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sexta-feira, 30 de julho de 2010

ORIGEM E DESENVOLVIMENTO DO PAPADO


A autoridade monárquica do papa, hoje muito patente sobre a Igreja Católica Romana, é fruto de um longo processo. De um bispo igual aos outros, o de Roma passa a ser o primeiro entre os demais e finalmente cabeça incontestável da Igreja. Sem dúvidas que uma série de elementos contribuiram para este desenvolvimento. Para citar alguns dos mais óbvios temos: Uma linha contínua de bispos ortodoxos, com poucas excessões, nos séculos de formação e expansão e poder. Vários papas de grande envergadura, dos quais devemos citar: Inocêncio (402-417); Celestino (422-432); Leão I (440-461); e Gregório I (590-604). Também ajudou a situação caótica da administração do Império no oeste, dando oportunidade aos papas não só escaparem da tutela do imperador, como também serem elevados ao nível de representantes deste. Ajudou também o uso, devido ou não, dos escritos de Irineu e Cipriano que destacavam a primazia de Roma. Mais tarde seriam acrescentados os documentos falso, tais como a "Doação de Constantino"e os "Decretos de Isidoro". Ao mesmo tempo construiram sobre o conceito agostiniano da Cidade de Deus, sendo esta dirigida da nova Jerusalém, Roma. E por último, a conversão do povos quer posteriormente formariam a Inglaterra, França, Alemanha e o norte da Italia foi estritamente ligada ao apostolado da Igreja de Roma.

1.Até Constantino

Os antigos autores católicos tenham insistido que a Igreja de Roma foi fundada por Pedro e que tenha tido uma linha de papas, vigários de Cristo, desde então. Oscar Cullmann, teólogo protestante, examina detalhadamente a questão de Pedro ter estado em Roma. Conclui que estava lá e lá foi martirizado. Nega entretanto que tenha fundado a Igreja ou passado seus direitos aos bispos subsequentes.. Também temos que Inácio, em princípios do II século, escreveu aos cristãos em Roma. Endereçou a carta à Igreja e não a seu bispo. Todas as outras cartas de Inácio são endereçadas aos bispos das Igrejas. A diferença é significativa.

A lista dos primeiros bispos consta destes nomes: Lino, Cleto ou Anacleto, Clemente (91-100), Evaristo, Alexandre(109-119), Sixto I (119-127), Telesforo (127-138), Higino (139-142), Pio I (142-157), Aniceto (157-168), Soter (168-177), Eleutero (177-193). Estas datas são aproximadas e temos poucas informações do seu pontificado.

Vitor (193--202). Parece ser o primeiro a procurar estabelecer a autoridade papal além das fronteira de sua igreja.

Cipriano. Bispo em Cartago durante o pontificado de Cornêlio e Estevão, contribuiu bastante para fortalecer a autoridade do bispo de Roma. Defendeu as reivindicações petrinas (Mt:16:18) sem entretanto colocar o papa sobre os demais bispos.

Estevão (253-257). Procurou forçar as demais igrejas a seguir o costume romano quanto ao cálculo da data da páscoa.

Um outro elemento que contribuiu para fortalecer a posição de Roma neste período foi a crescente prática das igrejas rurais ou de pequenas cidades serem relacionadas a alguma igreja em cidade grande ou incorporadas num sistema diocesano. Esta prática começou no II século como resultado do sistema missionário das igrejas mães.

2.De Constantino a Gregório Magno

A oficialização da Igreja trouxe em seu bojo rápido desenvolvimento hierárquico. O declínio do Império e sua queda no oeste acelerou ainda mais este processo, particularmente em relação as igrejas ocidentais. Constantino se considerava bispo e até bispo dos bispos em coisas formais e até doutrinárias. Sem sua permissão não se pode reunir um sínodo. sua atuação preparou o caminho para o bispo de Roma se tornar "a episcoporum", como o foi a remoção do governo à Constantinopla.

Roma surge como árbitro entre as igrejas. No conflito entre os arianos e Atanásio, este contribuiu para fortalecer Júlio por ter recorrido ao bispo de Roma, pedindo que convocasse um concílio. Esta e outras questões entre as igrejas do leste e da África foram exploradas pelos papas para fortalecer suas próprias posições. Logo que Damasso foi eleito papa (366), Valentinian e Gratian promulgaram um edito que versava que o bispo de Roma deve ouvir e resolver disputas entre outros bispos. Assim questões religiosas seriam resolvidas pelo "sumo-pontífice"de religião e não pelos magistrados civis.

Siricius (354-398). Conseguiu que um concílio realizado em Roma decretasse que nenhum bispo deve ser consagrado sem o conhecimento e consentimento do bispo de Roma. Mesmo que seja um decreto falso, é muito antigo e exerceu grande influência.

Inocêncio I (402-417). Demonstrou grande ousadia em explorar as reivindicações de Roma, exigindo submissão universal a sua autoridade. Nomeou Rufo bispo de Tessalônica. É a primeira vez que um bispo de Roma nomeia bispo para Iliricum. Insistia que era a obrigação de todas as igrejas ocidentais se conformarem aos costumes de Roma. Afirmava que todas as questões eclesiásticas no mundo devem ser, por direito divino, remetidas à sé apostólica para lá serem decididas. Esta nova reivindicação foi imediatamente rejeitada pelas igrejas da África. Mesmo assim , é a Inocêncio I que a eventual grandeza da Sé de Roma é devida.

Celestino (422-432). durante o exercício do seu papado foi resolvido a mui agitada questão do direito de apelar a Roma decisões nas províncias. Celestino manipulou as questões de uma maneira que sempre saia ganhando o prestígio de Roma, até o ponto de dispensar os cânones de um concílio geral (questão da transferência de bispos de uma sé a outra).

Leão I (440)-461). Homem humilde, insistia que era sucessor de Pedro e que não se pode infringir a autoridade deste. Conseguiu do jovem e fraco imperador Valentino III um edito em que este reconhece a primazia da sé de Pedro e insiste que ninguém pode agir sem a permissão desta sé. No Concilio de Calcedônia (451) os delegados de Leão condenaram um bispo em nome dele, como se fosse por autoridade dele. A este mesmo concílio Leão reclamou bastante porque em um dos seus cânone Constantinopla é elevada ao nível de Roma em direitos e privilégios. A estatura de Leão foi bastante fortificada quando conseguiu interceder com o inimigo e assim salvar Roma em 455 de ser destruída pelos vândalos.

Gregório I (589-604). Possivelmente o maior papa deste período. filho de um senador, adotou o costume monástico. Pretendia ser missionário aos ingleses quando foi consagrado papa aos 49 anos de idade. Reclamou que Máximo foi eleito patriarca de Constantinopla no lugar de seu candidato e suspendeu todos os bispos que o consagraram sob pena de anátema de Deus e do apóstolo Pedro. Repreendeu o patriarca de Constantinopla por ter assumido o título de bispo ecumênico. Eventualmente Máximo foi humilhado pela pressão de Gregório e teve que submeter-se a Gregório.


Recomendamos a leitura de: Cairns, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos. p.127-136

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Predestinação

Martin Bucer (1491-1551)

A palavra grega proorismos significa literalmente "predeterminação”¹, mas a tradução comum é 'predestinação'. São Paulo, de fato, usa o verbo proorizein para significar duas coisas: primeiro, a eleição dos santos e sua separação do restante da massa poluída ² da humanidade perdida (o que a Escritura designa pela palava hibdîl, que é usada pelo Senhor quando ele fala da eleição do seu próprio povo para fora do resto das nações),³ e, em segundo lugar, a eleição dos santos antes mesmo deles terem nascido.4 Agora o objetivo do apóstolo nesta passagem (em Romanos 8), é nos ensinar que Deus nos destinou à salvação antes de nascermos, e muito menos antes que tivéssemos feito qualquer boa obra.


A partir deste fato, ele procede a demonstrar que este propósito de Deus para nossa salvação é fixo e imutável e não pode ser frustrado por qualquer uma de suas criaturas, porque Deus nos adotou por sua própria iniciativa e por sua própria bondade, a qual não pode mudar, e sem qualquer consideração por nosso mérito, que sempre oscila de forma desastrosa.




Por isso presciência, predeterminação e eleição 5 são neste momento, por assim dizer, uma e a mesma coisa, porque Deus nos escolheu em Cristo antes que a fundação do mundo estivesse estabelecida, tendo predeterminado pré-definido (proorisas) nos adotar como filhos.6


Predeterminação (proorismos), então, que chamamos vulgarmente de "predestinação", é aquele ato de designação da parte de Deus, segundo a qual em seu secreto conselho ele designa e realmente seleciona e separa do resto da humanidade, aqueles a quem Ele vai atrair para seu Filho, Jesus, nosso Senhor, e enxertar neles (tendo os trazido a esta vida a seu próprio tempo) [410], e a quem, quando assim atraídos e enxertados, Ele regenerará através de Cristo e santificará para cumprir seus propósitos. Isso, então, como eu disse, é a predestinação dos santos.


Há em adição uma predestinação geral. Proorismos significa simplesmente "pré-determinação", e Deus faz todas as coisas pelo seu predeterminado conselho, 7 atribuindo cada e toda coisa a seu próprio uso, e assim separando elas das outras coisas na medida em que seu uso é definido. Se você requisitar uma definição desta predeterminação geral, ela é a atribuição de cada coisa a seu próprio propósito, segundo a qual Deus, antes de as criar, destinou todas as coisas solidariamente da eternidade para algum uso fixo. Neste sentido, há ainda uma predestinação dos ímpios, pois assim como Deus os formou também a partir do nada, assim Ele também os formou para um fim definido.


Deus faz tudo com sabedoria, sem excetuar o predeterminado e bom uso dos maus 8, porque até mesmo os ímpios são skeuē ferramentas e instrumentos de Deus, e “Deus fez todas as coisas para seu próprio propósito, até mesmo o ímpio para o dia do mal”.9 Os teólogos, entretanto, recusam-se a chamar isso de “predestinação”, preferindo, ao invés, “reprovação”. 10 No entanto, Deus faz todas as coisas bem e sabiamente, e assim não faz nada exceto pelo desígnio escolhido. Ele deu a Faraó uma mente depravada e levantou ele com o propósito de demonstrar o seu poder ao puni-lo. E também odiou Esaú antes que ele tivesse feito qualquer coisa má.11


A Escritura fala em termos tão simples como estes. Na verdade, quem negará que quando Deus formou estes e todos os ímpios ele sabia de antemão, antes que os tivesse feito, o propósito para o qual pretendia usá-los, e que Ele os ordenou e os destinou para esses fins? Então, o que nos impede de chamar de "predestinação" também esses casos? De qualquer forma, Deus não falha em colocar nenhum dos ímpios para um bom uso, e em cada ato de pecado de nossa parte há uma boa obra de Deus. Mas tanto na presente passagem e em Efésios 1, o apóstolo usa a palavra proorizein quando lida com a certeza da boa vontade de Deus para com seus santos, e, portanto, a predestinação divina da qual ele está falando aqui é a marcação dos santos para a participação na salvação .


Essa, porém, não é a razão pela qual muitos afirmam a predestinação somente dos santos, e a reprovação dos ímpios, mas sim porque lhes parece indigno de Deus dizer que Ele tem pré-determinado alguém para a perdição. No entanto, a Escritura não se inibe de afirmar que Deus abandona certos homens a uma mente depravada e trabalha neles para sua ruína, 12 por que, então, é indigno de Deus dizer que ele também decidiu anteriormente abandoná-los a uma mente depravada e trabalhar neles a sua ruína? Mas é intolerável para a razão humana que alguns homens devam, por Deus, ser endurecidos, cegados e entregues a uma mente depravada, e isso é porque é um pensamento ímpio atribuir a Deus a predeterminação e a destinação de qualquer um desses destinos.


