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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Terrível Convicção - Gloriosa Conversão – C.H. Spurgeon

No verão de 1849 Charles entrou em mais outra escola, esta na cidade de Newmarket. Embora mal tivesse completado a idade de quinze anos, ele não veio apenas como aluno, mas também como um professor de tempo parcial - posição conhecida como de "Monitor".

Não muito longe dele situava-se a grande e transformadora experiência, a sua conversão. Esse evento por muito tempo tem sido do conhecimento comum entre os cristãos evangélicos, muitas vezes narrado do púlpito e relatado em livros e revistas.

Mas esse evento foi precedido por uma longa e amarga convicção de pecado e um anseio pela salvação, fato geralmente não mencionado. Todavia, Spurgeon considerava essa experiência tão importante que, não somente falava dela com freqüência em sua pregação, mas também em sua Autobiografia dedicou um capítulo inteiro a ela.
Além disso, este mestre da descrição parece quase perdido, em sua tentativa de estabelecer palavras suficientemente severas para retratar a agonia que ele sofreu. "Eu preferiria", diz ele, "passar por sete anos da mais debilitante enfermidade, a ter que passar de novo pela terrível descoberta do mal do pecado".
Essa amarga experiência começou quando ele ainda era muito jovem. Como já vimos, ele tinha só três anos de idade quando se distraía com as figuras de O Peregrino, de Bunyan, com o fardo nas costas, e pouco tempo depois ele soube do seu significado - que se tratava de um fardo de pecado. Quando aprendeu a ler, o seu material de leitura era, em grande parte, a Bíblia e as obras de alguns dos grandes escritores puritanos. Ele ouvia com aguda atenção as discussões teológicas, e na época em que ele tinha mais ou menos dez anos de idade, havia adquirido considerável conhecimento da doutrina cristã. Ele era um menino honesto e íntegro, mas tinha visto algo do que o pecado é aos olhos de Deus. Ele sabia que, como o Peregrino, estava levando em seus lombos o medonho fardo, e que ele próprio não podia removê-lo.

Durante uma das suas visitas de verão a seu avô, a passagem das Escrituras um dia falava do "poço do abismo" (VA: "poço sem fundo" (Apocalipse 9:1,2), e Charles tinha inter-rompido, perguntando como poderia existir um lugar "sem fundo". O avô respondeu de algum modo, mas a sua resposta não satisfez o menino, e desse ponto em diante fixou-se em sua mente a certeza de que era possível a uma pessoa não justificada caminhar, eternamente, cada vez mais longe de Deus e de tudo quanto era reto e bom.

Ademais, embora ele soubesse tão bem como qualquer outro que "Cristo morreu por nossos pecados", não via nenhuma aplicação dessa verdade a si próprio. Tentava orar, mas, diz ele: "A única oração completa era: "O Deus, tem misericórdia de mim, pecador!" O esmagador esplendor da majestade de Deus, a grandeza do Seu poder, a severidade da Sua justiça, o caráter imaculado da Sua santidade, e toda a sua terrível magnificência - essas coisas deixavam minha alma acabrunhada, e eu caía em completa prostração de espírito".

Apesar dos seus muitos esforços, sua convicção de pecado aumentou. Ele conta que, através dos vários anos da sua meninice, ele estava constantemente cônscio das exigências universais da lei de Deus. "Aonde quer que eu fosse", diz ele, "a lei fazia uma exigência aos meus pensamentos, às minhas palavras, ao meu levantar e deitar". E em meio às suas lutas para sobrepujar essa terrível percepção, ele se defrontou com a verdade afim, qual seja, a espiritualidade da lei. Embora ele nunca tenha cometido os pecados da carne, sentia-se culpado deles no espírito, e clamava: "Que esperança tinha eu de evitar uma lei como esta, a qual me cercava por todos os lados com uma atmosfera da qual eu não tinha a mínima possibilidade de escapar!"

Freqüentemente, depois de despertar de uma noite conturbada, ele recorria a livros tais como, Admonition to Unconverted Sinners (Admoestação aos Pecadores Não Convertidos), de Alleine, e Call to the Unconvertedl (Um Chamado aos Incrédulos), de Baxter. Mas as obras que tinham sido tão úteis para outros, só reforçaram o que ele já sabia - que estava perdido e precisava ser salvo. Esses livros o deixaram com um amargo anseio por saber como se poderia receber essa grande salvação, e ele continuava buscando e sofrendo.

No meio dessas circunstâncias, embora raramente ouvisse uma blasfêmia e muito menos a proferisse, todas as maneiras de maldizer Deus e o homem começaram a entrar em sua mente. Isso foi acompanhado por fortes tentações para negar a própria existência de Deus e, por sua vez, estas o levaram a um esforço para dizer a si mesmo que ele se tornara um livre pensador e, virtualmente, um ateu. Ele até insistia em duvidar da sua própria existência, mas todas essas tentativas foram inúteis.

Finalmente ele disse a si mesmo: "Tenho que sentir algo; tenho que fazer algo". Ele gostaria de poder oferecer suas costas para ser açoitado, ou de fazer alguma peregrinação difícil, se por meio de tais esforços pudesse ser salvo. Contudo, admitiu: "Quanto ao ponto mais simples de todos - crer em Cristo crucificado, aceitar Sua obra de salvação, consumada, não ser nada e deixar que Ele seja tudo, não fazer nada, mas confiar no que Ele fez - eu não conseguia apossar-me disso".

Essa penosa busca prosseguiu através dos anos em que ele freqüentou a escola, tanto em Colchester como em Maidstone, e se tornou mais ardente durante o tempo que passou em Newmarket. Como já vimos, seu trabalho acadêmico era sempre excelente, mas ele estava angustiado interiormente. Em anos posteriores, quando rememorou esse período terrível, disse: "Eu achava que seria melhor que eu fosse uma rã ou um sapo, e não um homem. Eu achava que a criatura mais corrupta... era melhor que eu, pois eu tinha pecado contra Deus, o Todo-poderoso".

Depois de ir para Newmarket, ele freqüentou, primeiro uma igreja, depois outra, esperando ouvir algo que o ajudasse a remover o fardo. "Um homem pregou sobre a soberania divina", diz ele, "mas, que era essa sublime verdade para um pobre pecador que queria saber o que ele tinha que fazer para ser salvo? Havia outro homem admirável que sempre pregava sobre a lei, mas, de nada adiantava cuidar de um terreno que ainda precisava ser semeado. Outro era um pregador prático... mas era muito semelhante a um oficial em comando ensinando manobras de guerra a um grupo de homens sem pés... O que eu queria saber era: "Como posso ter perdoados os meus pecados?", e eles não me disseram isso.

Durante o mês de dezembro de 1849, houve uma epidemia de febre na escola de Newmarket. O educandário foi fechado temporariamente, e Charles foi para casa, para Colchester, para estar lá durante o tempo do Natal.

Essa mudança das circunstâncias foi empregada por Deus para levar o jovem inquiridor à salvação. A história da conversão de Spurgeon é amplamente conhecida, mas pode muito bem ser repetida, e não pode ser contada melhor do que com as palavras com as quais ele próprio a apresentou.

Às vezes penso que eu poderia ter continuado nas trevas e no desespero até agora, se não fosse a bondade de Deus em mandar uma nevasca num domingo de manhã, quando eu ia a um certo local de culto. Dobrei uma esquina, e cheguei a uma pequena Igreja Metodista Primitiva. Umas doze ou quinze pessoas estavam ali presentes. Eu tinha ouvido falar dos metodistas primitivos, e que eles cantavam tão alto que davam dor de cabeça às pessoas; mas isso não me importou. Eu queria saber como poderia se salvo.

O ministro não tinha vindo nessa manhã; suponho que foi impedido pela neve. Por fim, um homem muito magro, um sapateiro, ou alfaiate, ou algo do gênero, subiu ao púlpito para pregar. Pois bem, é bom que os pregadores sejam instruídos, mas esse homem era realmente ignorante. Ele foi obrigado a ficar grudado no texto pela simples razão de que tinha muito pouco para dizer. O texto era - "OLHAI PARA MIM, E SEREIS SALVOS, VÓS, TODOS OS TERMOS DA TERRA" (Isaías 45:22).

Ele nem sequer pronunciou corretamente as palavras, mas isso não teve importância. Ali estava, pensei eu, um vislumbre de esperança para mim nesse texto.

O pregador começou assim: "Esta passagem é de fato muito simples. Ela diz: "Olhai". Ora, olhar não custa nada. Ela não manda, levantar o pé ou o dedo; é só "Olhai". Bem, ninguém precisa cursar faculdade para aprender a olhar. Você pode ser o maior tolo, e, todavia, pode olhar. Ninguém precisa ganhar mil (libras) por ano para olhar. Qualquer um pode olhar; até uma criança pode olhar.

Mas depois o texto diz: "Olhai para Mim". "Ai!", disse ele no linguajar comum de Essex, "muitos de vocês ficam olhando para si mesmos, mas não adianta olhar ali. Vocês nunca encontrarão conforto em si mesmos. Alguns dizem que olham para Deus o Pai. Não, olhem para Ele posteriormente. Jesus Cristo diz: "Olhai para Mim". Alguns de vocês dizem: "Temos que esperar pela operação do Espírito". Vocês não têm que fazer nada disso neste momento. Olhem para Cristo. O texto diz: "Olhai para Mim".

Depois o bom homem seguiu o seu texto desta maneira: "Olhai para Afim; eu estou suando grandes gotas de sangue. Olhai para Mim; eu estou pendurado na cruz. Olhai para Mim; eu estou morto e sepultado. Olhai para Mim; ressuscitei. Olhai para Mim; subi ao céu. Olhai para Mim; estou sentado à direita do Pai. O, pobre pecador, olha para Mim). Olha para Mim!"
Tendo conseguido esticar sua fala por uns dez minutos, acabou--lhe a corda. Então ele olhou para mim, embaixo da galeria e, posso dizer, havendo tão poucas pessoas presentes: ele sabia que eu era um estranho.

Fixando seu olhar em mim, como se conhecesse todo o meu coração, disse: "Jovem, você parece estar em miseráveis condições". Bem, eu estava miserável, mas não estava acostumado a ouvir do púlpito observações sobre a minha aparência pessoal. Contudo, foi um golpe certeiro, atingiu o alvo. Ele continuou: "E você estará sempre em miserável situação - miserável na vida e miserável na morte - se não obedecer ao meu texto; mas, se lhe obedecer agora, neste momento, será salvo". A seguir, levantando as mãos, gritou como só um metodista primitivo o poderia fazer: "Jovem, olhe para Jesus Cristo. Olhe! Olhe! Olhe! Você não tem que fazer nada senão olhar e viver!"

