurdo de dizer que a Ceia dava uma boa esposa ao solteiro (TAPPERT, Theodore G., 1961, p.41).

OS REFORMADORES E A EUCARISTIA.

Diante disso, a Reforma se colocou contra estas concepções sobre o sacramento da Santa Ceia. Lutero tinha uma visão muito individual quanto a este sacramento ele “criticou a negação do cálice aos leigos”( SIERPIESKI, Paulo.,sem data, p.8.) Ele expressou dúvidas e criticou a doutrina da Transubstanciação. Lutero rejeitou a concepção de que os sacramentos fossem obras meritórias, e ensinou que eles eram dons da graça de Deus à sua Igreja e devem ser recebidos com fé. (LUTERO, Martinho.2006, p.50.).

O problema se manifestou quando Zwínglio tomou ciência de que Lutero estava ensinando que o corpo de Cristo estava literalmente presente na eucaristia, enquanto o reformador Zwínglio ensinava que o pão e o vinho, da Santa Comunhão, eram apenas memoriais da morte de Cristo, e assim, o estopim estava ativado. Lutero escreve uma carta a um amigo dizendo que a interpretação do reformador Zwínglio estava equivocada (STROHL, Henri., 1989, p.144); o reformador alemão tinha a seu favor um tese de um padre que defendia a consubstanciação que nunca foi negada oficialmente pela Igreja Romana(STROHL, Henri., Ibid, p.225), isso ainda alimentou a concepção de que Lutero estivesse certo.

Houve uma guerra de escritos sendo trocados entre ambos, pois, discordavam energicamente quanto a este assunto; os livros de ambos chegaram a ser vendidos lado a lado pelos jornaleiros da época. Lutero não estava disposto a dizer que a Eucaristia era um mero “símbolo das realidades espirituais” (GONZALEZ, Justo L., 1983, p.71). A grande arma de Lutero era as palavras da Instituição de Cristo “isto é o meu corpo” , não “indica a transubstanciação, mas aponta para o fato de que Cristo está literalmente sobre o pão, ao lado do vinho e sob ambos elementos” (Idem)



UMA SOLUÇÃO PROPOSTA: UMA DIVISÃO PERMANENTE.

Diante de tamanha guerra decidiu-se fazer um debate entre os grupos – luteranos e zwínglianos – para se resolver o dilema. Filipe de Hesse propôs que o debate fosse realizado em seu Castelo em Marburgo no ano de 1529. Lutero estava acompanhado de seu ilustre amigo Melanchton e com outros colegas. E Zwínglio estava acompanhado de Ecolampádio, Bucer que era os líderes principais dos Zwínglianos. O fato curioso neste debate é que dos quinze pontos discutidos entre Lutero e Zwínglio quartoze deles ambos estavam de acordo, mas na questão da Eucaristia ambos discordavam.

O reformador Zwínglio chegou a clamar com lágrimas que desejava concordar com os luteranos (GEORGE, Timothy., Op.Cit, p.150) Travou-se uma guerra exegética. Zwínglio diz que Lutero defende uma doutrina que não pode ser comprovada pelas Escrituras, e não tem a menor coragem de citar uma única passagem. Lutero estava com uma lousa coberta com um pano, e após, a declaração de seu opositor, removeu o pano, e no quadro estava escrito “Este é o meu corpo!”, então, Lutero dirigiu-se a Zwínglio dizendo: “Aqui está a nossa passagem das Escrituras. Você ainda não a tirou de nós.”(Idem) Lutero rejeitou as figuras de linguagem usadas por Zwínglio para mostrar que ali estava empregada uma linguagem não-literal.( KLEIN, Carlos Jeremias.,2006, p.77-82) Mas isso foi em vão. Ambos os grupos ficaram divididos definitivamente.



O EXEGETA DA REFORMA: UMA VISÃO CONCILIADORA.



Na discussão entre Lutero e Zwínglio havia um homem que pensou profundamente sobre essa questão da Eucaristia. Ele nos ofereceu um esclarecimento bíblico e teológico sobre a Ceia do Senhor e a presença de Cristo na mesma. O nome deste reformador é João Calvino considerado o maior exegeta da Reforma Protestante. Para Calvino a Eucaristia era mais que uma simples “cerimônia de comemoração do Sacrifício de Cristo: era um evento de comunhão com o próprio Cristo”( CALVINO, João.,1999,Livro 4, Cap.14, parag.1,9.). Embora ele aceitasse algumas afirmações de Zwínglio, afirmava que Cristo estava presente no Sacramento da Ceia mediante a ação do Espírito Santo, e assim, de fato, o Sacramento poderia ser chamado de Meio de Graça onde os eleitos recebem o que a eles é destinado no sacramento, enquanto que os falsos crentes recebem juízo de Deus; logo, a concepção calvinista sobre a Ceia é que Cristo está real, porém, espiritualmente nos elementos.