Porque o intelecto reconhece que entre os homens, uma pessoa que cegou seu servo e exigiu dele algum serviço que ele não poderia cumprir exceto com o uso da sua visão, e, em seguida, o castigou pelo não cumprimento das suas ordens, seria condenado como absolutamente injusto e cruel. Pelo mesmo critério o homem passa também a julgar a Deus, e decreta que é injusto da parte Dele exigir daqueles a quem Ele endurece, cega e abandona a um espírito de depravação, o tipo de obediência que nenhum homem pode ter, a não ser que para esse mesmo propósito o próprio Deus os regenere, ilumine e conceda um novo e reto espírito, e que é cruel da parte Dele punir esses homens por cometer o tipo de ofensa que é produzida por sua dureza, cegueira e depravação de mente.


A agitação ocasionada por este veredicto de nossa razão tem levado alguns a se desviarem e afirmar, contrariando inúmeras declarações explícitas das Escrituras Sagradas, que Deus iluminará e, no fim, salvará todos os ímpios.13 Outros, no entanto, têm mantido uma honesta e universal crença nas Sagradas Escrituras tem começado a interpretar “endurecido, cegado, entregues à depravação” em termos de “retirou seu Espírito de, permitindo que fossem endurecidos e cegados”. Mas nenhum curso pode satisfazer o intelecto humano, pois é incapaz de reconhecer a justiça com que Deus, mesmo que temporariamente, cega, endurece e entrega a uma disposição depravada os homens de quem ele demanda que seja em todas as suas partes reta e justa. Também não pode deixar de julgar desumano que Deus ainda permita que os homens caiam quando só ele pode salvá-los da queda, e cruel, que castigue os caídos quando, despojados de Sua ajuda, eles não poderiam levantar de seu estado.


Devemos, portanto, rejeitar o juízo da razão nesta área, e confessar que os juízos de Deus são "um abismo grande e inescrutável, mas justo”. Porque Deus é justo em todos os seus caminhos, mesmo quando diante de nossa razão, Ele pareça de outra forma.14 Portanto, devemos confessar que Deus justamente exige de nós uma vida santa, adornada com todas as virtudes, e justamente também endurece, cega e abandona [411] a um espírito da depravação quem ele quer, e ao final, justamente, os condena e pune, enquanto a nós é atribuída toda a culpa de nossa perdição.15


Conseqüentemente, uma vez que esta assentado que diz respeito a glória de Deus declarar que Ele endurece, cega e entrega a uma razão depravada quem Ele escolhe, será óbvio que pode também ser dito que Deus previu e ordenou todas essas pessoas para esse destino, antes de criá-los, pois ele faz todas as coisas de acordo com um plano pré-determinado e imutável. No entanto, deve ser observado neste ponto que para Deus o objetivo final, no caso daqueles que ele endurece e cega, não é a sua perdição. É para seu próprio fim e para sua glória que Deus faz todas as coisas, até mesmo “o ímpio para o dia do mal "e, portanto, as palavras do Senhor para o Faraó foram “Eu levantei você com o propósito de demonstrar meu poder em ti, para que meu nome seja anunciado em toda a terra”.16


De fato, em toda parte nas Escrituras a glória do Senhor, é declarada ser o objetivo de sua vingança dos ímpios. Portanto, ao proclamar a expulsão de todas as nações com terrível vingança, Isaías repete várias vezes a frase "só o Senhor será exaltado naquele dia" 17 Apesar disso, no entanto, o próprio Senhor alardeia o fato de que a perdição dos ímpios é para ele o objetivo imediato, quando os cega e endurece, 18 porque quando Ele está falando em Isaías 6 do endurecimento e da cegueira dos ímpios, acrescenta esta razão, “para que não se arrependam e sejam curados”. Assim também, no capítulo 9 da epístola aos Romanos, os ímpios são chamados “instrumentos da ira, formados e prontos (katērtismena) para a destruição" .19


A natureza da predestinação, então, deve estar clara agora. Em geral, é a divina atribuição de cada coisa a seu próprio propósito, mas a predestinação dos santos, que é o assunto do apóstolo aqui, é a eleição e destinação dos santos para a salvação eterna.


Agora a segunda parte de nossa investigação: por que nós deveríamos considerar a predestinação? O ensino de Philip Melanchthon responde a essa questão de forma muito fiel e devota: é somente a fim de que você possa estar mais certo da sua salvação e poder se agarrar mais firmemente às promessas de Deus.20 A primeira demanda que Deus faz a nós é crer que ele é Deus, isto é, o Salvador, de modo que quando nós o ouvimos convocando para si todos os que estão aflitos e angustiados, 21 nós nos apressamos ansiosamente para ele. Agora, se aqueles a quem Deus chama prestam atenção ao seu apelo, Ele certamente os tem predestinado e conhecido de antemão, e também os justificará e glorificará.


Portanto, o primeiro dever que você deve a Deus é crer que você foi predestinado por ele, porque a menos que você creia nisso, você representá-lo como fazendo uma brincadeira com você quando Ele te chama para a salvação através do evangelho. Porque pelo evangelho Ele convoca você à justificação e à compartilhar da Sua glória, mas essas coisas só podem ser experimentadas por aqueles que foram predestinados, conhecidos de antemão e eleitos para fazê-lo. Todas as obras de Deus são feitas em sabedoria e, portanto, pelo seu desígnio predeterminado. Conseqüentemente, se você duvida que você está predestinado, você também está obrigado a duvidar que você tenha sido chamado para a salvação, que você é justificado, e que, no final, será glorificado: o que significa que você é obrigado a duvidar de todas as promessas relativas à sua salvação e a duvidar do próprio evangelho, isto é, crer que Deus não te dará nada do que Ele oferece no evangelho. Porque é verdade que os crentes tem a vida eterna, e eles não podem duvidar que eles a tem mais do que duvidar da promessa do Senhor que "Aquele que crê em mim tem a vida eterna" .22


Desses comentários, então, será evidente que a razão pela qual nós e os outros devem refletir sobre a predestinação de Deus é que assim a nossa fé na promessa de Deus pode ser reforçada pelo reconhecimento de que, como o apóstolo aqui afirma, os santos podem ter certeza absoluta que aqueles a quem Deus predestinou, ele também chamará, justificará e glorificará, e aqueles a quem já chamou Ele tem, sem dúvida, também conhecido de antemão e predeterminado. Esse é o propósito por trás de cada menção feita pelo apóstolo sobre eleição e predestinação, onde quer que ocorra. Se nós ponderarmos cuidadosamente nisso no que diz respeito a nós mesmos, nossa confiança em Deus será aumentada e com ela o nosso amor por Ele e por todas as coisas boas, assim como, ao entretermos dúvidas quanto à nossa predestinação, juntamente com desprezo e inimizade para com Deus todo tipo de mal encontra uma entrada.


Portanto, devemos rejeitar como a fonte de todas as tentações nocivas à pergunta “nós somos predestinados?” Porque, como já dissemos, a pessoa que tem dúvidas sobre este ponto será incapaz de crer que foi chamado e justificado, o que significa que ele não pode ser um cristão. Nós devemos seguramente confiar, portanto, como fundamento da fé, que todos nós fomos conhecidos de antemão, predeterminados, separados do resto e escolhidos por Deus para este fim, para que possamos desfrutar a salvação eterna, e este é o propósito imutável de Deus. Portanto, devemos dirigir toda nossa atenção e preocupação [412] a nossa resposta a essa predestinação e chamado de Deus, para que possamos trabalhar juntos com Deus para a vida eterna, de acordo com a força que o Senhor já tem nos fornecido e para cujo aumento devemos orar sem cessar.


Mas talvez você esteja se perguntando sobre palavras tais como “Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”, e “Nem todo mundo que me diz: 'Senhor, Senhor' entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a minha vontade” .23 A primeira expressão que diz “Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”, refere-se ao fato de que muitos dos que são chamados através do evangelho, no entanto, não vêm a Cristo, porque não são eleitos. Quanto a ti, portanto, creia no evangelho e venha a Cristo.24 Então, doravante, não haverá nenhuma possibilidade de dúvida, no seu caso, de que você é conhecido de antemão, chamado segundo o Seu propósito, predestinado e eleito.


A outra expressão que diz, entretanto, “Nem todo que me diz: 'Senhor, Senhor'”, destina-se a estimulá-lo a um fortalecimento de zelo pela vontade de Deus, porque é por isso que o Senhor disse isso, e não a fim de gerar dúvidas sobre a sua vocação e eleição. Certamente, é verdade que por mais forte que seja o seu zelo por justiça, mais forte será para você e para os outros se tiver convicção de sua vocação e eleição, 25 porque um zelo ardente de justiça é assim o sinal de um dom de Deus a ser concedido apenas aos predestinados e eleitos. Assim, uma devoção séria à justiça é prova completa de que um homem é predestinado e eleito. Mas, como todas as nossas justiças são tão aleijadas e mutiladas, nós nunca poderíamos ter a certeza de nossa salvação apenas pelos nossos méritos (por não satisfazer a lei de Deus), a garantia da nossa predestinação e eleição deve ser procurada apenas na promessa e no chamado de Deus, e nossa atenção deve ser sempre dirigida para longe de nossa própria justiça, que por si só, é permanentemente uma abominação aos olhos de Deus, e dirigida para a promessa divina.


Por isso o versículo na Segunda Epístola atribuída a São Pedro- “Portanto, irmãos, sejam mais zelosos para confirmar a vossa vocação e eleição, pois se vocês fizerem isso isso vocês nunca cairão” - não deve ser entendido como se a estabilidade da nossa eleição e vocação dependesse em qualquer grau de nossas obras. Em vez disso, por sermos zelosos por boas obras nós cumprimos o propósito para o qual fomos chamados e eleitos, ou, melhor ainda, nos dedicamos a trabalhar juntamente com o Senhor para a sua realização. Por “vocação e eleição” aqui se entende a vida para a qual nós somos escolhidos e chamados, e assim as palavras seguintes “se vocês fizerem isso isso vocês nunca cairão”, equivale a estas palavras “Do caminho do Senhor, que é sua vocação e eleição, você nunca vai cair ", embora, naturalmente, devamos evitar isso pela busca sincera da piedade com a ajuda do Senhor.


Algumas passagens das Escrituras a fim de expor a hipocrisia e estimular o zelo por pureza nos convidam a examinarmos nossas próprias obras e testificam que sem um zelo genuíno para viver de forma a agradar ao Senhor, nós o invocamos em vão. Cada uma dessas passagens devem ser entendidas e consideradas por nós de tal forma que, abandonando a auto-confiança e contando todas as nossas justiças como nada, nós venhamos a, antes de tudo, reforçar nossa confiança na bondade divina e, em seguida, com os gravetos, assim, de uma sólida esperança em Deus e nosso Senhor Jesus Cristo, ardentemente desejar nos tornar aceitáveis a Ele. Como resultado nós devemos prontamente ser estimulados a aspirar a um zelo inabalável em mortificar a nossa carne e buscar a justiça. Até o presente estas observações devem ser suficientes como as razões pelas quais devemos refletir sobre a predestinação de Deus.


A má-compreensão dos Santos Pais, por vezes, tem dado origem à idéia errônea de que nossas boas obras são em algum sentido, a causa da nossa predestinação, alegando que Deus prevê que seu povo abraçará a oferta da sua graça e fará uso digno de sua dádiva, e por esta razão os predestina e predetermina para a salvação. Mas isso é um erro que até mesmo São Tomás corretamente refuta, dizendo que nada de bom em nós é a causa da predestinação.26 O que, entretanto, Deus pode prever em nós, que venha a existir do nada, exceto aquilo que Ele determinou em sua bondade nos dar? Não há absolutamente nada em nós, portanto, que Deus poderia levar em conta ao nos predeterminar à salvação futura; Seu próprio prazer decide tudo o que Ele faz e nos dá.


