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segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Importância de João Calvino na Teologia e no Pensamento Cristão - Um Estudo Propedêutico

por Ricardo Quadros Gouvêa


Introdução

Seria necessário um texto muito mais longo para podermos tratar convenientemente do tema proposto e expor, ainda que de forma superficial, todo o conteúdo, influência e abrangência do pensamento de Calvino. Nosso objetivo neste prefácio é, portanto, bem mais humilde: queremos apenas fazer algumas observações capitais e dessa forma estimular os ouvintes a ler e estudar Calvino.


I. Solus Inter Theologos est Calvinus – O Maior dos Teólogos

Dizer que Calvino foi um grande teólogo soa como um eufemismo tímido e impróprio. É bastante provável que Calvino tenha sido o maior e o principal teólogo cristão de todos os tempos.(1) Tivesse toda a obra de Calvino se perdido, e nos restassem apenas as suas cartas, ainda assim ele teria de ser considerado um grande teólogo.(2) Não é exagero afirmar que a história da teologia pode ser dividida em: “pré-calviniana” e “pós-calviniana”. O calvinismo não é, portanto, um movimento teológico e filosófico passageiro. É impossível fazer teologia hoje de modo responsável sem interagir com o legado de Calvino que, além de ser perene, é vasto, e possui implicações que vão muito além do âmbito da teologia.

Calvino foi um exegeta notável, tomando-se o mais importante modelo da aplicação do método histórico-gramatical (i.e., histórico-sintático), criando assim um novo paradigma para toda a hermenêutica bíblica protestante subseqüente. Sua atitude de profundo respeito para com as Escrituras fez de Calvino um comentarista extremamente cuidadoso e confiável, e um crítico esmagador das práticas exegéticas medievais que chafurdavam-se em alegorizações extravagantes e analogias ambíguas. Calvino insistia ainda na unidade e harmonia do ensino bíblico, evitando assim o erro tão comum em nossos dias de interpretar um referido texto alienado de seu contexto canônico-teológico. Para Calvino, o teólogo é antes de tudo um discípulo e um servo das Escrituras. A obediência, dizia ele, é a fonte não apenas de uma fé absolutamente perfeita e completa mas de todo conhecimento correto de Deus.(3)

A força do pensamento de Calvino não está na sua originalidade mas sim na sua capacidade de expressar de modo claro, correto e profundo o verdadeiro sentido das afirmações bíblicas.(4)

O fato de que tal forma de teologizar tenha levado Calvino a colocar no papel um sistema de pensamento que prima pela exaustiva completitude é um testemunho não só do seu talento como sistematizador de idéias mas da natureza sistemática e completa do próprio ensino bíblico. Para Calvino e os seus seguidores, a Bíblia não é uma coleção de pensamentos contradizentes, um depósito variado de pensamentos e experiências religiosas; antes, ela é a revelação divina coerente e compreensível que aponta para a auto-revelação de Deus em Jesus Cristo.(5)

Dentre as muitas obras que João Calvino escreveu, destaca-se a sua obra-prima, um compêndio sistemático da doutrina cristã conhecido pelo nome de As Institutas. Em importância, influência e qualidade, esta obra não possui rival na história da teologia. Ela poderia ser comparada, talvez, à Cidade de Deus de Agostinho, ou à Summa de Tomás de Aquino, possivelmente à Dogmática Eclesiástica de Karl Barth. Entretanto, a todas estas obras a obra-prima de Calvino supera. As Institutas é um livro que nos fornece não apenas o melhor compêndio de teologia cristã jamais escrito mas também a base de uma cosmovisão cristã cujas abrangência e consistência são sem igual na história da fé cristã.

II. Prompte et Sincere in Opere Domini – O Legado de Calvino

Adorado e odiado por muitos, Calvino é uma figura não só controversa mas ainda muito desconhecida e mal-compreendida. Até mesmo nas melhores enciclopédias freqüentemente encontramos noções errôneas sobre a vida e a obra de Calvino, erros estes que se perpetuam e gradualmente transformam-se em mitos persistentes que não desaparecem nem mesmo ante à mais renitente produção acadêmica especializada que se esforça em desfazer os mal-entendidos. Insiste-se em apresentar Calvino como um radical intolerante e desumano que teria condenado hereges à fogueira e com prazer acendido a pira. Mas não se pode entender uma figura histórica a parte do contexto histórico ao qual ela pertence. A pretensa crueldade de Calvino empalidece diante dos horrores cometidos na época por outros grupos, inclusive a Igreja Católica Romana. Diz-se de Calvino que era um homem sem humor, sem noções estéticas, inimigo da alegria e do prazer. Isto está longe de ser verdade. A ética calvinista resulta do delicado equilíbrio entre liberdade evangélica e disciplina eclesiástica, que Calvino considerava ser a terceira marca da verdadeira igreja. Calvino advogava uma moralidade séria, mas não pode ser condenado pelos excessos de seus seguidores, pelo sabatarianismo e iconoclasticismo radicais de alguns puritanos britânicos, pela caça às bruxas da Nova Inglaterra, pelas selvagerias do capitalismo laissez-faire, ou pela política sul-africana do apartheid.