Esta concepção de Calvino é a posição das Igrejas Presbiterianas e Reformadas conforme expressa seus símbolos de Fé.( Confissão de Fé de Westminster: Cp.27, Seç. 3; Cp.29, Seç. 1,5,7; veja-se também o Catecismo Maior de Westminster nas perguntas: 162, 168,170) O que aprendemos deste assunto? Aprendemos que Reforma foi movimento onde havia de fato uma reflexão teológica. Aprendemos que os reformadores tiveram que lidar com questões que mereciam ser esclarecidas; mas também aprendemos que aquilo que deveria unir a fé tornou-se uma divisão entre eles. De sorte que mundo está dividido assim: os romanos com a transubstanciação; os luteranos com a consubstanciação; os zwínglianos com a concepção memorial e os calvinistas com a noção da presença real de Cristo nos sacramentos de forma espiritual. Isso deveria nos entristecer? Não. Isto deveria nos estimular a orarmos para que a Igreja de Cristo mostre sua unidade nestas questões singulares.



Referencias Bibliográficas.

BERKHOF, Louis. A História das Doutrinas Cristã, São Paulo: PES, 1989.

CALVINO, João. Intitución de la religión Cristiana, Barcelona: Felire, 1999.

GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores, Trad.Gérson Dudus & Valéria Fontana, São Paulo: Vida Nova,1993).

GONZALEZ, Justo L. A Era dos Reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1983.

LUTERO, Martinho. Do Cativeiro Babilônico da Igreja, Trad. Martin N. Dreher, São Paulo: Martin Claret,.2006.

KLEIN, Carlos Jeremias. Os Sacramentos na Tradição Reformada, São Paulo: Fonte Editorial, 2005.

SIERPIESKI, Paulo. História do Cristianismo I, Da Reforma, Recife: Seminário Batista do Norte – Obra não Publicada, s/d.

STROHL, Henri. O Pensamento da Reforma, São Paulo: Aste, 1989.

TAPPERT, Theodore G. The Lord’s Supper: Past and Present Pratices Filadélfia: Muhlenberg Press, 1961.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A doutrina da predestinação na patrística

PREDESTINAÇÃO

I - Antes de Agostinho - II. S. Agostinho.

S. Agostinho definia a predestinação como "presciência divina e preparação dos benefícios de Deus com que certissimamente se salvam quantos se salvam" (De dono persev. 13,35). Os vários dons sobrenaturais (vocação à fé, graça, justificação, etc.) são atos da benevolência divina, que quer salvar-nos. No contexto polêmico dos Padres, os problemas surgem quando se procura pôr em relação a predestinação com outros dados: existência do mal no mundo, liberdade do homem, retribuição no além, condenação depois da morte. Pode-se sempre, neste caso, prescindir de algum de seus elementos, negando o fato da intervenção de Deus na história (pelagianismo) ou, doutro ponto de vista, a liberdade humana (maniqueísmo), e deixando a pergunta sobre a unidade do plano salvífico (dualismo gnóstico). Nós aqui intencionamos destacar os nomes mais importantes dos primeiros séculos da história da doutrina da predestinação.