Naturalmente, um efeito da predestinação se torna a causa de outra: a inspiração do Espírito Santo cria a solidez do juízo, um sólido juízo gera retidão de vontade, uma vontade reta produz santidade de conduta, e conduta santa obtém a recompensa que o Senhor, com sua bondade sem limites, concede. Mas todos esses são apenas o resultado da bondade imerecida de Deus. É estabelecido, portanto, que a nossa confiança de salvação deve ser reforçada pela consideração da predestinação, mas que a segurança da predestinação não deve estar depositada nas nossas próprias obras, mas na promessa divina. E assim [413], com o objetivo de confirmar nossa fé, a predestinação deve ser mantida continuamente em mente, mas nunca devemos permitir que dúvidas sejam lançadas sobre ela a partir de qualquer fonte.


A terceira parte de nossa investigação é saber se a predestinação anula a liberdade da vontade. Estaremos a falar mais longamente sobre o assunto em um capítulo posterior, 27, mas a reflexão sobre a natureza da liberdade da vontade e um firme domínio sobre os resultados da nossa presente discussão da predestinação deve deixar-nos sem qualquer dúvida sobre esta questão. Agora, a liberdade da vontade é a faculdade de agir segundo a própria escolha e decisão sem qualquer compulsão. Repare que eu digo “sem compulsão” e não “sem necessidade”, pois Deus de necessidade quer o que é certo e não pode querer de outro modo, e ainda assim Ele tem a maior liberdade de vontade.28 Nós também, ao final, desfrutaremos plena liberdade quando nós já não formos capazes de querer o que é mau e, necessariamente, querer o que é bom.


Liberdade de vontade, portanto, e livre vontade (isto é, autexousion) é a capacidade de agir de acordo com sua própria decisão, de modo que você age por sua própria iniciativa e não age de forma contrário a sua vontade de assim agir, e isso exclui qualquer poder que venha a compelir ou restringir você contra a sua vontade, mas não o dom de Deus de invariavelmente e necessariamente fazer o que é certo. Predestinação, como essa discussão terá deixado claro, é a divina assinalação dos santos para serem participantes da salvação eterna através de Cristo, o Senhor, Salvação, que por sua vez, significa o gozo, pela inspiração do Espírito de Deus, de discernimento perfeito e de se sólido juízo no que diz respeito ao que é verdadeiramente bom, e a busca dessas coisas com zelo incansável e persistente. Na verdade, na consumação da nossa salvação, quando cada erro e cada corrupção de nossa natureza for dissipada, seremos capazes de aprovar e depois procurar nada, a não ser o que é verdadeiramente bom.


Disso, portanto, se segue que, longe de destruir a liberdade da vontade, a predestinação só realmente a estabelece. Porque o Espírito da verdadeira liberdade que lhe capacita aprovar o bom por si mesmo e buscá-lo de sua própria escolha, por sua própria iniciativa, não sendo compelida por nada contra sua vontade, torna-se sua somente porque Deus tem conhecido de antemão e predeterminado você a ser inspirado e dirigido por este Espírito. Ela é dificilmente livre, de qualquer modo, para abraçar o mal ao invés do bem; ela é antes o erro e a escravidão de Satanás. A verdadeira liberdade, como Santo Agostinho escreveu sagazmente, é "fazer o que quiser e querer o que resulta por salvação” .29 


Estar na pressão de um espírito depravado e de um vergonhoso e eternamente ruinoso desejo para o mal é mais verdadeiramente cativeiro do que servidão, como ensina o apóstolo no capítulo 7 da Epístola. Na nossa loucura supomos que a liberdade implica a habilidade de aceitar ou rejeitar a vida de Deus, quando na realidade a sua rejeição é obra da miserável escravidão e cativeiro do pecado. A verdadeira liberdade da vontade consiste em viver de acordo com os mandamentos de Deus, de sua própria espontânea decisão e volição, e ainda com o mais vivo amor e zelo. Predestinação não pode destruir isso, uma vez que apenas a estabelece.


E assim isso também é agora claro, que a certeza da salvação, que é baseada na predestinação, em nenhum grau prejudica a liberdade da vontade, mas na verdade a aperfeiçoa. Como Santo Agostinho escreveu de forma tão verdadeira “Como Deus não pode cometer um erro, assim nenhum dos predestinados podem falhar em ser salvos" 30


Nossa discussão de um tema tão fértil foi muito breve. mas quem reverentemente ponderar sobre estas observações estará prontamente equipado sobre o assunto da predestinação tão bem que nada será escondido dele do que podemos saber sobre a predestinação para a promoção da piedade. Ao comentar sobre o próximo capítulo da Epístola, trataremos da inocência de Deus em relação a culpa de nossa perdição quando ele não nos predestina para a salvação, mas nos rejeita e endurece.31


Martin Bucer, “Predestination,” in Common Places of Martin Bucer, trans., and ed., D.F. Wright (England: Sutton Courtenay Press, 1972), 96-105. [Some reformatting; footnotes and values original; bracketed inserts original; some spelling modified; and underlining mine.]
___________________________
1Bucer’s word here is praefinitio, In view of the undertone of meaning attaching to predetermnation’, ‘foreordination’ might have seemed a preferable rendering, However, ‘predetmination’ preserves the mot meaning of the Greek which Bucer is anxious to bring out in hi Latin, and so we have used it consistently in this extract. The verb proorizein occurs in Rom. 8. 29 f.
2‘polluted mass’–colluvies.
3Bucer refers to Lev. 20. 24 ff. and Numb. 16.9.
4It is not completely clear whether Bucer ascribe to Paul two different meanings of proorizein or is speaking. of two aspects of one meaning. If rte former seems more likely, it is then difficult to imagine how he would have divided Paul’s uses of the verb (Rom. 8. 29 f.; Eph. 1.
5praescire, praefinire, praeeligere.
6Eph. 1.4 f.
7Cf. Acts 2, 23; Eph. 1. 11.
8. . . omnia, nihil non ad malorum, praefinitum, et bonum usum (?).
9Rom. 9. 22, Provo 16.4.
10Cf., for instance, Peter Lombard, Sentences 1. 40. 1, 4 (PL 192, 631 f.), Aquinas, Summa Theol. 1. 23. 3, Summa contra Gentiles 3. 163. This was also true of Duns Scotus and William of Occam, and of Gabriel Biel; see H. A. Oberman, The Harvest af Medieval Theology: Gabriel Bid and Late Medieval Nominalism, 2nd edit., Grand Rapids, 1967, pp. 187 f.
11Cf. Rom. 1. 28, 9.17,13, Mal. 1. 2 f.
12Cf. Rom. 1. 24, 26, 28, and perhaps also Rom. 9.22, 11. 7 ff., 1 Pet. 2. 8, Jude 4.
13Several of the leading figures in the ‘Radical Reformation’ believed in at least the possibility of the ultimate salvation ‘Of all men, and even of demonic beings as well (cf. G. H. Williams, The Radical Reformation, London, 1962, pp. 843 f.). Conspicuous among these were Hans Denck (who was opposed by Bucer over his belief inter alia in universal salvation when he took refuge in Strasbourg for a short period late in 1526 (ibid., pp. 159 f., 252, with literature noted there; Eells, p. 581; the universalist tendency in Denck’s thought can be observed in convenient translation of his Whether God is the Cause of Evil by Willams in LCC 25, 86-111), Sebastian Franck, Melchior Hofmann and Balthasar Hubmaier. Such Anabaptist exponents of the doctrine of apocatastasis were not above appealing to the speculations of Origen in the same direction. Further documentation of this aspect of the confrontation with the Radicals in Strasbourg can be consulted in Krebs-Rott, of. Index s.v. ‘Wiederbringung’, 2, p. 541.
14Cf. Ps. 36. 6, Rom. 11. 33, Ps. 145. 17.
15At this point Bucer refers to his discussions of this subject above on pp. 70-3 of the Commentary (on Rom. 1. 24), and below on pp, 455-60 (On Rom. 9. 18).
16Rom. 9.17, quoting Exod. 9.16.
171sa. 2.11,17; cf. 19, 21.
18At proximum tamen finem, perditionem malorum sibi esse, dum excaecat et indurat eos, Dominus ipse gloriatur. Cf. Isa. 6. 10.
19Rom. 9. 22.
20Cf. Melanchthon, Loci Communes, 1535, soo. ‘On Predestination’ (CR 21, 451 ff.).
21Cf. Matt. 11. 28.
22John 3. 15.
23Matt. 22. 14, 7. 21.
24Tu ergo crede Evangelio et venisti. Cf. Augustine, credendo venisti; crede et venis; crede et manducasti, etc. (Sermon 30.10, CCL 41, 389; Sermon 131. 2, PL 38, 730; Homiles on John’s Gospel 25. 12, CCL 36,254). Similar formulae are frequent in Luther.
25Cf. 2 Pet. 1. 10.
26Aquinas, Summa Theol. 1. 23. 2, 5.
27I.e., pp. 460-5 Of the Commentary, on chapter 9. 14-21 on the Epistle, translated in this volume, ch. 5.
28The same distinction between sinning of necessity and sinning by compulsion was made by Luther (The Enslaved Will, W A 18, 634) and Calvin (Institutes 2. 3. 5, LCC 20, 294 ff.)
29These words do not appear to be a direct quotation from Augustine. For statements that are more or less close to Bucer’s words of. Homiles an John’s Gospel 41. 8, 10 (CCL 36, 362 f.), The Grace of Christ and Original Sin 1. 14 (CSEL 42, 137), Grace and Free Will 7 (PL 44, 886), The Perfection of Man’s Righteousness 4 (9) (PL 44, 295 f.), Unfinished Work Against Julian 1. 86, 93, 3. 120 (PL 45, 1105, 1110, 1298).
30 ‘words which we cited a short while ago from his work Rebuke and Grace‘, i.e., Rebuke and Grace 14 (PL 44, 924), quoted by Bucer on p. 405 of the Commentary an Romans (1562 edition).
31See n. 15 above.


Tradutor: Emerson Campos Pinheiro.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Confissão Positiva

Há realmente poder em nossas palavras?


por

Antônio Pereira da Costa Júnior




Há alguns dias entrei numa livraria evangélica. Olhando as novidades, vi, estupefato, que as obras que estavam à vista eram aquelas que falavam sobre o poder inerente da língua. Como: “Há poder em suas palavras”, “Zoe: a própria vida de Deus”, “A sua saúde depende do que você fala”, etc.

Conversando com a atendente perguntei-la sobre os livros que estavam mais escondidos, como por exemplo, os livros de teologia, de referências, de história da Igreja, etc. Ela respondeu-me que são livros que não sai das estantes, a não ser que algum pastor, professor ou seminaristas venham a adquiri-los. E disse-me que mais de 90% das pessoas que freqüentam a livraria só compram livros dessa “nova teologia”.

É lamentável que isto seja um reflexo da falta de conhecimento da Igreja hodierna. As pessoas não querem mais pesquisar a fundo o que se vende ou se escuta por ai. Só querem bênçãos, sem se importar com o abençoador. Querem as coisas de Deus, embora não pensem em conhecê-Lo. Buscam o pão da terra, mas rejeitam o pão do céu. Nestas poucas linhas tentarei demonstrar que apesar de estar impregnada na Igreja como um todo, a confissão positiva é uma falha grave da chamada “teologia moderna”.


DEFININDO OS TERMOS

O que é o Movimento do Pensamento Positivo? É a crença em que o pensamento de uma pessoa é o fator primordial em relação a suas circunstâncias. Só em ter pensamentos positivos todas as influências e circunstâncias negativas serão vencidas.