De pronto enxerguei o caminho da salvação. Não sei o que mais ele disse - não prestei muita atenção nisso - eu estava por demais possuído por aquele só pensamento.

Eu estivera esperando ter que fazer cinqüenta coisas, mas quando ouvi aquela palavra, "Olhe!", que encantadora palavra me pareceu! Oh, olhei quanto pude, até parecer ter perdido meus olhos!
Ali e naquela hora a nuvem sumiu, as trevas foram embora rolando, e naquele momento eu vi o sol. Eu bem que poderia ter me levantado naquele instante e cantado com o mais entusiasta deles sobre o precioso sangue de Cristo e sobre a fé singela que olha somente para Ele. Oh, se alguém me tivesse dito isto antes: "Crê em Cristo, e serás salvo"! Contudo, tudo isso fora ordenado sabiamente, e agora posso dizer -

"Desde que pela fé as ondas vi,
Supridas por Teu sangue, a escorrer,
O amor que redime, este é meu tema,
E o será até quando eu morrer...".

Que dia feliz, quando encontrei o Salvador e aprendi a agarrar-me aos Seus amados pés, dia jamais esquecido por mim!... Ouvi a Palavra de Deus, e aquele precioso texto me levou à cruz de Cristo. Posso testificar que a alegria daquele dia é totalmente indescritível. Eu podia ter saltado, eu podia ter dançado; não houve, contudo, nenhuma expressão fanática, o que estaria fora da preservação da alegria daquela hora. Muitas ocasiões de experiência cristã têm ocorrido desde aquela, mas nunca houve uma que tivesse aquela hilaridade, o esplendente deleite que aquele dia teve.

Achei que poderia ter saltado do assento em que estava sentado e ter gritado com o mais frenético daqueles irmãos metodistas... "Estou perdoado! Estou perdoado! Um monumento da graça! Um pecador salvo pelo sangue!" Meu espírito viu suas cadeias feitas em pedaços, senti que eu era uma alma emancipada, que eu era um herdeiro do céu, um pecador perdoado, aceito em Jesus Cristo, arrancado do barro imundo e do horrível poço, com meus pés firmados sobre uma rocha e com o meu andar estabelecido...

Entre as dez e meia, hora em que entrei naquela capela, e meio dia e meia, quando estava de volta em casa, que mudança tinha ocorrido em mim! Simplesmente por olhar para Jesus eu tinha sido libertado do desespero, e fui levado a um estado mental tão jubiloso que, quando me viram em casa, disseram-me: "Aconteceu alguma coisa maravilhosa com você", e eu estava ansioso para contar-lhes tudo. Oh, houve alegria naquela casa aquele dia, quando todos ouviram que o filho mais velho tinha encontrado o Salvador e que sabia que fora perdoado"!

A conversão de Spurgeon foi o grande ponto divisor da sua vida. Ele era de fato uma nova criação. O terrível sentimento de pecado, tão longamente experimentado, já se fora, e tudo era novo diante dele.

Contudo, o sofrimento pelo qual ele tinha passado teve um efeito duradouro sobre ele. O reconhecimento do medonho mal do pecado tingiu profundamente sua mente e o levou a detestar a iniqüidade e a amar tudo quanto é santo. A falha dos pregadores que ele ouvira, não apresentando o evangelho, e ao apresentá-lo não o fazendo de maneira franca e direta, fez com que ele, através de todo o seu ministério, dissesse aos pecadores, em todos os sermões, e de maneira a mais franca e compreensível, como serem salvos.

Além disso, essas lições não eram só para o futuro. Tal era seu amor por Cristo que, apesar de ainda estar com apenas quinze anos de idade, não pôde ficar esperando para depois fazer alguma coisa por Ele, mas teve que procurar os meios pelo qual pudesse servi-lo, e servi-lo imediatamente.

Arnald. A. Dallimore

Fonte: C.H. Spurgeon

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A DOUTRINA DA ELEIÇÃO - JOÃO CALVINO

Sermão pregado pelo Reformador João Calvino

2 Timóteo 1:9-10 “Que nos salvou e nos chamou com santo chamado; não segundo as nossas obras, mas conforme seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos, e manifestada, agora, pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho”

Mostramos esta manhã, de acordo com o texto de São Paulo, que se quisermos conhecer a livre misericórdia de nosso Deus em nos salvar, temos de ir até o Seu conselho eterno, pelo qual Ele nos escolheu antes da fundação do mundo. Disso vemos que Ele não considerou nossas pessoas, nem a nossa dignidade, nem qualquer mérito que poderíamos possivelmente possuir. Antes de nascermos, fomos arrolados em Seu registro. Ele já havia nos adotado por Seus filhos. Portanto vamos conceder tudo a Sua misericórdia, sabendo que não podemos nos orgulhar de nós mesmos, a não ser que venhamos furtar Dele a honra que lhe pertence.

Os homens têm se esforçado em inventar sofismas para obscurecer a graça de Deus. Porque eles dizem que, apesar de Deus escolher os homens antes do inicio do mundo, ainda assim foi de acordo com sua presciência que um seria diferente do outro. As Escrituras demonstram claramente que Deus não esperou ver se os homens eram dignos ou não, quando Ele os escolheu, mas os sofistas, pensam que podem obscurecer a graça de Deus, dizendo que embora Ele não tenha considerado os méritos passados, Ele tinha um olho naqueles que estavam por vir. Pois dizem eles que embora Jacó e seu irmão Esaú não tivessem feito nem o bem nem o mal, e Deus tenha escolhido um e recusado a outro, ainda assim Ele previu, (como todas as coisas são presentes para Ele) que Esaú seria um homem vicioso, e que Jacó seria como se mostrou posteriormente.

Mas essas são especulações tolas, porque elas simplesmente fazem de São Paulo um mentiroso; os quais dizem que Deus não recompensa nossas obras quando Ele nos escolhe, porque Ele fez isso antes do inicio do mundo. Porém, embora a autoridade de São Paulo fosse abolida, ainda assim a questão é muito clara e evidente, não só nas Sagradas Escrituras, mas, também na razão, de modo que aqueles que fazem um escape desse tipo, se mostram homens vazios de toda a habilidade. Porque se buscarmos em nós mesmos à fundo, o que podemos encontrar de bom? Não foi toda a humanidade amaldiçoada? O que trazemos do ventre de nossa mãe, a não ser pecado?

Portanto, não diferimos nem um pouco uns dos outros, mas apraz a Deus tomar para Si aqueles que Ele quer. E por esse motivo, São Paulo usa estas palavras em outro lugar, quando diz que os homens não têm do que se regozijar, pois nenhum homem se encontra melhor do que seus companheiros, a não ser porque Deus o distingue. Então, se confessarmos que Deus nos escolheu antes do inicio do mundo, segue-se necessariamente que Deus nos preparou para receber a Sua graça. Porque Ele concedeu sobre nós a bondade, que não estava em nós anteriormente. Porque Ele não somente nos escolheu para sermos herdeiros do reino dos céus, mas também nos justifica e nos governa pelo Seu Espírito Santo. O cristão deve ser muito bem resolvido nesta doutrina, estando além de qualquer dúvida.

Há alguns homens nestes dias, que ficariam felizes se a verdade de Deus fosse destruída. Tais homens lutam contra o Espírito Santo, como bestas loucas, e se esforçam por suprimir as Sagradas Escrituras. Há mais honestidade nos papistas, do que nesses homens. Porque a doutrina dos papistas é muito melhor, mais santa, e concorda mais com as Escrituras Sagradas, do que a doutrina desses homens vis e perversos, os quais abatem a santa eleição de Deus; esses cães que latem para ela, e porcos que a dilaceram.

No entanto, sustentemos firmemente o que aqui nos é ensinado: Deus tendo nos escolhido antes do mundo ter seu inicio, devemos atribuir a causa da nossa salvação à Sua livre bondade. Devemos confessar que Ele não nos toma para sermos Seus filhos, por qualquer mérito de nós mesmos, pois não tínhamos nada para nos recomendar à seu favor. Portanto, devemos colocar a causa e a fonte da nossa salvação somente Nele e fundamentar a nós mesmos sobre isso, caso contrário, tudo que construirmos, virá a ser nada.

Devemos reparar aqui o que São Paulo conecta, a saber, a graça de Jesus Cristo, com o conselho eterno de Deus Pai, e então ele nos traz nosso chamado, para que nós possamos ter a certeza da bondade de Deus e da Sua vontade, que teria permanecida oculta de nós, a menos que tivéssemos um testemunho disso. São Paulo diz em primeiro lugar, que a graça que repousa sobre o propósito de Deus, e que é compreendida nele, é dada em nosso Senhor Jesus Cristo. Como se dissesse: “Vendo que nós merecemos ser rejeitados e odiados como inimigos mortais de Deus, era preciso que fossemos enxertados, por assim dizer, em Jesus Cristo, para que Deus pudesse nos conceder e nos reconhecer como sendo Seus filhos. Caso contrário, Deus não poderia olhar para nós, a não ser para nos odiar, porque não há nada senão miséria em nós; estamos cheios de pecado, e estufados, por assim dizer, com todos os tipos de iniqüidade.

Deus, que é a própria justiça, não pode consentir conosco, enquanto considera nossa natureza pecaminosa. Portanto, quando Ele quis nos adotar antes do inicio do mundo, foi requisitado que Jesus Cristo fosse colocado entre nós e Ele, para que fossemos escolhidos em Sua pessoa, pois Ele é o Filho mui amado: quando Deus nos uniu a Ele, fez como Lhe aprouve. Vamos aprender a ir diretamente a Jesus Cristo se nós quisermos não duvidar da eleição de Deus: porque Ele é o verdadeiro espelho onde devemos contemplar nossa adoção.

Se Jesus Cristo é tirado de nós, então Deus é um juiz de pecadores, de modo que não podemos esperar por qualquer bondade ou favor em Suas mãos, mas, ao invés, esperar a vingança, porque sem Jesus Cristo, Sua majestade será sempre terrível e temível para nós. Se ouvirmos menção ao seu propósito duradouro, não podemos deixar de ter medo, como se já estivesse armado para nos mergulhar na miséria. Mas quando sabemos que toda graça reside em Jesus Cristo, então podemos estar certos de que Deus nos amou, embora fossemos indignos.

Em segundo lugar, devemos notar que São Paulo não fala simplesmente da eleição de Deus, porque isso não nos deixaria acima de qualquer dúvida, mas, ao invés, permaneceríamos na perplexidade e na angústia. Mas ele acrescenta o chamado, pelo qual Deus tornou aberto Seu conselho, que antes era desconhecido para nós, e o qual não podíamos alcançar. Como saberemos então que Deus nos escolheu, para que possamos nos alegrar Nele, e nos gloriar da bondade que Ele concedeu a nós? Aqueles que falam contra a eleição de Deus, deixam o evangelho sozinho. Eles levam tudo o que Deus estendeu a nós, para nos levar até Ele; Todos os meios que Ele designou para nós, e que soube que era adequado e apropriado para nosso uso. Não devemos ir por esse caminho, porque de acordo com a regra de São Paulo, devemos conectar o chamado de Deus com a eleição eterna.