I - Antes de S. Agostinho - Apesar da escassa incidência do tema nos escritores cristãos mais antigos, já Clemente insinua os seguintes princípios gerais: a salvação depende de uma iniciativa de Deus (Ep. Ad Cor. 29,1); a salvação não pode ser alcançada sem o concurso das boas obras (ibidem, 33,1); estas obras salutares são, elas mesmas, um dom de Deus (ibidem 32,3-4; 33,1; 33,8). Por sua vez, contra o gnosticismo e o maniqueísmo, os apologetas e seus adeptos afirmam a unidade do plano salvífico, a vontade salvífica universal de Deus e a necessária cooperação do homem sob a influência da graça. Taciano (Orat. Ad Graecos 13) e, com maior evidência, Justino (Apol. I, 12; ibid. 42) e Ireneu (Adv. Haer. IV, 29,2) disto são claro testemunho, embora por predestinação entendam mais uma presciência de Deus do que uma decisão de Deus. Clemente Alexandrino fala dos "justos que Deus predestinou, tendo-os conhecido como tais desde o princípio do mundo" (Strom. VII, 17). Orígenes, que trata deste tema bem amplamente, determina de certo modo o ritmo posterior da teologia oriental. Trata do problema da predestinação de modo particular em seu "Comentário a Romanos" 8 (cf. Comm. In Rom. VII, 7-8). Distingue entre uma presciência divina geral e uma presciência de amor. Neste caso, a presciência, conhecimento que aprova e não de simples previsão, é uma complacência que atinge somente os bons (Comm. In Rom. VII, 7). Presciência e predestinação, portanto, têm a mesma amplidão e o mesmo objeto (ibid. VII, 8). A predestinação se verifica "post praevisa merita" e não como resultado da presciência, que de nenhum modo anula a liberdade e a responsabilidade do homem (ibid. VIVI, 16; De orat. 6). A salvação depende de uma causa e da outra, mas em primeiro lugar e antes de tudo da iniciativa de Deus, que chama todos à salvação. Gregório Nazianzeno (Oratio XXXVII, 13), João Crisóstomo (In Ep. Ad Romanos hom. XVI, 5) - também Cirilo de Alexandria (?) (In Ep. Ad Romanos 8,30) - são mais precisos do que Orígenes quando falam da vontade salvífica universal de Deus e da predestinação: Deus dá sempre sua graça aos predestinados e àqueles que chamou desde o princípio. O concurso humano é necessário para a salvação, embora tudo - até o querer - se deva atribuir a Deus. (Greg. Naz., Orat. XXXVII, 13). J. Crisóstomo, porém, tendo presente os efeitos, ex consequenti, distingue uma dupla vontade de Deus: uma de benevolência e outra de castigo (In Ep. Ad Ephes. Hom. I, 2). E "Embora Deus opere em nós o querer e o agir" (In Ep. Ad Philipp. hom. 8,1), o homem, para salvar-se, tem necessidade das boas obras (In Mat. Hom. 19,2). Nos respectivos comentários dos escritores latinos às passagens da Escritura onde se fala deste mistério, encontram-se muitos textos sobre a predestinação. Com clareza a afirmam Hilário de Poitiers (In os. LXIV, 5) e ainda mais detalhadamente Ambrósio (De fide V, 6, 83).



II - S. Agostinho. Como para os outros problemas, também para este Agostinho constitui um cume da patrística, e sua importância é decisiva para a história desta. Das obras em que estudou o tema da predestinação poder-se-iam citar as seguintes: Expositio quorundam propositionum ex Epist. Ad Romanos; De diversis quaestionibus ad Simplicianum, II; Contra Iulianum; Contra duas epistolas Pelagionorum; Enchiridion; De gratia et libero arbitrio; De correptione et gratia; De praedestinatione sanctorum; De dono perseverantiae; Contra Iulianum opus imperfectum; Epistolae: 194; 214; 215; 217; 225; 226. Muitas e, às vezes, contraditórias são as interpretações que foram dadas a sua doutrina. Para entender a teologia agostiniana da predestinação é preciso levar em consideração não só a vontade salvífica universal de Deus, mas o caráter gratuito da vida sobrenatural para o homem. Tendo em vista estes dois postulados, Agostinho olha continuamente para o mistério da predestinação e predileção de Deus que, ante praevisa merita, elege muitos e lhes dá sua graça para que alcancem a salvação. E, do momento em que todos os homens formam uma só massa damnationis em conseqüência do pecado original, será preciso explicar também por que desta comunidade de pecadores Deus escolhe alguns, predestinando-os para a salvação e não outros. Segundo S. Agostinho, a presciência e a preparação dos meios eficazes para a salvação são os dois elementos necessários da predestinação, fruto da benevolência divina (De dono persev. 14,35). Da parte de Deus, a predestinação é livre e infalível. Isto, porém, não exclui ou anula a liberdade do homem, antes a facilita e lhe dá poder. As dificuldades, no caso, postas à doutrina de Agostinho, provenientes no início do semipelagianismo de origem gálica, confundem, pelo menos em parte, a presciência e a predestinação; na realidade, do momento em que não se identificam, uma pode existir sem a outra (De praedest. Sanct. 10,19). Predestinação significa preparação dos bens; presciência, o prévio conhecimento do bem e do mal. Com esta afirmação, não se alude de modo algum à predestinação ao inferno, embora certamente existam presciência e permissão de uma sanção conseqüente aos próprios deméritos. "Deus conhece antes todas as causas das coisas, e certamente não pode ignorar entre estas também as nossas vontades, que prevê seriam as causas de nossas ações" (De civ. Dei V, 9). Contrariamente a qualquer forma de pelagianismo, a presciência de Deus não anula absolutamente a responsabilidade da vontade do homem que, de sua parte, coopera ou não para a realização do plano salvífico. Fulgêncio de Ruspe e Cesário de Arles prosseguem na linha do pensamento agostiniano, que de um modo ou de outro, inspirará depois, ao longo dos séculos, a teologia do Ocidente.


("Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs", Ed. Vozes e Ed. Paulinas, 2002, pág. 1182)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Silas Malafaia agora quer R$ 1 bilhão

Silas Malafaia quer R$ 1 bi para montar TV e 1000 templos no Brasil afora.



O Portal UOL publicou a notícia que o pastor Silas Malafaia iniciou na semana passada um ambiciosíssimo projeto de arrecadar R$ 1 bilhão junto a "1 milhão de almas". O objetivo, segundo ele, é colocar no ar um canal com programação religiosa em 137 países. O dinheiro seria usado para gerar conteúdo e legendá-lo em várias línguas. O contrato, afirma Malafaia, tem duração de seis meses.


Quem quiser fazer parte do "Clube de 1 Milhão de Almas" tem de doar R$ 1 mil, que podem ser dados à vista ou parcelados. O clube pode ser acessado pela internet, e traz o aviso: "Você que enviar sua semente voluntária de R$ 1.000 (mil reais) para o "Clube 1 Milhão de Almas" receberá o livro "1001 Chaves de Sabedoria", de Mike Murdoch, e um lindo certificado do clube".



O site inclui ainda um "placar" que está sendo preenchido em tempo real. No momento em que este programa vai ao ar são cerca de 4.700 almas já dispostas a entrar para o clube. O site não esclarece se a participação no clube dá algum bônus no post-mortem.



Se não bastasse a reportagem do UOL, a Revista Veja publicou uma matéria afirmando que Silas Malafaia encontra-se sedento. Segundo a revista, a meta do Malafaia é implantar nos próximos cinco anos, 1000 templos pelo Brasil afora. Hoje, ele comanda 97 igrejas. O plano só será possível porque o pastor deixou, há duas semanas, a vice-presidência da Convenção-Geral das Assembleias de Deus no Brasil, que congrega 60% dos pastores da denominação. Malafaia saiu afirmando que a direção se tornara um “caso de polícia”. Na semana passada, o tesoureiro fez o mesmo, dizendo haver “tremendas irregularidades”.



Caro leitor, cansei da MEGALOMANIA malafaiana. Infelizmente até os incrédulos já começaram a se escandalizar com a visão nababesca do tele-evangelista das sementes.



Confesso que diante deste terrível emblóglio só nos resta clamar ao Senhor por misericórdia.



Renato Vargens

Fonte: [ Blog do autor ]

SEMINÁRIO DE ATIVAÇÃO PROFÉTICA, O ENGODO.

"Bem-vindo,

Estes são tempos de uma importância profética extrema sobre as nações da terra onde o Senhor está levantando um exército de “águias proféticas” que vivem nas alturas (dimensão sobrenatural do Reino dos Céus), e dessa maneira governam desde os Céus (assentados nas regiões celestiais ) e são predadores de serpentes na terra (tem autoridade para pisar serpentes e escorpiões e toda força do inimigo).


Neste seminário seremos profeticamente ativados na dimensão sobrenatural e receberemos as estratégias proféticas para desfazer as obras do diabo sobre o território em que nos encontramos. Por isso, os anjos de Deus tocam as suas trombetas e convocam a todas as águias do norte, sul, leste e oeste de nossa nação a se ajuntarem nesses dias a fim de serem treinados e adestrados a levarem o grande e verdadeiro mover profético do Reino de Deus ao redor da terra".