E o Movimento de Confissão Positiva? É a versão cristianizada do pensamento positivo que essencialmente substitui a fé em Deus pela habilidade de ter fé em si mesmo. O simples fato de confessar positivamente o que se crê faz com que o desejo confessado aconteça. (1)

O verbo decretar está sendo conjugado dia-a-dia pelas mais variadas denominações. Não são poucas as pessoas que usam o jargão evangélico: “Tá decretado!” Não faz muito tempo às famosas frases de efeito no meio evangélico eram outras bem menos danosas para a fé cristã, como, por exemplo: “O sangue de Cristo tem poder” – nem sempre usada no contexto correto –, “Tá amarrado!” etc.

Mas, qual o motivo da frase “tá decretado” – e suas variações – estar errada? Não temos que reivindicar os nossos direitos junto ao Pai? Não somos filhos do Rei? As nossas palavras não possuem poder?

Para responder, sinceramente, a estas e outras perguntas, gostaria de dar algumas explicações do por quê não creio na assim chamada “confissão positiva”.

Devemos também lembrar-nos de que o termo “decreto” pertence somente ao Senhor de Toda Glória, como bem falou Rubens Cartaxo Junior: “ Os Decretos eternos de Deus é exclusivo de Sua pessoa o qual fez desde a Eternidade - Sl 33.11; Is 14.26-27; 46.9-10; Dn 4.34-35; Mt 10.29-30; Lc 22.22; At 2.23; 4.27-28; 17.26; Rm 4.18; 8.18-30; I Co 2.7; Ef 1.11; 2.10; II Tm 1.8-9; I Pe 1.18-20. Estes textos demonstram que Deus tem um propósito, ou um plano, para o Universo que criou. Este plano existe antes da criação. É um plano sábio, de acordo com o conselho de Deus. Ninguém pode anulá-lo, pois é Eterno”. (2)

A “confissão positiva” é parte da “teologia da prosperidade”, tão divulgada e recebida pela Igreja brasileira. Esta doutrina vem sendo divulgada há alguns anos no Brasil, especialmente por R. R. Soares que é o responsável pela divulgação dos livros de Kenneth E. Hagin, principal expositor desta doutrina. Hagin diz que recebeu a fórmula da fé diretamente de Jesus, e mandou escrever de 1 a 4 esta “fórmula”. Com ela, diz, pode-se conseguir tudo. Consiste em:

(1) "Diga a coisa" , positiva ou negativamente, tudo depende do indivíduo.

(2) "Faça a coisa" , o que nós fazemos irá determinar a nossa vitória.

(3) "Receba a coisa", a fé irá dinamizar a ação e Deus tem que responder, pois está preso a “leis espirituais”.

(4) "Conte a coisa", para que outras pessoas possam crer. Deve-se usar palavras como: decretar, exigir, reivindicar, declarar, determinar, e não se pode pedir “se for da tua vontade”, pois isso destrói a fé.

Não são poucos os líderes que adotam e pregam essa doutrina. Como disse o próprio R. R. Soares em uma entrevista para a Revista Eclésia, quando perguntado se ele era adepto da teologia da prosperidade, ele respondeu:

“...Agora, eu prego a prosperidade. Prefiro mil vezes pregar teologia chamada da prosperidade do que teologia do pecado, da mentira, da derrota, do sofrimento... A teologia da prosperidade, pelo que se fala por aí, eu bato palmas. Não creio na miséria. Essa história é conversa de derrotados. São tudo um bando de fracassados, cujas igrejas são um verdadeiro fracasso”. (3)

Para muitos, ganhar e ter dinheiro viraram sinônimos de vitória. E o que mais nos impressiona é a suposta “base bíblica” para defender seus devaneios. Um exemplo clássico é o texto de Filipenses 4:13 – que virou um moto na boca dos cristãos hodiernos – que diz: “Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” . Só que os adeptos da teologia da prosperidade ignoram por completo o contexto da passagem. Veja o que diz os versos 11 e 12: “Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter em abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade”.

Em outras palavras Paulo diz-nos que poderia passar por qualquer situação – fome, abatimento, necessidade, ter de tudo e não ter nada – pelo simples fato de que a sua força, em momentos de tribulação ou não, era Jesus Cristo.

Esse movimento pensa que a língua e a mente têm um poder que pode criar as circunstâncias ao nosso redor. Não é mais do que uma “parapsicologia evangélica”. Muitas das coisas que os “doutores da fé” dizem são clones dos ensinamentos do poder da mente, muito explorado pelo Dr. Joseph Murphy anos atrás. Ele escreveu alguns livros como: “Como usar as leis da mente”, “Conversando com Deus”, “As grandes verdades da Bíblia”, “A magia do poder extra-sensorial”, “O poder do subconsciente”, dentre outros.

Vou apenas citar um trecho do livro “A paz interior”, do Dr. Murphy para vermos que se parece muito com os “doutores da fé”. Comentando João 1:5-7 ele diz: “As trevas referem-se à ignorância ou falta de conhecimento da maneira como a mente funciona. Estamos nas trevas quando não sabemos que somos o que pensamos e sentimos. O homem está num estado condicionado do Não-condicionado, com todas as qualidades, atributos e potenciais de Deus . O homem está aqui para descobrir quem é. Não é um autônomo. Tem a capacidade de pensar de duas maneiras: positivamente e negativamente . Quando começa a descobrir que o bem e o mal que experimenta são decorrentes exclusivamente da ação de sua própria mente, começa a despertar do senso de escravidão e limitação ao mundo exterior. Sem conhecer as leis da mente , o homem não sabe como produzir seu desejo”. (4) (grifo nosso)

Vejamos ainda o que Jorge Linhares diz em seu livro: “Bênção e Maldição”, onde mostra um Deus dependente do homem, este é o Evangelho da Confissão Positiva e do Evangelho da Maldição – “Palavras produzem bênção... [ou] maldição... Palavras negativas... dão lugar a opressão demoníaca... ...Palavras positivas (confissão positiva), amorosas, de fé, de confiança em Deus, liberam o poder divino para desfazer a opressão...” (5)


SUPOSTA BASE BÍBLICA DA CONFISSÃO POSITIVA

Existem algumas supostas bases bíblicas que os defensores da confissão Positiva usam para defender esta doutrina, vamos dar apenas três passagens para não tomar muito tempo, no entanto, as demais passagens seguem basicamente esta linha de interpretação.

Marcos 11:22-23 – “E Jesus, respondendo, disse-lhe: Tende fé em Deus; Porque em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será feito”.

Os defensores apregoam que o verso acima ensina que devemos ter a fé de Deus, ou seja, a confissão que gera as coisas. Declarar a existência de coisas que do nada virão a existir, podendo assim criar a realidade que quisermos.

O Pr. Jorge Issao Noda explica muito bem esta passagem em seu livro: “Somos deuses?”, ele diz; “Copeland editou uma Bíblia de referência onde este texto tem uma leitura alternativa: ‘Tende a fé de Deus'. Capps, Price, Hagin, são unânimes nesta interpretação. Hagin afirma, inclusive, que ela está de acordo com a visão dos eruditos em grego. O texto diz: echete (tende) pistin (fé) theou (de Deus). De Deus? Então Deus tem fé! Sendo assim, os mestres da Fé têm razão. Os cristãos, através dos séculos, estiveram interpretando erroneamente este texto. Xeque-mate? De maneira nenhuma. Robertson, um dos maiores eruditos em grego, afirma que o texto deve ser traduzido para ‘tende fé em Deus' porque se trata de um genitivo objetivo. Neste caso Deus não é o sujeito da fé (fé de Deus), mas o objeto da fé (fé em Deus). Os eruditos em grego maciçamente concordam com Robertson, contrariando a afirmação de Hagin”. (6)

Temos que ter fé em Deus, essa nossa fé em Deus é que faz com que os montes que enfrentamos a cada dia sejam superados, não pelo poder inerente a fé, mas no poder inerente do doador da fé, ou seja, o nosso Deus. Sem essa fé não venceremos, mas com Ele somos mais do que vencedores.

Provérbios 6:2 – “E te deixaste enredar pelas próprias palavras; e te prendeste nas palavras da tua boca”.

Este texto, dizem, significa que o poder de não passar por problemas está na língua. No entanto, Salomão está falando da pessoa que ficou por fiador de outro, como expressa o versículo anterior: “Filho meu, se ficasse por fiador do teu companheiro, se deste a tua mão ao estranho, e te deixaste enredar pelas próprias palavras; e te prendeste nas palavras da tua boca”. (grifo nosso)

A Bíblia de Genebra explica o termo “enredado”: “Pedir dinheiro emprestado é uma coisa, mas prover segurança para outrem é caminhar para dentro de uma armadilha feita pelo próprio indivíduo”. (7)

Provérbios 18:21 – “A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto”.

Este versículo explica que devemos ter o cuidado de que nossas palavras não venham a nos trazer situações embaraçosas. Temos que saber como dizer as coisas, pois certamente colheremos situações que são causadas por nós mesmos. No entanto, este verso não dá margem para dizer que são as palavras em si que nos dá o controle das circunstâncias da nossa vida. São situações específicas e não o destino do ser humano que é traçado pela verbalização dos nossos desejos interiores.

Para uma compreensão melhor do que eu quero dizer, deixe-me mostrar-lhes algumas implicações práticas sobre a Confissão Positiva. Se você crer nesta doutrina, então terá que desconsiderar aquilo que eu irei falar a seguir. Mas se você quer ponderar o assunto, leia com atenção as frases seguintes.


IMPLICAÇÕES PRÁTICAS DE SE CRÊ NA DOUTRINA DA CONFISSÃO POSITIVA

Citaremos algumas implicações preocupantes que comprovam a periculosidade desta doutrina para os cristãos menos desavisados:

1 – A Doutrina da confissão positiva aniquila a Soberania de Deus.

Deus não depende das palavras dos homens para agir. Deus é e sempre será Soberano. Soberania é o atri buto pelo qual Deus possui completa autoridade sobre todas as coisas criadas, determinando-lhe o fim que desejar (Gn 14:19; Ne 9:6; Ex 18:11; Dt 10:14-17; I Cr 29:11; II Cr 20:6; Jr 27:5; At 17:24-26; Jd 4; Sl 22:28; 47:2,3,8; 50:10-12; 95:3-5; 135:5; 145:11-13; Ap.19:6).

Já imaginou um Deus que depende do homem para agir? Com certeza Ele entraria em enrascada se estivesse sujeito às oscilações da vontade humana. Eu mesmo não queria um Deus desse tipo. Prefiro o Deus da Bíblia que “tudo faz como lhe apraz”. (Sl 115:3).

2 – A Doutrina da confissão positiva enaltece o homem.

Quando entendemos biblicamente quem na realidade é o homem, ficamos sobremaneira conscientes de nossas falhas e limitações. Quanto mais a confissão Positiva enaltece o homem, mais eu vejo o seu erro. A Bíblia nos mostra claramente que o homem nada é comparado ao Senhor nosso Deus.

A Bíblia retrata como na verdade é o homem (Ezequiel 16:4-5; Is 1:6 Rm 3:10-18; Sal 51:5; 58:3; Is 48:8; João 5:40; Rm 1:28; 3:11, 18; II Pedro 3:5; Rm 8:8; Jr 13:23; João 6:44-45; Rm 8:6-8; Ef 4:18; Rm 1:21; Jr 17:9).

3 – A Doutrina da confissão positiva dá mais valor a palavra falada do que às Escrituras.