Diz-se que Ele nos chamou, e então temos essa segunda palavra “chamado”. Por isso, Deus nos chama: e como? Certamente, quando Lhe apraz nos certificar de nossa eleição, a qual não poderíamos alcançar de outra maneira. Porque, como diz o profeta Isaías e também o apóstolo Paulo, quem pode entrar no conselho de Deus? Mas quando apraz a Deus comunicar a Si mesmo a nós familiarmente, então recebemos o que sobrepuja o conhecimento de todos os homens, porque temos uma boa e fiel testemunha, que é o Espírito Santo, que nos eleva acima do mundo, e nos leva até aos maravilhosos segredos de Deus.

Não devemos falar precipitadamente da eleição de Deus, e dizer que somos predestinados, a não ser se completamente seguros da nossa salvação. Não devemos falar levianamente disso: se Deus nos tomou para sermos Seus filhos ou não. Como então? Olhando para o que está estabelecido no evangelho. Ali Deus nos mostra que Ele é nosso Pai, e que Ele nos trará à herança da vida, tendo nos marcado com o selo do Espírito Santo em nossos corações, que é um testemunho indubitável da nossa salvação, se o recebemos por fé.

O evangelho é pregado a um grande número, que não obstante, são réprobos. Sim, e Deus tem revelado e demonstrado que Ele os amaldiçoou, porque eles não têm parte nem porção em Seu reino, pois eles resistem ao evangelho, e rejeitaram a graça que lhes é oferecida. Mas, quando recebemos a doutrina de Deus, com obediência e fé, descansamos em Suas promessas e aceitamos a oferta que Ele nos faz, para nos tomar por Seus filhos, isso, eu digo, é a certeza da nossa eleição. Mas devemos salientar aqui, que quando temos conhecimento da nossa salvação, quando Deus nos chamou e nos iluminou na fé do Seu evangelho, isso não deve tornar nula a predestinação eterna que veio anteriormente.

Há um grande número nestes dias que dirão: “Quem Deus escolheu, a não ser os fiéis?” Eu concordo com isso, mas eles tiram uma maligna conseqüência disso e dizem que a fé é a causa, sim, a primeira causa de nossa salvação. Se eles a chamassem de causa intermediária, isso seria, certamente, verdadeiro, pois a Escritura diz: “Pela graça sois salvos mediante a fé” (Ef 2:8). Mas devemos ir mais alto, pois se eles atribuem a fé ao livre-arbítrio dos homens, eles blasfemam contra Deus perversamente, e cometem um sacrilégio. Devemos ir ao que a Escritura nos demonstra, a saber, que quando Deus nos dá a fé, devemos saber que não somos capazes de receber o evangelho, a não ser que ele nos molde pelo Espírito Santo.

Não é suficiente para nós ouvirmos a voz do homem, a menos que Deus trabalhe dentro de nós, e fale em nós de uma forma secreta pelo Espírito Santo, e a partir daí vem a fé. Mas qual é a causa disso? Por que a fé é dada a um e não a outro? São Lucas nos mostra, dizendo: “Creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna.” (Atos 13: 48). Havia um grande número de ouvintes, e ainda assim apenas alguns deles receberam a promessa da salvação. E quem eram esses? Aqueles que foram designados para a salvação. São Paulo fala, mais uma vez, muito amplamente sobre esse assunto em sua epístola aos Efésios, de forma que não pode ser possivel que os inimigos da predestinação de Deus não vejam uma coisa tão clara e evidente, a não ser que o diabo tenha arrancado seus olhos e eles tenham se tornado vazios de toda razão.

São Paulo diz que Deus nos chamou, e nos fez participantes de Seus tesouros e riquezas infinitas, que nos foram dadas por nosso Senhor Jesus Cristo, de acordo com [Sua vontade] de nos escolher antes da fundação do mundo. Quando dizemos que nós somos chamados à salvação, porque Deus nos deu a fé, não é por não existir uma causa maior e quem quer que não vá até à eleição eterna de Deus, toma um pouco do que é Dele, e reduz Sua honra. Isto é encontrado em quase toda parte nas Escrituras Sagradas.

Para que possamos fazer uma breve conclusão sobre este assunto, vamos ver de que maneira devemos nos manter. Quando perguntamos sobre a nossa salvação, não devemos começar por “somos escolhidos?” Não. Nunca podemos subir tão alto. Seríamos confundidos milhares de vezes, e teríamos nossos olhos ofuscados, antes de conseguirmos chegar ao conselho de Deus. O faremos então? Ouçamos o que é dito no evangelho. Quando Deus tem sido tão gracioso, ao nos fazer receber a promessa oferecida, sabemos que isso é como se Ele tivesse aberto todo Seu coração para nós, e registrado nossa eleição em nossas consciências!

Devemos estar certificados de que Deus nos tomou por Seus filhos, e que o reino dos céus é nosso; porque somos chamados em Jesus Cristo. Como podemos saber isso? Como nós mesmos devemos proceder em relação à doutrina que Deus colocou diante de nós? Devemos magnificar a graça de Deus, e saber que não podemos trazer nada para nos recomendar o Seu favor. Devemos nos tornar em nada aos nossos próprios olhos, porque nós não podemos reivindicar qualquer exaltação. Porém sabemos que Deus nos chamou para o evangelho, tendo nos escolhido antes da fundação do mundo. Esta eleição de Deus é, por assim dizer, uma carta fechada, naquilo que a consiste e em sua própria natureza, mas podemos lê-la, porque Deus dá um testemunho dela, quando Ele nos chama a Si mesmo por meio do evangelho e pela fé.

Pois assim como a original ou primeira cópia não tiram nada da carta ou do escrito que é lido, da mesma maneira devemos estar além de qualquer dúvida de nossa salvação. Quando Deus nos certifica pelo Evangelho que Ele nos toma por Seus filhos, este testemunho traz paz consigo, sendo assinado pelo sangue de nosso Senhor Jesus Cristo e selado pelo Espírito Santo. Quando temos este testemunho, não temos o suficiente para satisfazer nossas mentes? Portanto, a eleição de Deus está tão distante de ser contra isso, que antes confirma o testemunho que temos no evangelho. Não devemos duvidar, que Deus tem registrado os nossos nomes antes que o mundo fosse feito, entre Seus filhos escolhidos, mas o conhecimento do porquê disso Ele reservou para Si.

Devemos sempre ir a nosso Senhor Jesus Cristo, quando falarmos de nossa eleição, porque sem Ele (como já demonstrado), não podemos chegar a Deus. Quando falamos do seu decreto, também podemos ser surpreendidos como homens dignos de morte. Mas se Jesus Cristo for o nosso guia, podemos com alegria depender Dele, sabendo que Ele tem mérito suficiente em Si para fazer de todos nós membros amados de Deus Pai. Mérito que é suficiente por nós para que sejamos enxertados em Seu corpo, e feitos um com Ele. Assim devemos meditar sobre esta doutrina, se quisermos aproveitá-la corretamente, como é colocado por São Paulo, quando diz que a graça da salvação nos foi dada antes que da fundação do mundo. Devemos ir além da ordem da natureza, se quisermos saber como somos salvos, porque causa, e de onde vem a nossa salvação.

Deus não quis nos deixar em dúvida, nem ocultar Seu conselho, de forma que não pudéssemos saber como a nossa salvação foi assegurada; mas nos chamou a Si pelo Seu evangelho, e tem selado o testemunho da Sua bondade e amor paternal em nossos corações. Assim, com tal certeza, vamos glorificar a Deus, que nos chamou de Sua livre misericórdia. Descansemos sobre nosso Senhor Jesus Cristo, sabendo que Ele não nos enganou quando Ele fez com que fosse pregado que Ele deu a Si mesmo por nós e testemunhou isso pelo Espírito Santo. Pois a fé é um sinal indubitável de que Deus nos toma por Seus filhos, e assim somos levados a eleição eterna, conforme a qual Ele nos escolheu anteriormente.

Ele não diz que Deus nos escolheu porque temos ouvido o evangelho, mas por outro lado, Ele atribui a fé que nos é dada como a mais alta causa, a saber, porque Deus tem preordenado que Ele iria nos salvar, vendo que estávamos perdidos e rejeitados em Adão. Há alguns tolos que, para cegar os olhos dos simples e outros tais como eles mesmos, dizem que a graça da salvação nos foi dada porque Deus determinou que seu filho redimisse a humanidade e, portanto, isso é comum a todos

Mas São Paulo fala aqui de outro tipo e os homens não podem por argumentos tão infantis desfigurar a doutrina do evangelho, pois é dito claramente que Deus nos salvou. Isso se refere a todos sem exceção? Não. Ele só fala dos fiéis. Novamente: São Paulo inclui todo o mundo? Alguns foram chamados pela pregação, e ainda se fizeram indignos da salvação que lhes foi oferecida, e por isso foram reprovados. Outros foram deixados por Deus em sua incredulidade, os quais nunca ouviram a pregação do evangelho.

Portanto São Paulo se dirige clara e precisamente àqueles a quem Deus tinha escolhido e reservado para Si. A bondade de Deus nunca será vista na sua verdadeira luz, nem será honrada como merece, a não ser que nós saibamos que Ele não queria que permanecêssemos na destruição geral da humanidade, onde Ele deixou aqueles que eram como nós. Não somos diferentes desses, porque nós não somos melhores do que eles. Mas assim Deus se agradou em fazer. Portanto, todas as bocas devem ser fechadas. Os homens não devem presumir de tomar nada por si mesmos, exceto exaltar a Deus, confessando-se devedores a Ele por toda a Sua salvação.

Devemos fazer agora algumas observações sobre as palavras utilizadas por São Paulo neste lugar. É verdade que a Eleição de Deus nunca poderia ser aproveitável para nós, a não ser que saibamos por meio do evangelho, que por esse motivo Deus se agradou em revelar o que tinha mantido em segredo antes de todos os séculos. Mas, para declarar seu significado mais claramente, acrescenta que esta graça nos é revelada agora. E como? “Pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus”. Quando ele diz que esta graça nos é revelada pelo aparecimento de Jesus Cristo, mostra que devemos ser muito ingratos, se não pudermos nos satisfazer e descansar na graça do Filho de Deus. O que podemos esperar mais? Se pudéssemos subir além das nuvens, e buscar os segredos de Deus, qual seria o resultado disso? Não seria saber que somos Seus filhos e herdeiros?