Realmente a simplicidade da Palavra de Deus foi totalmente abandonada. Levar o povo de Deus a crer em algo tão estapafúrdio é no mínimo desprezar completamente a racionalidade. É crer que Deus tem revelado algo totalmente novo para este tempo. Isso contradiz a Palavra em 100% por cento. É crer que se é muito especial para ter uma nova revelação e consequentemente ter autoridade para implantar estas coisas. Qualquer estudante de psicologia vai nominar estas coisas de NPD. Megalomania é um transtorno de personalidade onde a pessoa se vê acima das demais capaz de realizar coisas grandiosas. Megalomania é normalmente entendido como um comportamento mental caracterizado por um excessivo desejo de poder e de glória, é ilusório sentimento de onipotência . Este último pode ser expressa na forma psicopatológica de delírio de grandeza". 1



É preocupante esta forma de comportamento, pois, adoece quem ouve e fomenta uma expectativa interminável. Gostaria de analisar alguns pontos da fala do pretenso "apóstolo". Quero ressaltar que não conheço tal pretenso "apóstolo" pessoalmente e somente pondero idéias.



1 - "Estes são tempos de uma importância profética extrema sobre as nações da terra".



Se o apóstolo Paulo ouvisse uma coisa dessas diria ok? I. Tm. 1:4 "Nem se dêem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora". I Tm. 4:7 "Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas, e exercita-te a ti mesmo em piedade". II Tm. 4:4 " E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas". Pedro chega a dizer que são fábulas artificialmente compostas.



Tal afirmação por parte do pretenso "apóstolo" é sem fundamentação teológica e bíblica, pois, a escatologia do Novo Testamento apontava para um retorno de Cristo imediatamente, naquela geração. Para os escritores do Novo Testamento o tempo do fim já havia sido iniciado com a vinda de Cristo e para eles aqueles eram dias finais. Como pode esse pretenso "apóstolo" afirmar que esses dias em que vivemos são de extrema importância profética para as nações se vivenciamos o tempo do fim? Talvez queira dar um ar de urgência ou importância para sua fala. Tal afirmação é no mínimo infantil para não dizer inócua. Querem sempre trazer uma revelação diferente ou nova e assim querem conseguir se manter em evidência por algum tempo. Já percebeu que todos os anos tais "apóstolos" têm uma nova palavra profética? Ao terminar um ano ou no máximo no início do novo ano lá vem a palavra profética e sempre são coisas faraónicas, estratosféricas e megalomaníacas. Estou pensando em criar um banco de dados com tais palavras proféticas de depois tabular para ver o percentual de cumprimento de tais profecias. Com certeza será zero %.



2 - "onde o Senhor está levantando um exército de “águias proféticas” que vivem nas alturas (dimensão sobrenatural do Reino dos Céus), e dessa maneira governam desde os Céus (assentados nas regiões celestiais ) e são predadores de serpentes na terra (tem autoridade para pisar serpentes e escorpiões e toda força do inimigo).



Essa mania de dizer que os cristãos governam o mundo é algo ridículo. Não encontramos isso no Novo Testamento. Isso somente reflete esse transtorno de personalidade. Tais pretensos "apóstolos" nunca falam de humildade, mansidão, sofrer os danos, suportar as provas etc. Somente falam de conquistas, visões astronómicas e mirabolantes. Agora fico a me perguntar: Deus está levantando um exército de águias proféticas? Cristãos que vivem nas alturas? Que vivem na dimensão sobrenatural de Deus? Vale lembrar que a posição do cristão em Cristo é estar juntamente com Ele nas regiões celestiais, então Deus não precisa levantar ninguém nestas dimensões, pois, eles já estão lá. Só que o pretenso "apóstolo" se esquece que vivemos é neste mundo e a realização das regiões celestiais é o ainda não da teologia. Veja bem que a fala é esquizofrênica. Predadores de serpentes? Quando Cristo disse que pisaríamos serpentes e escorpiões, Ele estava somente encorajando a igreja a nada temer e fazer a obra de pregação do Evangelho rapidamente. Mas os megalomaníacos querem atribuir algo sensacional ao que é simples. Tais disfunções comportamentais somente levam a distorções bíblicas. Para tais profetas a batalha espiritual somente se dá lutando contra o Diabo e suas hostes. Quanta ignorância na Palavra! Existem outras dimensões onde essa batalha se dá, mas eles nada dizem e creio é que porque desconhecem. Esquecem-se que o diabo é criatura debaixo da vontade de Deus e que não pode fazer nada sem que o Senhor permita. Esquecem-se que Satanás já foi derrotado na cruz e que Cristo é o Senhor para todo sempre. Esquecem-se da Soberania de Deus.



3 - "Neste seminário seremos profeticamente ativados na dimensão sobrenatural".