Onde fica a luta de reformadores como Lutero? Muitos foram aqueles que lutaram para que hoje tivéssemos a Palavra de Deus em nossas mãos. Muito sangue foi derramado para que pudéssemos ler às Escrituras sem a interferência da vontade humana. Onde fica o princípio da “Sola Scriptura”? A Bíblia deixou de ser relevante para as nossas vidas? Creio firmemente que não e os textos bíblicos confirmam isso - Sl 19:7-11; Sl 119; Jo 5:39; Rm 15:4; II Tm 3:16-17.

Amado irmão, se precisássemos apenas falar e declarar para que as circunstâncias adversas fossem resolvidas e vivêssemos rica e abundantemente sem problemas, então porquê a Bíblia dá tanta ênfase a suportar o sofrimento? Se Paulo tivesse o poder de parar de sofrer decretando, então como foi que ele teve que ficar com o espinho na carne? Deixemos de incoerência e vivamos a verdade da Palavra do Senhor!

“Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte”. II Co 12:10.

4 – A Doutrina da confissão positiva dá um conceito simplista da fé cristã.

O evangelho de Cristo é o evangelho da cruz, da renúncia, do arrependimento, do nascer de novo. O cristianismo de hoje é um cristianismo sem cruz, sem sacrifícios. Gosto de dizer que é o “evangelho boa vida”, evangelho “não-faça-nada-e-ganhe-tudo”. Esse não é o evangelho de Cristo. Basta vermos alguns textos para comprovar o que estou dizendo – Jo 3; Mt 16:24; Mc 8:34; Lc 9:23; Gl 6:12; Mt 3:8; Lc 5:32; II Pd 3:9, etc.

5 – A Doutrina da confissão positiva não tem o respaldo na História da Igreja.

Fico imaginando Lutero ou Calvino orando da seguinte maneira: “Eu decreto que a partir de hoje o papado vai morrer, reivindico que todos os inimigos do evangelho sejam transportados para o inferno. Declaro explicitamente que não mais haverá mais heresias e que os inimigos da cruz de Cristo vão desaparecer da face da terra. Está decretado em nome de Jesus!”

Essa oração nunca aconteceu. Dentro da História da Igreja não se tem notícia de coisas absurdas como essa. Será que todos os grandes homens de Deus estavam enganados a respeito de sua fé? Quando examinamos biografias diversas dos homens de Deus, seja de quem for, notamos uma única nota coerente em todos: Verdadeira humildade. Todos foram humildes em afirmar a soberania de Deus e a fraqueza do homem. Agora, o homem quer mandar em Deus? Meus amados somos servos e não senhores. E basta para nós sermos apenas servos.

Conclusão: Estude a Palavra e não fique por ai repetindo, como papagaio, aquilo que você escuta na televisão. É muito fácil pregar heresias. É muito prático dizer um “abracadabra” evangélico para que tudo se resolva. Difícil é estudar com afinco às Escrituras, passar horas debruçado sobre as páginas santas desse livro. Buscar de Deus o verdadeiro sentido da vida, entender às verdades centrais desse livro, no entanto, é salutar.


Como a Igreja do Senhor está precisando de bereanos hoje em dia. Você quer ser um deles? Oxalá que sim! Deus o abençoe.


SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER




NOTAS:



(1) A Sedução do Cristianismo, pg 268.
(2) Retirado da Internet - http://br.geocities.com/ipnatal
(3) Revista Eclésia, Ano V, Nº 67, Junho de 2001, pg 26.
(4) A paz Interior, pg 14-15, 8 a . edição, Record, Rio de Janeiro - 1979.
(5) Linhares, Pg. 16, 18.
(6) Somos Deuses? P. 28
(7) Bíblia de Genebra, p.732


Sobre o autor: O Pr. Antônio Pereira da Costa Júnior, nasceu em Esperança – PB. Co-Pastor da 1ª. Igreja Congregacional em St a Cruz do Capibaribe – PE. Faz parte do quadro de ministros da AIECB (Aliança das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil). Casado com Esther Monteiro da Costa, e Pai de Rachêl Hellen Monteiro da Costa. Palestrante e pesquisador na área de Apologética em geral, Técnico Agrícola pela UEPB e Bacharel em Teologia pelo STEC (Seminário Teológico Evangélico Congregacional). E fez um curso de Apologética por extensão pelo ICP (Instituto Cristão de Pesquisas). Faz Especialização em Teologia Bíblica pelo SPN – Extensão Campina Grande. E-mail: juniorapologista@yahoo.com.br

Fonte: Monergismo

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A Cruz Antiga e a Nova

A Cruz Antiga e a Nova

A. W. Tozer

Totalmente sem aviso e despercebida, uma nova cruz surgiu nos círculos populares evangélicos nos tempos modernos. Parece-se com a antiga cruz,

mas é diferente: as semelhanças são superficiais; as diferenças, fundamentais. Desta nova cruz brotou uma nova filosofia da vida cristã, e dessa nova filosofia proveio uma nova técnica evangélica - um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Esta nova evangelização emprega a mesma linguagem da antiga, mas seu conteúdo não é o mesmo e a sua ênfase não é como antes. A cruz antiga não fazia barganhas com o mundo. Para a jactanciosa carne de Adão, ela significava o fim da jornada. Punha em execução a sentença imposta pela lei do Sinai. A nova cruz não se opõe à raça humana; ao contrario, é uma companheira amigável e, se corretamente entendida, é fonte de oceanos de boa e limpa diversão e de inocente prazer.



Ela deixa Adão viver sem interferência. A motivação da sua vida não sofre mudança; o seu prazer continua sendo a razão do seu viver, só que agora ele se deleita em cantar coros e em ver filmes religiosos, em vez de cantar canções obscenas e beber bebidas alcóolicas fortes. A tônica ainda está no prazer, embora agora a diversão esteja agora num superior plano moral, se não intelectual. A nova cruz estimula uma abordagem evangelística nova e inteiramente diversa. O evangelista não exige renuncia da velha vida para que se possa receber a nova. Ele não prega contrastes; prega similaridades. Procura caminho para o interesse do público, mostrando que o cristianismo não faz exigências desagradáveis; ao invés disso, oferece a mesma coisa que o mundo oferece, só que num nível mais alto. Seja o que for que o mundo enlouquecido pelo pecado reclame para si no momento, com inteligência se demonstra que exatamente isso o evangelho oferece, só que o produto religioso é melhor. A nova cruz não destrói o pecador; redireciona-o. Aparelha-o para um modo de viver mais limpo e mais belo e poupa o seu respeito próprio. Àquele que é auto-afirmativo, ela diz: "Venha e afirme-se por Cristo". Ao egoísta diz: "Venha e exalte-se no Senhor". Ao que procura viva emoção diz: "Venha e goze a vibrante emoção do companheirismo cristão".



A mensagem cristã sofre torção na direção da moda em voga, para que se torne aceitável ao publico. A filosofia que está por trás desse tipo de coisa pode ser sincera, mas sua sinceridade não a faz menos falsa. É falsa porque é cega. Falta-lhe por completo todo o significado da cruz. A antiga cruz é um símbolo de morte. Ela representa o abrupto e violento fim do ser humano. Na época dos romanos, o homem que tomava sua cruz e se punha a caminho já tinha dito adeus a seus amigos. Não voltaria. Estava saindo para o término de tudo. A cruz não fazia acordo, não modificava nada e nada poupava; eliminava o homem, completamente e para sempre. Não procurava manter boas relações com a sua vítima. Feria rude e brutalmente, e, quando tinha terminado o seu trabalho, o homem já não existia. A raça de Adão está sob sentença de morte. Não há comutação nem fuga. Deus não pode aprovar nenhum fruto do pecado, por mais inocente ou belo pareça aos olhos dos homens. Deus salva o indivíduo liquidando-o e, depois, ressuscitando-o para uma vida nova. A evangelização que traça paralelos amistosos entre os caminhos de Deus e os dos homens é falsa para Bíblia e cruel para as almas de seus ouvintes. A fé crista não é paralela ao mundo; secciona-o. Quando vimos a Cristo, não elevamos a nossa velha vida a um plano mais alto; deixamo-la aos pés da cruz. O grão de trigo tem de cair no solo e morrer.



É preciso que nós, que pregamos o Evangelho, não nos consideremos como agentes de relações públicas enviados para estabelecer boa vontade entre Cristo e o mundo. É preciso que não nos imaginemos comissionados para tornar Cristo aceitável ao grande comércio, à imprensa, ao mundo dos esportes ou à educação moderna. Não somos diplomatas, mas profetas, e a nossa mensagem não é um acordo, mas um ultimato. Deus oferece vida, não porém uma velha vida melhorada. A vida que Ele oferece é vida posterior à morte. É vida que se mantém sempre no lado oposto ao da cruz. Quem quiser possuí-la, terá de passar sob a vara. Terá de repudiar-se a si próprio e aquiescer-se à justa sentença de Deus que o condena.



Que significa isso para o indivíduo, para o condenado que desejar achar vida em Cristo Jesus? Como poderá esta teologia ser transferida para a vida? Simplesmente, é preciso que ele se arrependa e creia. É preciso que ele abandone os seus pecados e então prossiga e abandone a si mesmo. Que não cubra nada. Que não procure fazer acordo com Deus, mas incline a cabeça para o golpe do severo desprazer de Deus e reconheça que merece morrer. Feito isso, que ele contemple com singela confiança o Senhor ressurreto, e do Senhor lhe virão vida, renascimento, purificação e poder. A cruz que deu cabo a vida terrena de Jesus agora põe fim ao pecador; e o poder que levantou Cristo dentre os mortos agora o ressuscita para uma nova vida ao lado de Cristo. A qualquer que faça objeção a isso ou que o considere meramente como uma estreita e particular visão da verdade, permita-me dizer que Deus fixou Seu caminho de aprovação nesta mensagem, desde os dias de Paulo até ao presente. Quer exposto nestas exatas palavras quer não, tem sido este o conteúdo de toda pregação que tem trazido vida e poder ao mundo através dos séculos. Os místicos, os reformadores, os avivalistas, tem posto aqui a sua ênfase, e sinais, maravilhas e poderosas operações do Espirito Santo deram testemunho de aprovação de Deus. Ousaremos nós, os herdeiros desse legado de poder, adulterar a verdade? Ousaremos apagar com os nossos grosseiros lápis as linhas impressas ou alterar o modelo que nos foi mostrado no Monte? Não o permita Deus. Preguemos a velha cruz e conheceremos o antigo poder.

Este artigo foi publicado no antigo portal Textos da Reforma

sábado, 17 de julho de 2010

A IGREJA NA HISTÓRIA - FORMAS DE ORGANIZAÇÃO

Podemos distinguir quatro padrões gerais, embora muitos grupos não se enquadrem exatamente em nenhum deles.


1. Episcopal

É o governo por meio de bispos (episkopoi). É a ordem adotada pelas igrejas anglicana, luterana, metodista (esta com modificações). Um ministério triplo é mantido, abrangendo bispos, pastores (principalmente o clero local, que exerce a liderança nas igrejas e nas paróquias) e diáconos/diaconisas, que trabalham como auxiliares da igreja. Na prática, os diáconos são quase sempre pastores-aprendizes. Só os bispos podem ordenar outros para o ministério e eles traçam a sucessão através dos séculos. Este sistema não tem como reivindicar base bíblica, no sentido de que o Novo Testamento apresente alguma exigência indiscutível quanto ao assunto. Os estudiosos de todas as tradições aceitam hoje a idéia de que os termos episkopos (bispo) e prebyteros (ancião) são equivalentes no Novo Testamento (At 20.17,28; Fp 1.1; Tt 1.5,7). Assim sendo, a idéia da palavra bispos no Novo Testamento não é em geral aquela encontrada no sistema episcopal. Eles eram oficiais da igreja local, havendo quase sempre alguns servindo na mesma igreja, segundo o modelo dos anciãos do Antigo Testamento, na sinagoga judaica.