Agora sabemos essas coisas, pois elas estão claramente definidas em Jesus Cristo. Porque é dito que todo aquele que Nele crê goza do privilégio de ser filho de Deus. Portanto, não devemos desviar dessas coisas nem um jota, se quisermos ter certeza de nossa eleição. São Paulo já nos tem mostrado que Deus nunca nos amou, nem nos escolheu, a não ser na pessoa do Seu Filho amado. Quando Jesus Cristo apareceu, Ele revelou vida para nós, caso contrário, jamais teríamos sido participantes dela. Ele nos fez conhecer o conselho eterno de Deus. Mas é presunção para os homens tentar saber mais do que Deus quer que eles saibam.

Se andamos sóbria e reverentemente em obediência a Deus, ouvindo e recebendo o que Ele diz nas Sagradas Escrituras, o caminho será feito claro diante de nós. São Paulo diz que quando o Filho de Deus apareceu no mundo, Ele abriu nossos olhos, para que pudéssemos saber que Ele foi gracioso para conosco, antes que o mundo fosse feito. Fomos recebidos como Seus filhos, e considerados como justos, de forma que não precisamos duvidar que o reino dos céus esteja preparado para nós. Não que tenhamos isso por nossos méritos, pois ele pertence a Jesus Cristo, que nos faz participantes Consigo.

Quando São Paulo fala do aparecimento de Jesus Cristo ele diz, “Ele trouxe à luz a vida e a imortalidade através do evangelho”. Não é somente dito que Jesus Cristo é nosso Salvador, mas que Ele é enviado para ser um mediador, para nos reconciliar pelo sacrifício da Sua morte. Ele é enviado a nós como um cordeiro sem defeito, para nos purificar e fazer satisfação por todas as nossas transgressões. Ele é a nossa garantia, para nos livrar da condenação e da morte. Ele é a nossa justiça. Ele é o nosso advogado, que intercede com Deus para que Ele ouça nossas orações.

Temos de conceder que todas essas qualidades pertencem a Jesus Cristo, se quisermos saber corretamente como Ele apareceu. Devemos olhar para a substância contida no evangelho. Devemos saber que Jesus Cristo apareceu como nosso Salvador, e que Ele sofreu para nossa salvação, e que fomos reconciliados com Deus Pai através Dele. Porque temos sido limpos de todas as nossas manchas, e libertos da morte eterna. Se não soubermos que Ele é nosso advogado, que nos ouve quando oramos a Deus a fim de que nossas orações possam ser respondidas, o que será de nós? Que confiança podemos ter de invocar o nome de Deus, que é a fonte da nossa salvação? Mas diz São Paulo que Jesus Cristo cumpriu todas as coisas que eram necessárias para a redenção da humanidade.

Se o evangelho fosse lançado fora, de que vantagem seria para nós que o Filho de Deus tenha sofrido a morte e ressuscitado ao terceiro dia para nossa justificação? Nada disso nos beneficiaria. Sendo assim, o Evangelho nos coloca na posse dos benefícios que Jesus Cristo comprou para nós. E, portanto, apesar Dele estar ausente de nós no corpo, e não se relacionar conosco aqui na terra, não é que Ele tenha se afastado, como se não pudéssemos encontrá-Lo, pois o Sol que brilha não ilumina mais o mundo do que Jesus Cristo mostra-se abertamente para aqueles que têm os olhos da fé sobre ele, quando o evangelho é pregado. Por isso diz São Paulo que Jesus Cristo trouxe a vida à luz, sim, a vida eterna.

Ele diz: "O Filho de Deus destruiu a morte." E como Ele a destruiu? Se Ele não tivesse oferecido um sacrifício eterno para apaziguar a ira de Deus, se não tivesse entrado até o abismo para dali nos tirar, se não tivesse tomado a nossa maldição sobre Si, se não tivesse tirado o fardo com o qual éramos esmagados, como estaríamos? Será que a morte teria sido destruída? Não. O pecado reinaria sobre nós, e a morte da mesma forma. E, de fato, se nós examinássemos a nós mesmos, veríamos que somos escravos de Satanás, que é o príncipe da morte. Assim estaríamos presos nesta escravidão miserável, se Deus não destruísse o diabo, o pecado e a morte. E isso é feito: mas como? Ele tirou nossos pecados pelo sangue de nosso Senhor Jesus Cristo.

Portanto, embora sejamos pobres pecadores, e em perigo do juízo de Deus, ainda assim o pecado não pode nos ferir. A picada venenosa é tão cegada que não pode nos ferir, porque Jesus Cristo ganhou a vitória sobre ela. Ele não sofreu o derramamento do Seu sangue em vão, mas foi uma purificação onde fomos lavados por meio do Espírito Santo, tal como é demonstrado por São Pedro. E assim vemos claramente que, quando São Paulo fala do Evangelho, onde Jesus Cristo apareceu, e aparece diariamente para nós, ele não esquece sua paixão e morte, nem as coisas que dizem respeito à salvação da humanidade.

Podemos ter a certeza de que na pessoa do nosso Senhor Jesus Cristo temos tudo o que possamos desejar: temos confiança total e perfeita na bondade de Deus, e no amor do qual Ele nos dá testemunho. Mas vemos que nossos pecados nos separam de Deus, e causam uma guerra em nossos membros e ainda assim temos uma expiação por nosso Senhor Jesus Cristo. E por quê? Porque Ele derramou Seu sangue para lavar os nossos pecados. Ele ofereceu um sacrifício pelo qual Deus se reconciliou conosco. Em resumo, Ele tirou a maldição, para que possamos ser abençoados por Deus. Além disso, Ele conquistou a morte e triunfou sobre ela, para que pudesse nos livrar da sua tirania, que de outra forma nos esmagaria completamente.

Assim, vemos que todas as coisas que pertencem a nossa salvação são realizadas em nosso Senhor Jesus Cristo. E para que possamos entrar em plena posse de todos esses benefícios sabemos que Ele aparece para nós diariamente por Seu evangelho. Embora habite em Sua glória celeste, se abrirmos os olhos da nossa fé, nós o contemplaremos. Devemos aprender a não separar o que o Espírito Santo tem unido. Vamos observar o que São Paulo queria dizer, por uma comparação, que amplifica a graça que Deus mostrou ao mundo após a vinda de nosso Senhor Jesus, como se dissesse "os antigos pais não tiveram essa vantagem: ter Jesus Cristo aparecendo para eles, como apareceu para nós".

É verdade que eles tinham a mesma fé, que a herança dos Céus é deles bem como nossa, que Deus revelou Sua graça para eles assim como para nós, mas não na mesma medida, pois viam Jesus Cristo ao longe, sobre as figuras da Lei, como São Paulo diz aos Coríntios. O véu do templo ainda se estendia e os judeus não podiam chegar perto do santuário, isto é, o santuário material. Agora, porém, o véu do templo tendo sido removido, nos aproximamos da majestade do nosso Deus. Chegamos-nos mais familiarmente a Ele, em quem habita toda a perfeição e glória. Em suma: temos o corpo, enquanto eles tinham apenas a sombra (Colossenses 2:17).

Os antigos pais se submeteram totalmente a suportar a aflição de Jesus Cristo, como é dito no capítulo 11 de Hebreus. Porque não é dito que Moisés suportou a vergonha de Abraão, mas de Jesus Cristo. Assim, os antigos pais, apesar de viverem sob a Lei, ofereciam eles mesmos a Deus em sacrifícios, para suportar mais pacientemente as aflições de Cristo. E agora, Jesus Cristo tendo ressuscitado dos mortos, trouxe à luz a vida. Se somos tão delicados que não podemos suportar as aflições do evangelho, não somos dignos de sermos apagados do livro de Deus, e sermos rejeitados? Portanto, devemos ser constantes na fé, e prontos para sofrer, o que quer que Deus queira, pelo nome de Jesus Cristo, porque a vida é colocada diante de nós, e nós temos um mais familiar conhecimento do que os antigos pais tiveram.

Sabemos o quanto os antigos pais eram atormentados pelos tiranos e inimigos da verdade, e como eles sofreram constantemente. A condição da igreja não é mais grave nestes dias do que foi outrora. Porque agora Jesus Cristo trouxe a vida e a imortalidade à luz através do evangelho. Todas as vezes que a graça de Deus é pregada a nós, é como se o reino dos céus se abrisse para nós, como se Deus estendesse Sua mão, e nos certificasse que a vida está próxima, e que Ele nos faz participantes da sua herança celestial. Mas quando olhamos para essa vida, que foi comprada para nós pelo nosso Senhor Jesus Cristo, não devemos hesitar em abandonar tudo o que temos neste mundo, para ir ao tesouro acima, que está nos céus

Portanto, não sejamos voluntariamente cegos, vendo que Jesus Cristo coloca diariamente diante de nós a vida e a imortalidade, das quais falamos aqui. Quando São Paulo fala da vida, e acrescenta a imortalidade, é como se dissesse “Já entramos no reino do céu pela fé. Embora sejamos como estranhos aqui em baixo, a vida e a graça da qual fomos feitos participantes por meio de nosso Senhor Jesus Cristo trarão seus frutos no tempo conveniente, a saber, quando Ele for enviado por Deus Pai para nos mostrar o efeito das coisas que são diariamente pregadas, as quais foram cumpridas em Sua pessoa quando Ele estava vestido com a humanidade.”

Fonte:

http://www.reformedsermonarchives.com/cal8.htm

Tradutor: Emerson Campos Pinheiro

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Jornalista do Estadão critica a Universidade PRESBITERIANA Mackenzie por distribuir gratuitamente BÍBLIAS SAGRADAS aos seus alunos!

A Bíblia do Mackenzie - "cuspindo no prato em que comeram"


Estou reproduzindo um artigo original do meu amigo Wilson Porte, companheiro do Andrew Jumper, por julgar muito bem escrito e digno de ser reproduzido.


Por Wilson Porte Jr.

Cuspindo no prato em que comem! Esta é a melhor definição do que alguns jornalistas estão fazendo com a Universidade Mackenzie.

Esta expressão vem de um comentário de um jovem no site do Jornal O Estado de São Paulo (Estadão) que, na semana passada, postou um comentário no mínimo infeliz à prática de anos que o Mackenzie tem de doar Bíblias a alunos novos e formandos.

Já faz tempo que um grupo de pseudo-jornalistas vêm divulgando informações falaciosas e tendenciosas contra o Mackenzie e, sobretudo, contra o cristianismo. O pior é que esses caras são de grandes jornais, os "grandes bodes", de nossa nação.