Gostaria de perguntar: Onde está o botão para que eu aperte? Onde está a chave de ignição para esta ativação? Mais uma vez vem a fala descabida: Seremos ativados profeticamente. Parece que toda igreja dorme um sono letárgico. Parece que o pretenso "apóstolo" descobriu a roda em pleno século XXI. Isso somente traz para tais pessoas uma importância que elas não têm. Eles vão mostrar o segredo da ativação profética, pois, somente eles o conhecem, são especiais e os iniciados não o possuem. Isso cheira a gnosticismo puro. Os gnósticos, nos tempos apostólicos e pós apostólicos, afirmavam que haviam recebido um conhecimento especial de Cristo ou de seus apóstolos e assim podiam repassar isso para os outros cristãos, pois, os novos cristãos não o possuíam e precisavam receber diretamente deles. Eles eram os guardiões do conhecimento libertador ou promovedor. Vejo exatamente isto na fala do pretenso "apóstolo", gnosticismo. Tais pretensos "apóstolos" dizem que possuem o conhecimento secreto, talvez revelados a eles por Deus e somente eles podem repassar isso para a igreja. Paulo nos diz em Col. 2: 2-10 "Para que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em amor, e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo, 3 Em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência. 4 E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas. 5 Porque, ainda que esteja ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito estou convosco, regozijando-me e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo. 6 Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele, 7 Arraigados e edificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças. 8 Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; 9 Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade; 10 E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade".



Que simplicidade de Paulo! Nada de ativação profética, conhecimento sobrenatural ou profecias abjetas. É assim que precisamos nos comportar.



4 - "e receberemos as estratégias proféticas para desfazer as obras do diabo sobre o território em que nos encontramos". Que afirmação infantil. Tudo o que foi criado pertence a Deus. Não existem territórios que são dos demônios e outros não. Não existem demônios territoriais. Isso é invenção! Creio que o maior divulgador dessa heresia de demônios territoriais foi Peter Wagner. Hoje Wagner é "apóstolo" nos E.U.A. e dissemina tais ensinos por onde passa e vai conseguindo adeptos. Vale perguntar: "Quais são as novas estratégias proféticas que serão ensinadas que sobrepõem às do Novo Testamento". Cuidado para que não haja acréscimos ao que já está revelado.

5 - "Por isso, os anjos de Deus tocam as suas trombetas e convocam a todas as águias do norte, sul, leste e oeste de nossa nação a se ajuntarem nesses dias a fim de serem treinados e adestrados a levarem o grande e verdadeiro mover profético do Reino de Deus ao redor da terra".

Onde está no Novo Testamento que os anjos de Deus convocam a igreja para alguma coisa? Isso é um absurdo. Anjos são ministradores para aqueles que hão de herdar a salvação. Heb. 1:14.

Treinados e adestrados em que e através do que? Adestramento é para animais. Para mim basta II Tm. 3:16-17. Fica a pergunta que não quer se calar: "Qual é o grande e verdadeiro mover profético do Reino de Deus ao redor da terra?" Para mim não passam palavras soltas ao vento, ou seja, nada. Qual o peso dessa afirmação? Existe realmente mover profético? Que coisa descabida e horrível essa.

Por que durante mais de 2000 anos de cristianismo Deus não revelou estas coisas para os cristãos que vieram antes de nós? Deus fez ou faz acepção de pessoas? Deus foi um covarde com aqueles que nos precederam reservando somente para os cristãos atuais tais conhecimentos sensacionais?

O que realmente precisamos é de Palavra de Deus em nossos púlpitos. O que realmente precisamos é de homens que preguem a genuína Palavra de Deus para alimentos do povo de Deus.

Você pode perguntar: Pr. Luiz Fernando o senhor irá? Não, obrigado.



Ministério Força Para Viver

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OLHA OS TEMAS:



1- Como ouvir a vóz de Deus (Eu respondo: Nas Escrituras)

2- Sonhos e visões (Deus dá a quem quiser, não tem botão para ativar isso)

2- Lutando contra os flecheiros (Não lutamos contra od indios)

4- Os selos de Jezabel (Invenção gospel)

5- O espirito de piton (Invenção gospel)

EU TAMBÉM ESTOU FORA! FICO PENSANDO COMO É FÁCIL TIRAR DINHEIRO DOS QUE NÃO CONHECEM UM POUQUINHO SÓ, AS ESCRITURAS.

Pr. Luis Fernando de Souza
 
Fonte: Graça Plena