Por outro lado, as igrejas episcopais destacam dois fatores significativos como apoio ao sistema. Primeiro, a presença de ministérios na igreja primitiva que transcendiam os da igreja local. Os apóstolos são o exemplo supremo neste caso; os profetas parecem Ter às vezes atuado nesse sentido. Timóteo, Tito e Tiago são vistos como exemplos especiais dessa terceira dimensão do ministério do Novo Testamento, desde que foram claramente investidos de responsabilidade sobre várias igrejas. Segundo, não pode haver dúvida de que a ordem de ministério tríplice retroceda quase até a era apostólica, sendo em meados do segundo século o padrão praticamente universal para o ministério cristão. Quando a igreja teve de enfrentar a perseguição extrema e a heresia em seu próprio meio, ela reforçou sua liderança oficial, principalmente o episcopado, a fim de fazer frente a esses desafios. Trata-se, portanto, de uma forma de ministério que provou ser de considerável valor para a igreja no decorrer dos séculos.



2. Presbiteriano

O governo por meio de anciãos (presbyteroi) caracteriza as igrejas Reformada e Presbiteriana em todo o mundo e, com certas modificações episcopais, o Metodismo. Os anciãos se reúnem geralmente num corpo central, como uma assembléia nacional, e nos presbitérios locais, com jurisdição sobre territórios geograficamente menores. Uma forma de presbiterianismo também opera onde uma igreja local é administrada por um grupo de líderes nomeados. Esta forma reivindica autorização bíblica direta, baseada no padrão do Novo Testamento, onde presbíteros são nomeados nas igrejas locais. Esses líderes aparecem consultando os apóstolos no Concílio de Jerusalém, em Atos 15. Entre os presbíteros na congregação local, um pode ser escolhido como presbítero-mestre, para administrar a Palavra e os sacramentos, à parte dos outros presbíteros administradores, que participam da liderança com ele (1 Tm 5.17). Em termos gerais, o governo é quase sempre exercido por um sistema de presbitérios, sínodos e concílios. O presbiterianismo também reconhece o direito de cada igreja participar da escolha dos pastores. Os diáconos realizam um ministério de apoio, ligado aos assuntos administrativos da igreja. De modo diferente dos episcopais, todos os pastores têm formalmente o mesmo status.



3. Congregacional (Independente)

É o governo através da igreja local em conjunto, seguido pelas igrejas batistas, congregacionais, pentecostais e outras igrejas independentes. A igreja local é a unidade básica: nenhum líder ou organização pode exercer qualquer autoridade sobre ela. Todas as decisões são tomadas por toda a igreja; o pastor, os diáconos e os presbíteros (se houver) acham-se no mesmo nível que os demais membros. Cada igreja local tem liberdade para interpretar a vontade de Deus sem interferência de outras igrejas ou grupos, embora na prática a maioria das igrejas independentes se una com outras de interesse comum. A ordenação para o ministério pode ser efetuada sem o envolvimento de outras igrejas, apesar de isso ser raro na prática; muitos congregacionalistas consideram essencial uma representação mais abrangente. O ministério é geralmente duplo, com pastores e diáconos, embora em alguns casos o pastor divida a responsabilidade espiritual com vários presbíteros. Algumas igrejas do tipo congregacional põem em dúvida a validade da idéia de nomear um determinado indivíduo para ministrar na congregação local.

Os congregacionalistas se baseiam no significado da igreja local no Novo Testamento. Como vimos, a Escritura faz uso da mesma linguagem, relativa à natureza da igreja, tanto para se referir à igreja local como à igreja universal. Além disso, não existe no Novo Testamento qualquer evidência quanto à imposição de grupos mais amplos ou oficiais de fora sobre a vida da igreja local, excetuando-se evidentemente os apóstolos ou seus representantes pessoais, como Tito e Timóteo. Subjacente a isso, acha-se a convicção de que a liderança de Cristo na igreja implica sua presença imediata entre o povo e o poder de transmitir a sua vontade sem a mediação de qualquer outro agente, quer pessoal ou corporativo.

Na prática, o congregacionalismo reconhece o valor da comunhão mútua e da cooperação entre as igrejas, embora não a ponto de restringir a suprema liberdade do grupo local para agir conforme a vontade do Senhor, segundo o seu discernimento.



4. Católico-Romano

O catolicismo é essencialmente uma expressão histórica específica do episcopalianismo. Existem sérios desvios das normas bíblicas em sua compreensão da igreja. O aspecto singular da organização católica é a primazia do Bispo de Roma, o Papa. A Igreja Católica difere outrossim das igrejas reformadas em seu conceito de um sistema eclesiástico sacerdotal, também encontrado nas igrejas ortodoxas do oriente e em algumas igrejas anglicanas.





Este breve resumo mostra que nem o sistema episcopal, nem o presbiteriano, nem o congregacional pode reivindicar o apoio total das Escrituras, embora isso possa ser negado por alguns, em cada tradição. Não queremos sugerir com isso que a evidência bíblica deva ser posta de lado e o assunto seja decidido em bases pragmáticas. Mas, a fim de nos identificarmos com o corpo de Cristo, precisamos unir-nos a um desses grupos, e um mínimo de compromisso com suas estruturas é algo essencial para dar significado à nossa adesão. Devemos reconhecer, entretanto, os limites assim como a extensão de nossas convicções em assuntos que não contradigam claramente o ensino bíblico e exercer aquele respeito mútuo fraternal que é o sinal que distingue o povo de Deus (Jo 13.14s).





FONTE: Conheça a Verdade Estudando as Doutrinas da Bíblia de Bruce Milne

Prefácio de J. I. Packer

Este artigo foi publicado no antigo portal Textos da Reforma

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Martyn Lloyd-Jones


Na vida cristã não há nada mais importante do que saber raciocinar, argüir e deduzir do ensino escriturístico. Isso constitui uma parte essencial e vital da fé. Que é fé? Fé é, em primeira instância, uma atividade, especialmente uma atividade da mente. É aí que tendemos a errar. Temos tanta preocupação em contrastar a fé com a razão que caímos em erro. Dizemos corretamente que ninguém jamais pode fazer-se cristão por meio do seu entendimento. E então dizemos: "Logo, a fé nada tem a ver com a razão". Nesse ponto erramos. É muito importante estarmos certos quanto à relação entre fé e razão.

Isaac Watts, num conhecido dístico, diz:

Onde falha a razão, com seus poderes todos,


Lá a fé prevalece, e o amor adora a Deus.



É claro, Isaac Watts está certo. Nestes versos ele está pensando em nosso ingresso na vida cristã e no que se pode dizer sem mentir, mesmo da vida cristã, quando somos tentados e caímos, recorremos de novo à razão "natural", em lugar da razão da fé. Na "vida de fé" a razão e o argumento um papel de vital importância. Mas não se trata da velha espécie de razão e de argumento; é o exercício do raciocínio com fé, o raciocínio que vem da fé, o raciocínio para a fé. "A fé", diz-nos a palavra, "é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem" (Hebreus 11:1). Significa que temos certas declarações e que deduzimos outras coisas delas. Há toda diferença do mundo entre confiar somente na razão, em detrimento da fé, e a fé que raciocina e argumenta, fé que o apóstolo está acionando nesta seção.



Entretanto, deixem que mencione outro perigo, o perigo de ficarmos demasiado confiantes em nossos sentimentos. A fé leva aos sentimentos e os inclui, porém os sentimentos não vêm em primeiro lugar. O primeiro elemento da fé é intelectual; o emocional segue-se a ele. Como diz uma frase de um salmo: "Provai, e vede que o Senhor é bom" (Salmo 34:8). Você só pode ver depois de ter provado. Devemos entender claramente qual é a posição que os sentimentos ocupam. Não devemos confiar demais neles, nem tampouco os devemos excluir. A fé é como andar numa faca de dois gumes; se você for longe demais dos dois lados, terá problemas.



Então, que é fé? Fé realmente significar crer em Deus, fé em tudo o que ele diz sobre o que Ele fez por nós.



Não mais dispomos da referência bibliográfica.


Este artigo foi publicado no antigo portal Textos da Reforma

terça-feira, 13 de julho de 2010

Divórcio Mais Fácil Ainda

Por Augustus Nicodemus Lopes



Acabei de ler a seguinte notícia:

“Em último turno, o plenário do Senado aprovou o projeto do divórcio direto. Essa alteração no texto constitucional acaba com os prazos atualmente necessários entre o fim da convivência do casal e o divórcio, além de tirar da Constituição a figura da separação formal. A lei já passou pela Câmara e não precisa passar pelo crivo do presidente da República. Começa a valer assim que publicada no Diário Oficial.”



Os prazos atuais são estes: o divórcio pode ser pedido após um ano da separação formal (judicial ou no cartório), ou após dois anos da separação de fato (quando o casal deixa de viver junto). Com a nova medida, o pedido de divórcio poderá ser imediato, feito assim que o casal decidir pelo término do casamento. A existência destes prazos se justificava, entre outros motivos, por uma visão elevada do casamento e de sua seriedade. Dava tempo para que as pessoas realmente refletissem se era isto mesmo que queriam. Não poucos voltaram atrás e continuaram casados. Mas agora a coisa banalizou. Descasar e casar de novo se tornaram tão fáceis quanto alugar um apartamento e rescindir o contrato. Aliás, até mais fácil, pois neste último caso, tem multas para serem pagas.



O assunto provoca a reflexão da relação entre o cristão que toma a Bíblia como única regra de fé e prática e a submissão às autoridades civis. Sobre isto, vou expressar minha opinião. Eu sei que o Senado não está tratando das causas do divórcio e sim da rapidez com que ele pode ser obtido. Mas ao torná-lo tão fácil e rápido, com certeza vai estimular ainda mais as separações por quaisquer motivos.



1 – O ensino do Novo Testamento é que todos devem estar sujeitos às autoridades superiores pois as mesmas foram constituídas por Deus. É isto que Paulo diz em Romanos 13.1 e Tito 3.1, ecoado por Pedro em 1Pedro 2.13. A referência em todas estas citações é aos governantes. Diga-se, de passagem, que na época em que Paulo e Pedro escreveram, Roma governava absoluta e o Imperador era a autoridade máxima.



2 – Não é preciso dizer que estas diretivas de submissão aos governos são excetuadas no Novo Testamento quando as autoridades, disvirtuando sua função, promulgam leis ou tomam decisões que colocam os cristãos em conflito com sua consciência, a qual está cativa a Cristo, pelas Escrituras. Um bom exemplo disto foi a desobediência dos apóstolos à determinação do Sinédrio de que eles parassem de falar de Cristo em Jerusalém. A resposta deles foi: “Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus; pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos (At 4.19-20).



3 – No caso do divórcio, é preciso reconhecer que em nosso país é o Estado quem oficializa o casamento e que é o Estado que o termina oficialmente. As igrejas e os pastores tão somente invocam a bênção de Deus sobre o matrimônio. Igualmente, não são as igrejas que realizam o divórcio. Todavia, se o Estado vier a legalizar o casamento entre homossexuais e lésbicas, as igrejas cristãs – pelo menos uma parte delas – se recusará a pedir a benção de Deus sobre este “casamento.” Da mesma forma, estas mesmas igrejas – e mais uma vez, pelo menos uma parte delas - se recusará a aceitar a validade espiritual e religiosa de divórcios obtidos de maneira contrária à Escritura.



4 – Como me incluo entre aqueles pastores que não aceitarão a validade religiosa e espiritual de divórcios obtidos de qualquer forma, vou dar minhas razões. Na verdade, estas razões não são minhas, mas são aquelas apresentadas na Confissão de Fé de Westminster, que é a declaração oficial da maioria das igrejas presbiterianas conservadoras no mundo todo. De acordo com ela, o divórcio só deverá ser procurado em caso de adultério e em caso de abandono pela parte descrente.