A última, e ridícula, diga-se de passagem, foi a tentativa de Carlos Lordelo (Estadão) de criticar a iniciativa da Universidade Presbiteriana Mackenzie de presentear os novos alunos com uma Bíblia, além de outras coisas. Seu artigo pode ser lido AQUI.

Fonte: LUIS CAVALCANTE

SALVAÇÃO É UM ATO DE DEUS - JAMAIS UM PROCESSO

Por Sóstenses N. Melo

SALVAÇÃO É O ATO DE DEUS

Ato é uma ação de Deus em transferir o direito ao pecador de gozar e participar ao mesmo tempo, a experiência da salvação de sua alma e o perdão de seus pecados. O ato de Deus na salvação do pecador é imediato e eterno.

Lemos na Palavra de Deus que todo aquele que crê em Cristo é salvo. "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo," At. 16:31. Isto não inclui o crer vulgar. Geralmente as pessoas crêem em alguma coisa, mas até os demônios crêem e estremecem. "Tu crês que há um Deus; fazes bem. Também os demônios crêem e estremecem." Tiago 2:19. Constatamos assim a inutilidade de uma mera crença e não da fé que é o resultado do Novo Nascimento do Espírito Santo, e que é uma exclusividade de Deus, sem as obras da lei. A Palavra de Deus diz em Efés. 2:8-9: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie."

Eis o que Cristo afirmou categoricamente ao declarar ser o Filho de Deus e igual ao Pai: "Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida." João 5:24. O pecador recebe imediata e instantaneamente a salvação de sua alma e o perdão de seus pecados, no momento em que crê em Cristo como seu Salvador pessoal.

No caso da salvação de Zaqueu, a Bíblia emprega a palavra hoje , que quer dizer, o dia em que ele do alto de uma árvore, antes que avistasse Jesus, ficou surpreso ao ouvi-lo dizer: "Zaqueu, desce depressa, porque hoje convém pousar em tua casa," Luc. 19:5. Subiu na árvore o Zaqueu perdido; desceu outro Zaqueu; salvo, alegre, hospitaleiro expansivo.

Na carta aos Hebreus em 13:7-8, deparamo-nos com a advertência divina: "Portanto, como diz o Espírito Santo, se ouvirdes hoje a sua voz, não endureçais os vossos corações?" Novamente se refere à palavra hoje, nunca ao dia de manhã, pois ele não nos pertence.

Quando o carcereiro de Filipos perguntou a Paulo e Silas: "Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?" Paulo e Silas responderam: "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa." At. 16:31. O carcereiro creu, aceitando Jesus naquele momento, e foi salvo, sem a menor exigência de boas obras nem batismo. A resposta de Paulo e Silas foi autoritária, não admitindo dúvidas. Eles não disseram "Talvez." Por que? Porque a salvação é pela fé na pessoa de Jesus Cristo.

SALVAÇÃO NÃO É UM PROCESSO

Processo significa uma seqüência, cujos acontecimentos exigem mais tempo, precisando de uma análise cuidadosamente estudada. Processos há que contém resmas e mais resmas de papel; alguns engavetados há décadas.

Ouvi em certa ocasião um ministro falar, por meio de uma aparelhagem de som, convidando as pessoas que estivessem interessadas em ser salvas, e a dirigirem a sua igreja, afirmando que lá havia salvação. Tive a oportunidade de falar com várias pessoas, membros daquela igreja, as quais afirmaram saber algo sobre a salvação somente após a morte; nesta vida pode-se ser salvo dos vícios e pecados, foi o que disseram.

Outros há que alimentam a possibilidade da salvação de seus adeptos no cumprimento de todos os deveres determinados pelo ministro, chegando a afirmar até, que fora daquela igreja não há salvação.

Caro leitor, receba, pela fé, quem fez a salvação perfeita e completa agora. Jesus Cristo, que morreu derramando seu sangue precioso na cruz, a fim de salvá-lo. Jesus Cristo afirmou em João 8:24: "Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados."

"Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna por Cristo Jesus nosso Senhor." Rom. 6:23, "Sendo justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo." Rom. 5:1.

"Portanto agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito." Rom. 8:1.

Crê no Senhor Jesus Cristo, agora mesmo, de todo o seu coração e será salvo eternamente!

Fonte: JesusSite

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Pelágio - A Heresia que continua hoje.

Por R. C. Sproul


O nome pelagianismo tem sua origem a partir de um monge britânico que se engajou num debate ardente com Agostinho na igreja primitiva. Presumivelmente nascido na Irlanda, Pelágio tornou-se monge e eunuco. Movido em sua alma, ele chamava a igreja para uma perseguição vigorosa da virtude e até mesmo a perfeição moral. Passou muitos anos em Roma onde Coelestius e Juliano de Eclanum, um bispo que se tornara viúvo ainda jovem, se juntaram a ele no seu conflito com Agostinho. Dos três, Julianoera o mais culto. Também era o mais agressivo na controvérsia, embora tenha sido menos agitador do que Coelestius.

Adolph Harnack diz que Pelágio foi "levado à ira por uma cristandade inerte, que se desculpava alegando fragilidade da carne e a impossibilidade do cumprimento dos mandamentos opressivos de Deus". De acordo com Harnack, Pelágio "pregava que Deus não havia ordenado nada impossível, que o homem possuía o poder de fazer o bem se assim desejasse e que a fraqueza da carne era meramente um pretexto".

O princípio controlador do pensamento de Pelágio era a convicção de que Deus nunca ordena o que é impossível para o homem realizar. Para Pelágio, esse não era um princípio teológico abstrato mas um assunto que acarretava conseqüências práticas urgentes para a vida cristã. Ele se levantou inicialmente contra Agostinho por causa de um oração que Agostinho havia escrito: "Concede o que tu ordenaste, e ordena o que tu desejas".

Pelágio não discordava da última frase dessa oração. Na verdade, é virtualmente supérfula. Deus tem o direito de ordenar tudo o que deseja. Esta, claramente, é uma prerrogariva divina. A suposição, naturalmente, é de que o que Deus deseja das suas criaturas nunca era frívolo ou mal. Essa parte da oração de Agostinho não indica que Deus precisa da permissão humana para legislar seus mandamentos, mas refletia, em seu lugar, a postura de humilde submissão de Agostinho quanto ao direito divino de lei.

Pelágio exasperou-se com a primeira parte da oração de Agostinho: "Concede o que tu ordenaste..." O que Agostinho estava pedindo que Deus concedesse? Não poderia ser sua permissão, porque a criatura nunca precisa pedir permissão para fazer o que havia sido ordenado. Na verdade, ele precisaria de permissão para não fazê-lo. Agostinho, obviamente, estava pedindo outra coisa, algum tipo de dom para atender ao comando. Pelágio acertadamente supôs que Agostinho estava orando pelo dom da graça divina, que viria na forma de algum tipo de assistência.

Pelágio levantou a seguinte questão: A assistência da graça é necessária para o ser humano obedecer aos comandos de Deus? Ou esses comandos podem ser obedecidos sem essa assistência? Para Pelágio, a ordem de obedecer implicava habilidade para obedecer. Isso se aplicaria não apenas a lei moral de Deus mas também aos comandos inerentes ao evangelho. Se Deus ordena que as pessoas creiam em Cristo, então elas devem ter o poder de crer em Cristo sem a ajuda da graça. Se Deus ordena que os pecadores se arrependam, eles devem ter a habilidade de se inclinarem para obedecerem ao comando. A obediência não precisa, de forma alguma, ser "concedida".

A questão entre Pelágio e Agostinho era clara. Não estava ofuscada por argumentos teológicos intrincados, especialmente no começo. "Nunca houve, talvez, uma crise de igual importância na história da igreja na qual os oponentes tenham expressado os princípios em debate tão clara e abstratamente" - diz Harnack. "Somente a disputa Ariana antes do Concílio de Nicéia pode ser comparada a ela..."

Para Pelágio, a natureza não requer graça a fim de cumprir suas obrigações. O livre-arbítrio, adequadamente exercido, produz virtude, que é o bem supremo e devidamente seguido pela recompensa. Por meio do seu próprio esforço, o homem pode alcançar tudo o que se requer dele na moralidade e na religião.
Dezoito Premissas.

01) A base do pensamento de Pelágio é a premissa de que os mais altos atributos de Deus são a bondade e a justiça. Para Pelágio, esses atributos são a condição sine qua non do caráter divino. Sem os mesmos, Deus não seria Deus. É inconcebível um Deus que carece da perfeição da bondade e da justiça.

02) A segunda premissa sobre a qual Pelágio elabora é: se Deus é completamente bom, então tudo o que criou é igualmente bom. Toda a sua criação é boa, incluindo o homem. "Adão... foi criado por Deus sem pecado e inteiramente competente para todo o bem, com um espírito imortal e um corpo mortal", observa Philip Schaff, resumindo a visão de Pelágio. "Ele (Adão) - foi dotado com razão e livre-arbítrio. Com sua razão, ele deveria ter o domínio sobre todas as criaturas irracionais; com o seu livre-arbítrio, ele deveria servir a Deus. A liberdade é o bem supremo, a honra e a glória do homem, o bonum naturae, que não pode ser perdido. É a base única da relação ética do homem com Deus, que não teria um culto relutante. Ela consiste... essencialmente no liberum arbitrium, ou na possibilitas boni et mali; liberdade de escolha e na habilidade obsolutamente semelhante para o bem ou mal a cada momento"

Pelágio arraigou sua visão da natureza humana e do livre-arbítrio na sua doutrina da criação. O livre-arbítrio consiste essencialmente na habilidade de se escolher entre o bem e o mal. Essa habilidade ou possibilidade é a própria essência do livre-arbítrio, de acordo com Pelágio. Essa habilidade é dada ao homem por Deus na criação, e é um aspecto essencial da natureza constituinte do homem.

03) A terceira premissa de Pelágio é que a natureza foi criada não apenas boa mas incontestavelmente boa. Isso é verade "porque as coisas da netureza persistente desde o início da existência (substância) até o seu fim". Schaff diz de Pelágio:

Ele vê a liberdade na sua forma apenas, e em seu primeiro estágio, e lá ele a fixa e a deixa, no equilíbrio perpétuo entre o bem e o mal, pronta para se decidir por qualquer um a qualquer momento. Ela não tem passado ou futuro; absolutamente independente de tudo, seja interior ou exterior; um vácuo que pode se fazer pleno e , então, tornar-se um vácuo novamente; uma tábula rasa, sobre a qual o homem pode escrever tudo o que lhe agra; uma escolha impaciente, a qual, depois de cada decisão, reverte-se à indecisão e oscilação. A vontade humana é como se fosse o eterno Hércules na encruzilhada, que dá o primeiro passo para a direita e o segundo para a esquerda e sempre volta à primeira posição.

Se a vontade do homem é uma tábula rasa perpétua, então quando uma pessoa peca, a natureza da vontade não passa por uma mudança e nem por uma deformação. Não há uma corrupção inerente no homem. Não há predisposição ou inclinação para o pecado que é, em si mesma, um resultado do pecado. Cada ato de pecado flui de um novo começo, um bloco limpo de papel que não é inscrito a priori com alguma predileção.

04) A quarta premissa de Pelágio é que a natureza humana, como tal, é inalteravelmente boa. Isto é, a essência constituinte do homem permanece boa. A natureza não pode ser alterada na sua substância; só pode ser modificada acidentalmente. O termo acidentalmente aqui não significa que algo acontecesse sem intenção como um resultado do infortúnio. Ele refere-se à distinção de Aristóteles entre a substância de um objeto e seus accidens. Accidens refere-se ao que é exterior a alguma coisa, as qualidades perceptíveis, qualidades que estão na periferia e não são essencias ao ser desse algo. O comportamento de alguém pode ser mudado quando ele comete atos pecaminosos, mas essas ações não mudam a natureza desse alguém.

05) A quinta premissa de Pelágio, que se segue a partir das quatro primeiras, é que o mal ao pecado nunca pode transformar-se em natureza. Ele define o pecado como um desejo de fazer o que a justiça proibe, do qual somos livres para nos abstermos e, assim podemos sempre evitá-lo pelo exercício adequado da nossa vontade. O pecado é sempre um ato e nunca uma natureza. Caso contrário, Pelágio insiste, Deus seria o autor do mal. Os atos pecaminosos nunca podem causar uma natureza pecaminosa, e o mal também não pode ser herdado. Se pudesse, então a bondade e a justiça de Deus estariam destruídas.

06) Na sexta premissa, Pelágio explica que o pecado existe como o resultado das armadilhas de Satanás e da concupiscência sensual. Essas tentações ao pecado podem ser superadas pelo exercício da virtude. Nem a lascívia ao a concupiscência surgem da essência do homem mas é "extrínsica" a ela. Essa concupiscência não é, em si mesma má, porque até mesmo Cristo estava sujeito a ela. Isso dá origem a formulação história com relaão à concupiscência: ela é do pecado e inclina ao pecado mas não é, em si mesma, pecado.

07) A sétima premissa - conclui que sempre permanece a possibilidade e, na verdade, a realidade dos homens sem pecado. O homem pode ser perfeito e alguns têm sido. Essa tese rejeita categoricamente qualquer doutrina do pecado original, isto é, que os homens têm a natureza corrupta como resultado da queda de Adão. Isso conduz às teses nas quais Pelágio descreve a condição de Adão e de sua progenitura.

08) A oitava premissa - é que Adão foi criado com livre-arbítrio e uma santidade natural indubitável. Essa santidade natural compreendia a liberdade da sua vontade e da sua razão. Uma vez que essas faculdades eram dons dados por Deus na criação, podiam ser consideradas dons da graça. Não foram adquiridas por Adão, mas eram inerentes na sua criação.

09) A nona premissa - é que Adão pecou por vontade própria. Ele não foi coagido por Deus ou por qualquer outra criatura a cometer o primeiro ato de pecado. Esse pecado não resultou na corrupção da sua natureza. Nem causou a morte natural porque Adão foi criado mortal. O pecado de Adão resultou, sim, em "morte espiritual", que não era a perdad da habilidade moral ou uma corrupção inerente, mas a condenação da alma por causa do pecado.

10) A décima premissa - é que a progenitura de Adão não herdou a morte natural e nem a morte espiritual. Sua descendência morreu porque também era mortal. Se seus descendentes experimentaram a morte espiritual, isso se deu porque, de forma semelhante, também pecaram. Eles não experimentaram a morte espiritual por causa de Adão.

11) A décima primeira premissa - afirma que nem o pecado de Adão nem sua culpa foram transfimitos a sua descendência. Pelágio considerava a doutrina do pecado transmitido (tradux peccati) - e a do pecado original (peccatum orignis) como uma doutrina blasfema arraigada no maniqueísmo. Pelágio insistia que seria injustiça de Deus transmitir ou imputar o pecado de um homem a outros. Deus não introduziria novas criaturas a um mundo onerado com o peso de um pecado que não era delas. O pecado original envolveria uma mudança na natureza constituinte do homem de boa pra má. O homem se tornaria naturalmente mau. Se o homem fosse mau por natureza, tanto antes quanto depois do pecado de Adão, então Deus seria novamente considerado o autor do mal. Se a natureza do homem se tornou pecaminosa ou má, então estaria também acima da redenção. Se o pecado original fosse natural, então Cristo teria de possuí-lo e seria incapaz de se redimir, muito manos a qualquer outra pessoa.

Schaff faz a seguinte observação sobre essa dimensão da antropologia de Pelágio:"Pelágio, destituído da idéia do todo orgânico da raça ou da natureza humana, via Adão meramente como um indivíduo isolado; ele não deu a Adão nenhum lugar representativo, logo seus atos não acarretavam conseqüência além de si mesmo. Em sua visão, o pecado do primeiro homem consistiu de um único e isolado ato de desobediência ao comando divino. Juliano o compara à ofensa insignificante de uma criança que se permite ser desencaminhada por alguma tentação sensual mas que depois se arrepende de sua falha... Esse ato de transgressão único e desculpável não gerou conseqüências à alma e nem ao corpo de Adão, muito menos à sua posteridade, onde todos se mantém ou caem por si mesmos"

Para Pelágio, não há conexão entre o pecado de Adão e o nosso. A idéia de que o pecado poderia ser propagado via geração humana é absurda. "Se seus próprios pecados não prejudicam os pais depois da sua conversão", diz Pelágio, "muito menos os pais podem prejudicar seus filhos".

12) A décima segunda premissa conclui que todos os homens são criados por Deus na mesma posição que Adão gozava antes da queda. Há duas diferenças essenciais entre Adão e sua descendência; mas essas diferenças não são essenciais. A primeira é que Adão foi criado como um adulto; sua descendência teve de desenvolver sua habilidade quanto à razão. A segunda diferença é que Adão foi colocado num jardim paradisíaco ande não prevelacia o costume do mal; sua descendência nasce em uma sociedade ou ambiente no qual o costume do mal prevalece. No entanto, as crianças ainda nasce sem pecado.

Por que, então, a universalidade virtual do pecado? Pelágio atribui a imitação e a longa prática do pecado: "Porque nenhuma outra causa faz com que tenhamos dificuldades de fazer o bem do que o longo costume dos vícios que nos infectam desde a infância e gradualmente, através dos anos, nos corrompem e , assim, nos mantém abrogados e devotados a eles, parecendo, de alguma forma, ter a força da natureza".

Nessa passagem, Pelágio parece chegar perto de admitir o pecado original. A palavra-chave, no entanto, é parecendo. O pecado, na verdade, não tem "a força da natureza", a despeito da sua presença difundida.

13) - A décima terceira premissa é que o habito de pecar enfraquece a vontade. Esse enfraquecimento, no entanto, deve ser entendido no sentido acidental. O costume de pecar obscurece o nosso pensamento e nos conduz aos maus hábitos. Mas esses hábitos descrevem uma prática, não algo que realmente "habita a vontade". A vontade não é enfraquecida; ela não passa por uma mudança constituinte. Ela ainda retém a postura da indiferença sempre que uma decisão ética ou moral precisa ser tomada.

14) - A décima quarta premissa - de Pelágio revela o início de um conceito da graça: A graça facilita a bondade. A graça de Deus faz com que seja mais fácil para nós seros justos. Ela nos assiste em nossa busca da perfeição. Mas o ponto crucial de Pelágio é que, embora a graça facilite a justiça, ela não é, de forma alguma, essencial para que alcancemos essa justiça. O homem pode e deveria ser bom em a ajuda da graça.

"A resolução pelagiana do paradoxo da graça foi baseada numa definição de graça fundamentalmente diferente da definição agostiniana, e foi aí que o debate apertou", observa Joroslav Pelikan. "Espalhou-se que Pelágio estava 'contestando a graça de Deus'. Seu tratado sobre a graça dava a impressão de consentrar-se 'apenas no tópico da faculdade e capacidade da natureza, enquanto fez com que a graça de Deus consistisse quase que inteiramente disso'. Nesse livro, parecia que 'com cada argumento possível, ele defendia a natureza do homem contra a graça de Deus, pela qual o ímpio é justificado e pela qual nós somos cristãos"

15) - A décima quinta premissa - declara que a graça fundamental que Deus dá é aquela dada na criação. Essa graça é tão gloriosa que alguns gentios e judeus têm alcançado a perfeição.
16) - A décima sexta premissa denota a graça dada por Deus em sua lei, a graça da instrução e iluminação. Essa graça nada faz interiormente, mas produz uma definição clara da natureza da bandade. Nas categorias clássicas da virtude, duas coisas distintas foram requeridas: o conhecimento do bem e o poder moral para fazer o bem. Ambos são facilitados pela instrução e ilumimação da lei.

A graça é dada não apenas pela lei, mas também, de acordo com a 17) - décima sétima premissa, por meio de Cristo. Essa graça é também definida como illuminatio et doctrina. A principal obra de Cristo foi nos fornecer em exemplo.

Pelágio escreve, numa carta: "Nós, os que fomos instruídos pela graça de Cristo e nascidos de novo pra uma humanidade melhor, que fomos expiados e purificados pelo seu sangue e incitados a justiça perfeita pelo seu exemplo, devemos ser melhores do que aqueles que existiram antes da lei, e melhores também do que aqueles que estiveram sob a lei"; mas o argumento total dessa carta, emque o tópico é simplesmente o conhecimento da lei como meio poara a promoção da virtude, e também a declaração de que Deus abre os nossos olhos e revela o futuro "quando nos ilumina com o dom multiforme e inefável da graça celestial", prova que para ele... a"assistência de Deus" - consiste, no final, apenas em instrução.

A doutrina da graça de Pelágio é meramente o outro lado da sua doutrina do pecado. Por todo o seu pensamento, permanece a afirmação fundamental da inconversibilidade da natureza humana. Tendo sido criado boa, ela sempre permanece boa.

18) - A décima oitava premissa é que a graça de Deus, é compatível com sua justiça. A graça não fornece benefício adicional a natureza humana, mas é dada por Deus de acordo com o mérito. Em última análise, a graça é merecida.