5 – No caso de adultério, a base bíblica invocada são as palavras de Jesus em Mateus 5.32, “Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério”. Ele repetiu estas palavras em Mt 19.3. E no caso do abandono, a referência é às palavras de Paulo em 1Coríntios 7.15, “Mas, se o descrente quiser apartar-se, que se aparte; em tais casos, não fica sujeito à servidão nem o irmão, nem a irmã; Deus vos tem chamado à paz.” Os autores da Confissão de Fé entenderam que estas passagens abriam a possibilidade de se buscar o divórcio e depois um novo casamento em caso de traição e abandono.

6 – Novos casamentos que se originaram em divórcios que não foram obtidos pelas razões acima, nas palavras de Jesus se constituem em adultério, conforme o ponto anterior citando Mt 5.32; 19.3. É claro que isto cria uma enorme quantidade de casos problemáticos nas igrejas, que cada vez mais estão cheias de membros, presbíteros e pastores divorciados e casados pela segunda e terceira vez, e cujas separações se deram por motivos como incompatibilidade de gênios, falta de amor, etc.

7 – Esta área é tão complexa que não existe solução fácil nem ideal após ter havido o divórcio pelos motivos errados e, ainda por cima, um novo casamento. Não se trata do pecado sem perdão, mas certamente traz conseqüências danosas para todos. Uma igreja que recebe e aceita como membros quaisquer divorciados e recasados está passando uma mensagem muito clara aos seus membros: o casamento não é uma coisa tão séria assim, e que se der errado sempre tem a porta do divórcio por onde se pode sair e encontrar outra pessoa em nome da “felicidade”.

8 – Deus já nos disse o que ele pensa sobre o divórcio. “O SENHOR, Deus de Israel, diz que odeia o repúdio” (Ml 2.16). “Tornaram eles: Moisés permitiu lavrar carta de divórcio e repudiar. Mas Jesus lhes disse: Por causa da dureza do vosso coração, ele vos deixou escrito esse mandamento; porém, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, deixará o homem a seu pai e mãe e unir-se-á a sua mulher, e, com sua mulher, serão os dois uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem” (Marcos 10.4-9).

O resumo da ópera, para mim, é este. Mesmo que o Estado sancione leis que tornem o divórcio fácil de obter por qualquer motivo, ainda assim os cristãos têm sua consciência presa à Palavra de Deus. Eles poderão legitimamente procurar e obter o divórcio se traídos ou abandonados (aqui, para mim, está incluída a agressão física). Nos demais casos, com a graça de Deus e ajuda pastoral e profissional, poderá superar as dificuldades e manter o casamento.

Fonte: O Tempora, O Mores

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Predestinação

Por J. Dwight Pentcost

Romanos 8.28-39


Poucas doutrinas na palavra de Deus deram causa a tanto calor e tão pouca luz como a da predestinação. Ela vem dividindo há séculos os estudiosos das Escrituras, e os teólogos têm o hábito de se classificarem com base na interpretação desta doutrina. De um lado enfileiram-se aqueles que dão ênfase ao amor de Deus e ao livre-arbítrio do homem, privando Deus da autoridade soberana sobre a Sua criação e do direito de predeterminar o destino de Suas criaturas. Enquanto do outro lado, ficam aqueles que dão tanta ênfase ao programa predeterminado por Deus que quase o removem da cena e tudo funciona de acordo com uma lei fixa e inexorável, entregando-nos às garras do fatalismo. Queremos apresentar um meio termo em relação a esses dois extremos, mostrando aquilo que acreditamos ser o ensinamento das Escrituras a respeito desta importante doutrina.



Estas doutrinas da Palavra de Deus não foram dadas para confundir ou obscurecer o pensamento dos filhos de Deus, pelo contrário, foram dadas para nosso conforto e encorajamento. Por não entendermos a atuação de Deus na predestinação, perdemos uma das confortadoras doutrinas de Sua palavra. A tendência, por parte dos homens, tem sido a de tentar racionalizar as Escrituras e determinar como eles julgam que Deus deve agir, em lugar de examinarem as Escrituras para ver o que elas dizem a respeito do modo de agir de Deus. É a tendência de humanizar a Deus! Isto é, confinar Deus dentro dos limites de nosso pensamento e impedir que Ele atue além das restrições a que estamos sujeitos. Mas a Palavra de Deus não o coloca dentro das limitações humanas, nem oculta a verdade pelo fato de ela, eventualmente, projetar-se para além da capacidade de compreensão da mente humana. Quando chegamos à predeterminação e às doutrinas a ela relacionadas, estamos tratando de coisas que a mente do homem é incapaz de compreender. Seria impossível a um Deus infinito manter-se confinado aos limites da mente finita, assim como é impossível a um vaso conter o oceano. Com nossas mentes restritas, estamos tentando compreender a mente de um Deus eterno e infinito. É nossa convicção básica, ao nos aproximarmos das Escrituras e dessas importantes doutrinas, que Deus é maior que a mente do homem. Possa o Espírito de Deus livrar-nos de nosso preconceito e das restrições que naturalmente faríamos a Ele, por causa das limitações a que estamos sujeitos, e nos dar a compreensão da obra do Deus que tudo faz para Sua própria glória.



É impossível considerar a doutrina da predestinação sem estudar algumas doutrinas e palavras relacionadas a ela. Para muitos de nós, palavras como preordenação, predeterminação, premonição, eleição, predestinação e chamado, são permutáveis ou sinônimas. Doutrinariamente, cada uma destas palavras tem um significado específico, cada uma contribui de certo modo para nossa compreensão da obra de Deus ao glorificar-Se a Si mesmo. Enquanto não pudermos descobrir o processo lógico revelado através delas, nossos pensamentos serão sempre confusos. Apesar de não haver uma progressão cronológica, existe uma progressão lógica na execução do plano e no propósito eterno de Deus. Gostaríamos de sugerir uma ordem lógica para o estudo dessas importantes palavras; quando perfeitamente compreendidas teremos então uma idéia clara do desenvolvimento do plano eterno de Deus.



Quero começar com a palavra “preordenação” ou “ordenado previamente”. A idéia é de que algo foi antecipadamente ordenado, ou “estabelecido antecipadamente”. Contida nesta palavra está a idéia que Deus possui a capacidade de prover, com infinita precisão, as coisas necessárias para que o Universo por Ele criado possa continuar em seu avanço. Deus planejou todos os detalhes antes da criação. Ele não criou e depois sentou-se para decidir o que faria com aquilo que havia criado. Como um Arquiteto cuidadoso, Deus planejou como cada parte e cada membro da criação seriam usados. Esta verdade nos é apresentada em Efésios 1.4 onde o apóstolo nos lembra que Deus nos escolheu nEle (isto é, em Cristo) antes da fundação do mundo: o propósito de Deus foi determinado antes do Ato da criação. A isto daríamos o nome de “preordenação”. O universo não foi um acidente, nem seu programa deixado ao acaso depois de criado. Mas Deus tinha um propósito e um plano determinado, e a seguir escolheu os elementos exatos que seriam usados na execução desse plano.



Reconhecemos que Deus, onisciente que é, sabia da possibilidade do mal mesmo antes que existisse a criação. Deus sabia que o mal se oporia à Sua santidade, mas não foi o responsável por ter ele penetrado em Sua criação. Deus não foi o responsável pelo mal existente, entretanto foi o Arquiteto do plano que incluía o mal em si. Deus não foi tomado de surpresa quando Lúcifer se rebelou contra Ele, nem quando Adão se rebelou, nem quando foi preciso aplicar a toda criação as palavras: “Não há um justo, nem sequer um” (Rm 3.10). Assim, operando debaixo de um plano predeterminado, Deus executou todos os detalhes necessários para o cumprimento desse plano. Em Efésios 1.5, Paulo nos diz que Deus faz todas as coisas “segundo o beneplácito de sua vontade”; e no verso 11, Ele faz tudo “segundo o propósito daquele que faz todas as coisas, conforme o conselho de sua vontade”. Descobrimos, pois que antes de qualquer ato da criação, Deus predeterminou o plano, o programa e o modo pelo qual esse plano e esse programa seriam cumpridos. O propósito de Deus era a Sua própria glorificação; ele designou então a espécie de ser que deveria receber a revelação da Sua glória, e qual o ente que seria necessário para atribuir-lhe glória, majestade, Domínio e poder. Como seria insensato se uma congregação instituísse um programa de construção e começasse a pô-lo em prática sem Ter antes feito a planta do prédio. Que tipo de edificação teríamos se a comissão responsável anunciasse que num determinado sábado, cada membro seria convidado a levar algum material de construção para o terreno e ali lhe seriam fornecidas a argamassa e os pregos, e tudo o que levasse seria incorporado à construção? Que monstruosidade se ergueria naquele terreno! O mesmo se aplica a Deus. Ele predetermina Seu propósito, Seu alvo, Seu objetivo e a finalidade da criação; depois então apresenta o programa para o cumprimento desse propósito e objetivo. Paulo torna isso claro em 1 Coríntios 2.7: “Mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória”. Neste verso descobrimos que a preordenação está ligada ‘a determinação de um plano antes que este seja posto em execução.



A segunda palavra que contribui para nossa compreensão da obra de Deus é “decreto”. Ela não aparece nas Escrituras com referência a Deus, mas segundo o uso na Teologia, essa palavra significa o ato pelo qual Deus estabeleceu a certeza daquilo que planejou, ou, numa palavra predeterminou. Pela preordenação Deus determina qual será o programa. Pelo Seu decreto estabelece a certeza daquilo que preordenou. O arquiteto que fez os plano para a construção de nossa igreja submeteu esse plano à comissão responsável. Esta se reuniu para estudá-lo. Tivemos uma idéia geral do custo da construção inicialmente escolhida e por decisão unânime da comissão foi rejeitado. O projeto era bom, mas não satisfazia nossas necessidades e a comissão pediu ao arquiteto que apresentasse outro plano, sendo este aprovado por todos. Foi então pedido a ele que executasse esta última idéia, e agora estamos gozando os resultados dessa construção.



Deus tinha provavelmente uma série de opções a respeito de como executar seu propósito e programa, mas resolveu-se afinal por um determinado plano e um propósito: e, através de um decreto irreversível adotou-o como Seu plano, Seu objetivo e Seu programa. No livro de Jó, capítulo 22, verso 28, vemos estabelecido o princípio de um decreto: “Se projetas alguma cousa, ela te sairá bem...” O decreto de um rei finaliza o curso de uma ação. Quando Deus decretou o curso de uma ação, isto finalizou, solidificou o Seu plano e limitou-o a seguir esse curso específico na execução de Seu objetivo de glorificar a Si mesmo. Na profecia de Daniel 11.36 lemos: “Este rei fará segundo a sua vontade, e se levantará e se engrandecerá sobre todo deus; contra o Deus dos deuses, falará coisas incríveis, e será próspero, até que se cumpra a indignação; porque aquilo que está determinado será feito”. Em Lucas 22.22 encontramos a seguinte declaração: “Porque o Filho do homem, na verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem ele está sendo traído!” A palavra “determinado” nesta passagem se refere ao decreto de Deus pelo qual Ele estabeleceu o que Jesus Cristo faria durante Seu ministério terreno, em Sua vida e em Sua morte.