Podemos resumir os dezoito pontos do pensamento pelagiano como se segue:

01. Os mais altos atributos de Deus são sua retidão e justiça.

02. Tudo o que Deus criou é bom.

03. Como alogo criado, a natureza não pode ser mudada na sua essência.

04. A natureza humana é inateravelmente boa.

05. O mal é um ato que nós podemos evitar.

06. O pecado vem via armadilhas satânicas e concupiscência sensual.

07. Pode haver homens sem pecado.

08. Adão foi criado com livre-arbítrio e santidade natural.

09. Adão pecou por livre vontade.

10. A descendência de Adão não herdou dele a morte natural.

11. Nem o pecado de Adão nem sua culpa foram transmitidos.

12. Todos os homens são criados como Adão era antes da queda.

13. O hábito de pecar enfraquece a vontade.

14. A graça de Deus facilita a bondade mas não é necessária para se alcançá-la.

15. A graça da criação produz homens perfeitos.

16. A graça da Lei de Deus ilumina e instrui.

17. Cristo trabalha principalmente pelo seu exemplo.

18. A graça é dada de acordo com a justiça e mérito.

O Curso da Controvérsia.

A controvérsia pelagiana surgiu por volta de 411 ou 412 em Cartago. Coelestius, discípulo de Pelágio, tentava ser nomeado presbítero em Cartago. Paulinius o denunciou com a acusação de que ele ensinava que o batismo de unfantes não objetivava a purificação do pecado. Harnack lista os itens da denúncia de Paulinius: Pelágio ensinava "que Adão foi feito mortal e teria morrido se tivesse ou não pecado - que o pecado de Adão só trouxe prejuízo a ele mesmo e não a raça humana - infantes, quando nascem, estão no estado em Adão estava antes do seu erro -que a raça humana não morre por causa da morte de Adão e do seu erro e nem ressuscitará em virtude da ressurreição de Cristo - tanto a lei quanto o Evangelho admitem os homens no reino dos céus - mesmo antes do advento de nosso Senhor, houve homem impecáveis, isto é, homens sem pecado - que o homem pode estar sem pecado e pode facilmente manter os comandos deivinos se assim desejar".

O Sínodo de Cartago excomungou Coelestius. Ele, então, retirou-se para Éfeso onde conseguiu tornar-se presbítero. Enquanto isso, Pelágio desejando evitar qualquer grande controvérsia, havia viajado pra a Palestina. Antes disso, havia visitado Hippo, mas Agostinho estava fora e assim, não se encontraram. De Jerusalém, Pelágio escreveu uma carta lisonjeira a Agostinho. Este respondeu com uma carta cortês mas cautelosa. Agostinho ainda estava se recuperando da pressão da controvérsia donastia e sabia pouco sobre a controvérsia que estava se formando em Cartago com Coelestius. Agostinho recebeu notícias de Jerusalém de que o ensino de Pelágio estava causando um tumulto por lá.

Orósio, um amigo e discípulo de Agostinho, solicitou uma sindicância contra Pelágio em 415, mas Pelágio foi exonerado. Em dezembro desse ano, um sínodo palestino denunciou alguns escritos de Pelágio. Quando o sínodo exigiu que ele renunciasse ao seu ensino de que o homem pode estar sem pecado sem a ajuda da graça, Pelágio capitulou. Ele disse, "eu os anatemizo como insensatos, não como heréticos, visto não ser caso de dogma". Ele repudiou o ensino de Coelestius dizendo: "Mas as coisas que declarei não sendo minhas, eu, de acordo com a opinião da santa igreja, reprovo, pronunciando um anátema a todo aquele que se opuser".

Como resultado, Pelágio foi pronuciado ortodoxo. Reinhold Seeberg chama a resposta de Pelágio de "mentira covarde". Isso deixou Pelágio com a difícil tarefa de recuperar a sua credibilidade diante de sus próprios defensores. Ele escreveu quatro livros, incluindo De natura e De líbero arbitrio para elucidar suas opiniões.

A igreja da África do Norte não estava satisfeita com os resultados do sínodo. Jerônimo o chamou de "sínodo miserável" e Agostinho disse, "não foi a heresia que foi absolvida lá, mas o homem que a negou". Dois sínodos norte-africanos aconteceram em 416, e ambos condenaram o pelagianismo. Uma carta dos precedimentos foi enviada ao papa Inocência, e esta foi seguida por outra carta de cinco bispos norte-africanos, incluindo Agostinho. Pelágio reagiu com uma carta sua. O papa Inocência se agradou em ser consultado e expressou sua concordância total com a condenação de Pelágio e Coelestius: "Declaramos, em virtude da nossa autoridade Apostólica, que Pelágio e Coelestius estão excluídos da comunhão da Igreja até que se lebertem das armadilhas de Satanás".

No ano seguinte (417), o papa Inocência morreu e foi sucedido pelo papa Zózimo. Pelágio enviou uma confissão de fé bem-composta a Roma, argumentando que havia sido falsamente acusaso e deturpado pelos adversários. Enquanto isso, Coelestius havia ido a Roma e submetido ao papa uma síntese de submissão. O biógrafo de Agostinho, Peter Brown, escreve: "Pelágio apressou-se em obedecer às convocações do Bispo de Roma; ele havia sido precedido por um bispo Heros e Lázaro, eram inimigos pessoas de Zózimo... numa sessão forma, Zózimo recusou pressionar Coelestius e, assim, pôde declarar-se satisfeito. Pelágio obteve uma saudação ainda mais calorosa em meados de setembro. Zózimo disse aos africanos..., 'Quão profundamente cada um de nós foi movido! Dificilmente alguém presente poderia reter as lágrimas ao pensamento dessas pessoas de fé genuína terem sido difamadas".

O julgamento de Zózimo não encerrou o assunto. A igreja norte-africana convocou um concílio geral em Cartago em 418 ao qual compareceram mais de duzentos bispos. O concílio lançou vários cânones contra o pelagianismo, incluindo o seguinte:

"Todo aquele que diz que Adão foi criado mortal e teria, mesmo sem pecado, morrido por necessidade natural, seja anátema...

Os cânones prosseguiram condenando as seguintes doutrinas: "que... o pecado original ( não é) herdado de Adão; que a graça não ajuda com relação aos pecados futuros; que a graça consiste apenas em doutrinas e mandamentos; que a graça apenas faz com que seja mais fácil fazer o bem; (e) que os santos expressam a quinta súplica da oração do Senhor não por si mesmos, ou apenas por humildade"

Zózimo, então, retratou-se quanto a sua posição anterior e publicou uma epístola requerendo que todos os bispos subscrevessem os cânones desse conselho. Dezoito bispos, incluindo Juliano de Eclanum, recusaram-se. Historiadores uniformemente consideram Juliano como o mais capaz e astuto defensor da teologia pelagiana. Ele forçou sua causa com cartas ao papa e com uma crítica mordaz às visões de Agostinho. Quando Banifácio secedeu Zózimo, ele persuadiu Agostinho a refutar Juliano, e esse trabalho o ocupou até a sua morte. Dezessete dos dezoito bispos que resistiram à epístola papal, retrataram-se subsequentemente. Apenas Juliano persistiu. Depois de ser desposado do seu cargo, refugiou-se, juntamente com Coelestius, em Constantinopla, onde em 429 recebeu as boas vindas do patriarca Nestor. Pouco se sabe da vida subseqüente de Pelágio e Coelestious. A aliança de Juliano e Nestor não o ajudou porque o póropio Nestor foi mais tarde condenado por causa da heresia que levava seu nome.

O terceiro conselho ecumênico em Éfeso (431 d.C), realizado um ano após a morte de Agostinho, conenou o pelagianismo. Schaff faz a seguinte observação sobre o sistema de pensamento pelagiano:

"Se a natureza humana não é corrupta, e a vonta de natural é competente para todo o bem, não precisamos de um Redentor para criar em nós uma nova bondade e uma nova vida, mas apenas de alguém que nos melhore e enobreça; e a salvação é, essencialmente, obra do homem. O sistema pelagiano realmente não tem lugar para as idéias de redenção, expiação, regeneração e nova criação. Ele as substitui pelos nossos próprios esforços de aperfeiçoar nosso poderes naturais e a mera adição da graça de Deus como suporte e ajuda valiosa. Foi somente por uma feliz inconsistência que Pelágio e seus adeptos tradicionalmente permanecem nas doutrinas da igreja da Trindade e da pessoa de Cristo. Logicamente, seu sistema condizia a uma Cristologia racionalista".

Fonte: [ Liga Calvinista ]

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Os milagres do dinheiro e o dinheiro dos milagres

"A trajetória de vida de Macedo revela curiosa proximidade com números. Aos 17 anos ingressou como office-boy na Loterj - Loteria do Rio de Janeiro – trabalhando durante dezesseis anos como funcionário público. Deixou a carreira no funcionalismo somente em 1977, quando exercia a função de agente administrativo, para se dedicar exclusivamente à IURD. Diferentemente da maioria dos líderes pentecostais, freqüentou, no começo dos anos 70, os bancos universitários. Estudou Matemática na Universidade Federal Fluminense e Estatística na Escola Nacional de Ciência e Estatística, sem, contudo, concluir os respectivos cursos. Disto talvez decorra o fato de existir em Macedo, por trás da figura eclesiástica, também a de um empreendedor sempre à vontade com números e balanços contábeis. Tal preparo deve, naturalmente, ter contribuído para que viesse a ser reconhecido como negociador habilidoso, também no âmbito eclesiástico. Ricardo Mariano ainda observa tal característica, associando a projeção do movimento iurdiano à figura do seu líder, destacando a controvertida, mas funcional atuação desempenhada:


Parte do sucesso da IURD deve ser creditada a seu controverso líder, bispo Edir Macedo, sobre o qual não há unanimidade. Venerado por fiéis e subalternos, invejado e criticado por adversários religiosos e pastores concorrentes, acusado pela polícia, pela Justiça e pela imprensa de charlatanismo, estelionato, curandeirismo e de enriquecimento às custas da exploração da miséria, ignorância e credulidade alheias. Edir vai, em parte graças ao Diabo que tanto ataca, interpela e humilha, construindo a passos largos seu império.

A projeção financeira da IURD, que acompanhou o ritmo acelerado da multiplicação dos seus templos, também suscitou inúmeras polêmicas. Reportagens do início da década de 90 calculavam a arrecadação financeira dos templos em “cerca de 150 milhões de dólares ao ano”. Na ocasião da aquisição da TV Record, estratégias de captação de recursos ainda mais agressivas vieram à tona, a fim de garantir a compra dessa emissora e de várias outras estações de rádio adquiridas no período. Mário Justino, então pastor da IURD, relata sobre um megaculto promovido pela IURD no estádio de futebol da Fonte Nova, em Salvador – BA, com a presença de Macedo:

O bispo, depois de recolher os envelopes com as ofertas, denominadas de “sacrifício”, e com os pedidos de oração, que seriam levados para o Monte das Oliveiras, em Jerusalém, pediu aos seus seguidores baianos uma oferta especial para comprar uma emissora de rádio em Salvador, assim como seus fiéis cariocas o haviam contemplado com a Rádio Copacabana. – “Será que os cariocas têm mais fé que os baianos?” – referindo- se à multidão. – Não! – a resposta retumbou como um trovão. As ofertas vieram então em forma de dinheiro e jóias. Passamos três dias trancados em umas ala contando os sacos de dinheiro levantados no Fonte Nova. No final, o dinheiro foi depositado na conta da Igreja, no Bradesco, em Salvador. O ouro foi levado para o Rio de Janeiro e transformado em barras.

Um verdadeiro frenesi também foi causado na mídia pelas palavras de Macedo, proferidas numa concentração de fiéis que lotou o Estádio do Maracanã, com capacidade para mais de cem mil pessoas, na cidade do Rio de Janeiro: “Sacudam bem obreiros [as sacolas de oferta], para eles verem que estão vazias e só voltem quando estiverem tão cheias quanto um saco de pipoca”. Também foram impactantes as imagens que mostraram Macedo – em uma gravação em fita de vídeo – orientando seus pastores sobre como mobilizar os fiéis da Igreja a aumentar as contribuições financeiras. Tais imagens mostravam Edir Macedo, numa chácara, jogando futebol juntamente com a maior parte da liderança de sua igreja. Ao final daquela atividade, informalmente, ele passou a orientar os pastores sobre como deveriam agir na arrecadação de ofertas e na ousadia de conduzir a massa de fiéis:

Você tem que chegar e dizer: ó pessoal! Você vai ajudar agora na obra de Deus. Se quiser ajudar, amém. Se você não quiser ajudar, então Deus vai ajudar outra pessoa a ajudar, amém! Ou dá ou desce! Entendeu como é que é? Porque aí o povo vê coragem em você. O povo tem que ter confiança no pastor. Quer ver o pastor brigando com demônio! Se você mostra aquela maneira “chocha”, o povo não vai confiar em você. (...) Tem que ser o super-herói para o povo e dizer: Olha pessoal, vamos fazer isto aqui? É o grande desafio. Eu fiz isso. Eu peguei a Bíblia e disse: Oh! Deus! Ou o Senhor honra a sua palavra (...) e então joguei a Bíblia, que se despedaçou no chão. Fiz isso na igreja e na televisão. Então isso chama a atenção. O povo diz: Esse aí, pô, briga até com Deus! Cuidado, heim! Então tem aqueles que são tradicionais e dizem: Hi! Esse aí é um falso profeta... esse aí, então, não vai ser abençoado. Agora, têm outros que dizem: Puxa, há quanto tempo que eu queria isso, “poxa”, eu estou cansado de ler a Bíblia, de ler tantas palavras e não acontecer nada na minha vida. Então esse vai ficar do nosso lado. É tudo ou nada! E ele põe tudo lá. Quem embarcar está abençoado. Quem não embarcar fica. Então você nunca pode ter vergonha, timidez. Peça, peça, peça. Se, tem alguém que não quer dar, há um montão que vai dar. (...) O povo está cansado de falsa humildade. O padre é tão humilde, e não dá nada, não oferece nada. O padre com aquela maneira (...) e nós vamos lá, é isso mesmo, (sic) e bota pra quebrar, e vira cambalhota, e faz o povo ficar louco (...). Vejam o caso de Moisés, que se apresentou perante o povo com um cajado na mão – aquele mesmo que ele havia usado para abrir o Mar Vermelho e fazer tantos milagres no deserto - e perguntou: “a caso pode sair água dessa pedra?” Ele bateu com o cajado na rocha e então jorrou água e o povo ficou maravilhado. É também isso que vocês precisam dizer ao povo: quem aqui tem um cajado? O cajado é a fé e o “toque na rocha” significa a oferta de dez mil, cinco mil ou dois mil cruzados novos... Desafiem: se você tem o cajado, então use-o agora! Assim, as pessoas vão dar a oferta e o milagre vai acontecer...

Vários jornais e revistas, na ocasião, reproduziram denúncias sobre esse tema, como por exemplo, a revista Isto É (27/01/1996) e a Folha de S. Paulo 02/01/1996), que publicaram reportagens, apontando aspectos empresariais e de exploração financeira praticados pela IURD e apresentando dados de arrecadações, consideradas “exorbitantes”, de vários templos iurdianos.

Edir Macedo juntamente com a IURD também têm sido alvo de diversos processos criminais sob acusações de práticas escusas envolvendo dinheiro, tais como charlatanismo, vilipêndio do culto religioso etc. Exemplo disso se deu no dia 24 de maio de 1992, quando Macedo foi preso em São Paulo, acusado de charlatanismo, curandeirismo e estelionato. Sua prisão teve origem num inquérito aberto, em 1989, por cinco ex-fiéis alegando terem doado dinheiro e bens à igreja em troca de milagres, que não teriam ocorrido. O Ministério Público de São Paulo acatou a denúncia e determinou a prisão. Mas três dias antes de ser detido, Macedo também fora indiciado com base no artigo 15 da Lei do Colarinho Branco, acusado de usar a IURD como instituição financeira clandestina. A acusação principal era de que o bispo teria adquirido grande patrimônio, graças à sua atividade frente à Universal. Segundo o Ministério Público, o patrimônio pessoal de Macedo chegava, em 1992, ao equivalente a 100 milhões de reais. Vale observar que, antes, esse mesmo tribunal, a 21ª Vara Criminal de São Paulo, já havia absolvido Edir Macedo em outros dois processos. Um deles, que tratava de ataques contra cultos afro-brasileiros, acusava quatro pastores da IURD de terem invadido um templo de umbanda em Diadema, município da grande São Paulo, em abril de 1990. Nesse processo, Macedo foi acusado de estimular publicamente os ataques a adeptos daquela religião que, segundo ele, eram “adoradores do demônio”. Num outro inquérito, o bispo era acusado de vender “óleo bento” aos fiéis que participavam dos cultos de sua igreja.

Traduzida como símbolo da existência de perseguição religiosa no país, sua prisão também foi capaz de mobilizar fiéis, pastores e políticos evangélicos. Em primeiro de junho de 1992, preso há oito dias, “cerca de dois mil fiéis da IURD formaram uma corrente humana em volta da Assembléia Legislativa de São Paulo para protestar contra a sua detenção”. Entendendo ser esta uma questão de liberdade religiosa, líderes evangélicos também reagiram imediatamente. Logo vários políticos, evangélicos e não evangélicos, solidarizaram-se com Macedo. Curiosamente, até mesmo alguns dos segmentos religiosos que se sentiam concorrencialmente ameaçados pela atuação da IURD, uniram-se naquele momento, em prol de um interesse comum. Duzentos pastores protestaram na Assembléia Legislativa de São Paulo, argumentando que a prisão fora manipulada por grupos ligados ao setor de comunicações que a propriedade da Rede Record estava ameaçando, e os setores religiosos, que estavam tendo seus membros captados pelo discurso da Universal. Reunidos no interior da Assembléia, os pastores, representando 34 igrejas, e 30 deputados redigiram documento repudiando o ocorrido, o qual apresentava o seguinte teor:

O Brasil vive nos últimos dias momentos de preocupação no que diz respeito aos direitos de expressão religiosa e suas garantias constitucionais. Os 35 milhões de evangélicos em todo o país exigem o cumprimento da Constituição e o fim de todo tipo de discriminação religiosa.

Doze dias depois, Macedo foi solto. Vale ressaltar a habilidade sempre demonstrada por ele em lidar com as “regras do campo”, fato que lhe tem permitido grande capacidade de reverter obstáculos em benefício do grupo. Quando esteve preso, representou bem o papel de vítima, recorrendo comparativamente à imagem de sofrimento de Cristo e dos apóstolos. Dizia-se “orgulhoso de estar preso em nome de Deus”. Atrás das grades, ao conceder entrevistas ou deixar-se fotografar, aparecia lendo ou portando uma Bíblia. Até bem pouco tempo, quem tomava a Folha Universal para uma primeira leitura teria sua atenção despertada para uma imagem: em seu logotipo uma foto do bispo em uma cela de presídio, fazendo a leitura da Bíblia. A imagem no jornal ajuda a preservar e a manter vivo na memória dos fiéis o ato heróico do seu líder, cuja confiança se observa no depoimento de um obreiro da IURD:

O bispo não mente conforme as revistas e a televisão dizem por aí. Ele é um servo de Deus, dedicado, honrado, infelizmente, caiu nas garras da mídia, mas Deus fala através dele e as pessoas que têm fé crêem nisso. Eu a credito em tudo o que o bispo Macedo fala, pois sei que ele é iluminado, inspirado por Deus.

A confiança em seu líder, diante das experiências adversas que enfrentou, é destacada pela Igreja:

Calúnias, injúrias, difamações e ataques gratuitos somam-se a uma lista imensa de adversidades vividas pelo bispo Edir Macedo. Embora nunca se tenha aprovado nenhuma das acusações, ele não se deixou abater por nenhuma delas. Como lema principal de seu ministério, o bispo vive aquilo que prega e, diante das dificuldades, não se mostra nem mesmo cansado. O segredo, segundo ele é o emprego da fé sobrenatural, pois seus sonhos nunca foram baseados em emoções, mas sim na certeza de que com seu trabalho, aliado à ação do poder de Deus, tornariam-se realidade.

Ao se sentir afrontada pelas acusações de charlatanismo e abuso da fé popular, pela mídia e demais segmentos religiosos, a IURD também reagiu. Nos cultos, os jornalistas passaram a ser identificados como enviados do Diabo. Os fiéis receberam expressas orientações para não lerem nem darem crédito às notícias veiculadas na imprensa sobre a Igreja Universal e seus pastores, e de igual forma, para também não concederem entrevistas ou emitirem opinião a jornalistas sobre a Igreja:

Em meados de 1994, convictos ou tomados por paranóia de que havia uma conspiração em andamento para destruir a Universal, líderes da denominação proibiram todo e qualquer membro ou pastor de dar entrevistas ou esclarecimentos a quem quer que solicitasse. Além de jornalistas, pesquisadores passaram a não ser benquistos.

Em um grande evento realizado no estádio do Maracanã, Rio de Janeiro, na ocasião, Edir Macedo, em tom combativo e convocatório, exclamou: “Estamos sendo castigados e perseguidos pela imprensa como cão danado. Eles querem arrancar nossa cabeça. Mas isto só aumenta a nossa fé”.

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É isso!

Fonte:

WANDER DE LARA PROENÇA: “SINDICATO DE MÁGICOS: Uma história cultural da Igreja Universal do Reino de Deus - 1977-2006”. (Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Doutor em História. Orientador: Prof. Dr. Milton Carlos Costa. Assis, 2006.

Nota:

A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.