É a este fato que Pedro se refere no Livro de Atos quando, pregando ao povo de Israel, ele diz: (2.23) “sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos”. E, outra vez, na mesma disposição de espírito, lemos (4.27-28): “...porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o Teu santo servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e povos de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram”. Deus havia preordenado um certo programa, depois estabeleceu a certeza e a irreversibilidade desse programa, emitindo um decreto quanto a sua execução. O apóstolo, proclamando os fatos a respeito da morte de Cristo, mostra que ela não foi acidental, pois Cristo não se submeteu primeiramente à vontade dos judeus, nem à dos gentios; mas que tanto uns como os estavam realizando aquilo que Deus —havia preordenado o curso dos acontecimentos — tinha resolvido e estabelecido por Seu decreto. Na preordenação, Deus estabelece o plano e o programa; e, por Seu decreto e Seu conselho determinativo, Ele estabelece a certeza desse programa.



Isto nos leva, logicamente, à terceira palavra que contribui para nossa compreensão da obra de Deus — “presciência”. Temos de fazer uma distinção nas Escrituras entre a onisciência de Deus e o que Ele prevê. Deus é um Deus de sabedoria, que conhece perfeita­mente o curso dos acontecimentos passados, presentes e futuros. Deus é um Deus onisciente, mas a presciência não é sinônimo da onisciência de Deus. A presciência, conforme seu uso nas Escrituras, se refere àquilo que Deus sabe com certeza que vai acontecer porque Ele mesmo ordenou esse evento. Deus sabe todas as coisas, não só por ser um Deus onisciente, mas porque por Seu decreto decidiu e estabeleceu o que virá a suceder em cumprimento ao Seu programa preordenado. Presciência, então, é o resultado da preordenação de Deus, ou decreto de Deus, do que deveria acontecer. Deus não prevê apenas o que irá acontecer, mas também as pessoas que serão usadas como instrumento no cumprimento de Seu plano e programa. A presciência não está ligada apenas ao que vai acontecer, mas abrange igualmente quem está incluído no programa de Deus.



O apóstolo tem este fato em mente quando escreve aos Roma­nos, dizendo (8:29): “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho.. " Talvez seja em relação a este verso e à palavra “pres­ciência” que nos defrontamos com a maior dificuldade em nossa interpretação. Uma interpretação largamente aceita é que Deus elegeu aqueles que Ele sabe que irão aceitá-lO como Salvador, aqueles que depositarão sua fé em Seu Filho, o Senhor Jesus Cristo. Deus está então sujeito aos caprichos da vontade humana e não pode agir sobre ela, nem ultrapassar os limites dessa vontade. Entretanto, o que o apóstolo escreve em Romanos 8:29 é que Deus sabe com toda certeza quem será incluído em Seu plano, porque Ele preordenou e decretou que essas pessoas fossem incluídas.



Encontramos a mesma verdade apresentada em 1 Pedro 1 .2, onde o apóstolo diz que fomos eleitos de acordo com a presciência de Deus. Quero destacar agora aquilo que Pedro não disse. Ele não disse que somos eleitos por causa da presciência de Deus; isto é, Pedro não está dizendo; “Deus olhou para a raça humana e ex­clamou: ‘Vejo fé e escolherei aqueles em quem vejo fé’”. Ao contrário, Pedro ensina que fomos “eleitos segundo a presciência de Deus.. .“ A eleição está de acordo com a presciência, não é feita por causa dela nem baseada nela. A presciência não diz nada do que Deus sabe que o indivíduo fará, mas se refere àquilo que Deus sabia que iria fazer com os homens. Deus preordenou, isto é, Ele fez o plano. Através do Seu decreto, ou por Sua determinação, Ele estabeleceu, solidificou e finalizou o plano. Conseqüentemente, Deus, na Sua presciência, sabe o que fará, por causa de Sua preordenação e Seu decreto.



Isto nos leva à quarta palavra importante, "eleição”, que significa “escolher”. Refere-se à seleção e à separação para Si mesmo. A eleição se refere à escolha de pessoas através das quais será cumpri­do o propósito divino estabelecido pela preordenação. Deus vai agir para a Sua própria glória, mas o fará através de pessoas que separou para Si mesmo. Eleição é pois a obra soberana de Deus, segundo o Seu propósito e vontade, predeterminada por Sua preordenação, na qual Ele seleciona aqueles através dos quais o desígnio divino será cumprido. Voltemos agora a Efésios 1:4 fomos escolhidos em Cristo, antes da fundação do mundo, para que pudéssemos ser santos e imaculados diante dEle.



A eleição é obra de Deus. Não é o caso de a pessoa escolher a Deus, e Deus, como resposta de sua parte, a esta escolha, elegê-la. Descobrimos esta verdade, no livro de Romanos onde, falando a respeito da eleição de Israel como nação, o principio divino na eleição tornou-se muito claro, O apóstolo diz (9:11-13) “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus quanto à eleição prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já lhe fora dito a ela:



O mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei a Jacó, porém me aborreci de Esaú”. Esta passagem é muito importante para o entendimento da doutrina da eleição. Você pode notar que é Deus quem elege; mais ainda, a eleição estava baseada na vontade soberana de Deus. Não era sua reação ao que existia de bom ou de mau no eleito, pois esta eleição teve lugar enquanto os gêmeos ainda se achavam no ventre materno, antes que tivessem praticado o bem ou o mal como base para sua escolha ou rejeição. A eleição era cumprimento do desígnio de Deus. Seu plano preordenado foi a razão da eleição de Jacó. Deus separa aqueles através dos quais Seu programa será cumprido.



Esta palavra deu lugar a muitas interpretações erradas, pois a idéia que geralmente se faz é a de um Deus caprichoso, que chama todos os homens (que estão em estado neutro) diante de Si, e arbitrariamente, diz a alguns deles: “Eu o aceito”, e aos restantes diz:



"Eu os condeno ao inferno eterno”. Observe que quando Deus elege, Ele o faz dentre os que estavam perdidos. A escolha não separa alguns para o céu e outros para o inferno. Achando-se todos sob condenação, ela separa alguns homens, e esses cumprirão o programa e o propósito de Deus. A eleição é, pois, uma obra da graça divina, porque todos os homens estavam debaixo da maldição e da ira de Deus. Para cumprir Seu programa predeterminado, preordenado e já estabelecido, Deus selecionou os instrumentos de sua preferência, através dos quais esse objetivo e programa seriam cumpridos. A manifestação da graça infinita de um Deus infinito é o fato de qualquer pessoa vir a ser escolhida.



A palavra que se segue à eleição é “predestinação" cujo significado é “determinar antecipadamente”. Isto se refere à finalidade pela qual os que foram eleitos são separados. Esta palavra, quando usada nas Escrituras, sempre se define por uma declaração do propósito ou o alvo que se tem em vista. Em Efésios 1:4-5 lemos:



“Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos. . .“ Ele nos predestinou —e com que fim ou objetivo? Para adoção de filhos. Note ainda no verso 11: “Nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as cousas, conforme o conselho da sua vontade”. Predestinou — com que fim? Para a obtenção de uma herança. Veja Romanos 8:29: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou (e com que fim?) para serem conformes à imagem de seu Filho. . .“ Ou, veja novamente em 1 Coríntios 2:7 onde fomos predestinados para a glória. O apóstolo diz: .... . a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória”. Com base nestas passagens devemos salientar ainda uma vez o fato importante de que quando a idéia de predestinação é usada nas Escrituras, ela determina uma finalidade, ou o objetivo visado em relação àqueles que Deus elegeu para Si mesmo. Não encontro lugar algum nas Escrituras onde seja dito que fomos predestinados para a fé, predestinados para crer, ou que tenhamos sido predestinados para aceitar a Cristo. Não — nós fomos predestinados para a glória. Fomos predestinados para a filiação ou herança.



A palavra “predestinar” é logicamente seguida pela palavra “chamado”, que deve ser entendida em sua designação normal, no sentido de que Deus chama para Si aqueles que previu, os que elegeu, os que predestinou. O chamado de Deus aos seus eleitos —que foram predestinados para a glória — é o resultado da preordenação de Deus. Ele cuida para que seu propósito seja cumprido. Aqueles que escolheu para Si serão conduzidos até Ele, para que seu programa já traçado e predestinado possa ser levado à consumação. O apóstolo, em Romanos 8:30 diz: “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou”. O chamado então é uma convocação para Ele mesmo, porque foram predestinados para a glória por Seu propósito e programa preordenados.



O chamado de Deus não se subordina à vontade humana, pedindo ao homem que atenda de acordo com sua vontade, sem o auxílio da graça divina. O chamado de Deus inclui também a capa-citação divina. O Senhor que faz o chamado, concede o poder, através do ministério do Espírito Santo, para que esse chamado seja atendido, de modo que o pecador que está morto, sem vida, sob condenação e julgamento, possa ouvir a voz de Deus; e embora não tenha poder em si mesmo, porque está morto, e não queira responder, porque Deus foi afastado de Sua vida, ele é capacitado pelo Espírito Santo para atender a esse convite da graça: "Quem quiser pode vir”. Cristo tornou bem claro que o chamado era parte do programa e intenção de Deus, pois, em João 6:44 Ele explica:



“Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer... E este trazer do Pai é o chamado que Ele faz aos que foram eleitos pela graça de Deus, àqueles que foram predestinados ou separados para a glória, os que Deus previu que seriam instrumentos no cumpri­mento de Seu desígnio preordenado, estabelecido e assegurado pelo decreto eterno e imutável de Deus.



Isto significa que o pecador não tem responsabilidade? Muito longe disto, pois Cristo morreu pelos pecados do mundo. Cristo fez uma propiciação, ou cobriu os pecados do mundo. Nosso Senhor disse: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16). O “todo aquele” é ilimitado. Enquanto só aqueles que Deus chamou responderão a esse chama­do, o convite é extensivo a todos os homens. Todos são passíveis de salvação pela morte de Cristo, mas apenas atenderão aqueles que Deus chamou pela Sua graça eficaz.



Se você está sem Jesus Cristo, uma única coisa o separa dele, é a sua resposta espontânea ao convite que Deus faz quando diz: “Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Se você conhece Jesus Cristo como seu Salvador, o desejo de seu coração será aquele citado por Pedro em sua segunda carta, capítulo 1, verso 10: “. . . procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição.. .“ O Filho de Deus que cresce na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cris­to, e que se submete ao Deus e Pai através de Cristo, evidencia em si mesmo que é verdadeiramente um filho de Deus.



A meu ver, a verdade que apresentamos é uma das mais confortadoras doutrinas da Palavra de Deus. Alegramo-nos em saber que nada acontece por acaso. Não somos criaturas sujeitas às circunstâncias, dependentes da sorte. A “boa sorte” não se aplica aos filhos de Deus. Um Deus infinito e soberano preordenou cada minuto de nossa vida antes da fundação do mundo. Deus estabeleceu Seu propósito e Seu programa através de Seu decreto inalterável. Deus prevê exatamente o que acontecerá em cada momento de nossas vidas, porque tudo foi determinado de acordo com Seu desígnio. Deus nos elegeu, não porque tivéssemos feito alguma coisa, mas porque convinha ao Seu propósito infinito. Deus, que nos elegeu, nos separou pela predestinação para compartilharmos eterna­mente de Sua glória. Deus, pela graça infinita, nos chamou das trevas para o Seu amor, da morte para a Sua vida, e nos separou para Si mesmo, não por aquilo que somos, mas por estarmos incluídos no Seu propósito eterno e soberano. A cada momento de cada dia estamos sob Seu cuidado, porque ele opera sempre conforme o conselho da Sua vontade, para que sejamos encontrado no louvor da glória da Sua graça. Isto nos sustenta e nos dá confiança.



(PENTECOST, J. Dwight. A sã doutrina. 2 ed. Cap XIII, p. 119-127. São Paulo, Associação Religiosa Editora Mundo Cristão, 1981)



Enviado por Rubens Cartaxo Júnior, presbítero da Igreja Presbiteriana do Natal.