Na política, Calvino teria sido um déspota autoritário, o tirano de Genebra, que advogava a sujeição do estado à igreja. Voltaire motejou de Calvino chamando-o de “o papa dos protestantes,” mas o sóbrio Montesquieu, reconhecendo seu gênio, sugeriu que “os genebrinos deveriam tornar bendito o dia que Calvino nasceu”. A verdade é que sua autoridade em Genebra era mais poimênica que política. Calvino era um homem de sentimentos profundos e de grande misericórdia. Suas cartas o provam; sua perseverança em Genebra o prova; e até mesmo o infame incidente com Serveto, ao contrário do que alguns pensam, é um argumento indelével, não da sua inclemência e tirania, mas antes da sua misericórdia.

Calvino foi um patrono dos direitos humanos; lutou contra os abusos do poder em seu tempo e chegou até mesmo a lidar com o problema político-filosófico da desobediência civil e do direito de revolta. Em seu pensamento ele antecipou os fundamentos da moderna forma de governo republicano, tomou-se um dos pais da democracia moderna, e contribuiu decisivamente para a compreensão cristã do relacionamento entre lei natural e lei positiva. Inteiramente em sintonia com os movimentos políticos e sociais de seu tempo, ele entendeu que o emergir dos estados nacionais europeus, o desenvolvimento do comércio e da classe burguesa, e a vasta expansão do mercado financeiro requeriam, por exemplo, uma revisão da proibição do empréstimo a juros, e percebeu que era necessária a formulação de uma nova ética do trabalho.

O impacto de Calvino no pensamento e na vida européia está bem documentado. O calvinismo tem sido, nos últimos cinco séculos, uma das principais forças moldadoras da cultura e da sociedade ocidental. Para início de conversa, a ciência moderna deve muito a Calvino. Ele encorajou o estudo científico da natureza enfatizando a ordem da natureza e a teleologia presente na mesma, disseminadas em toda a criação. Calvino explicitamente aprovou e incentivou a medicina e a astronomia, ao contrário de outros líderes religiosos de seu tempo. Na verdade, é provável que, não fosse o impulso do calvinismo na ciência inglesa, dificilmente teríamos chagado à física newtoniana tão cedo. A segunda grande contribuição de Calvino para o avanço da ciência foi o seu combate ao literalismo bíblico. Uma das inovações mais importantes da exegética de Calvino é justamente o conceito de acomodação, segundo o qual Deus ajustou sua palavra revelada às capacidades da mente e do coração humanos. Para ilustrar este ponto, Calvino utiliza a analogia do orador: um bom orador conhece as limitações de sua audiência e adapta a sua linguagem a ela. A revelação, ensina Calvino, implica necessariamente num ato de condescendência divina. Isso explica, por exemplo, os inúmeros casos de antropomorfismo no discurso bíblico sobre a pessoa de Deus. Também no caso dos relatos da criação em Gênesis, esta é a postura de Calvino, isto é, que tais relatos representam uma acomodação às habilidades cognitivas dos primeiros ouvintes e leitores .

Quanto à sua teologia, Calvino tem sido muitas vezes acusado injustamente de ter formulado noções doutrinárias que eram na verdade parte do ensino tradicional da igreja cristã por séculos. Insiste-se que inventou a doutrina da dupla predestinação, e até já se sugeriu que ninguém mandou mais pessoas para o inferno que Calvino. O freudiano Oskar Pfister sugeriu ser a doutrina da dupla predestinação um resultados de sua personalidade obsessiva-compulsiva, e outros têm sugerido ser ela fruto de suas irregularidades intestinais. Diz-se que era um fatalista, um determinista que eliminou em seu sistema o conceito de liberdade. Mas sua magistral teologia da oração demonstra que este não é o caso. De fato, não se pode negar que um dos pilares do pensamento de Calvino é o pressuposto da iniciativa e soberania divinas. Todas as formulações teológicas de Calvino emergem deste a priori. Mas diferentemente do que se pensa, não é a doutrina da predestinação que prepondera e governa a soteriologia de Calvino mas sim o grande mistério da união mística com Cristo (uma “henose” cristã) da qual, aliás, o Novo Testamento fala com metáforas de profunda intimidade, e que tem sido apontado como um dos temas centrais em Calvino, talvez até a viga mestra de todo o seu edifício teológico.

Diz-se ainda que Calvino foi um grande pessimista, e que formulou uma antropologia negativista, que acabou por, sem querer, esvaziar o conceito de fé de qualquer sentido. Na verdade, o ensino de Calvino é de um otimismo gritante e messianista, e sua antropologia filosófica, ao contrário do que se pensa, dá grande dignidade à condição humana, sugerindo inclusive que o verdadeiro processo de auto-conhecimento leva o indivíduo paralelamente ao conhecimento de Deus. (6)

Já os católicos e catolicizantes insistem que Calvino teria destituído o culto cristão de toda sua beleza ritualista, eliminando inclusive os sacramentos, tomando ainda a Ceia do Senhor em um memorial secundário e vazio de significado.(7) Tais afirmações falseiam descaradamente as convicções do reformador de Genebra.(8) Por outro lado, parcas são ainda as referências ao entusiasmo e as contribuições de Calvino para a educação, a sua revolucionária ética do trabalho, o seu apoio ao ecumenismo protestante, o seu humanismo cristão crítico e inteligente, a sua complexa filosofia germinal ainda tão pouco explorada.

Qual a razão para tantos mitos e incompreensões? E por que tantos aspectos ou facetas importantes da obra de Calvino ainda estão por ser abordadas? Em parte é mera ignorância, e em parte é fruto do intuito maquiavélico de silenciar a voz de um fantasma incômodo, de abrandar a força do pensamento de um revolucionário que um dia sacudiu um continente inteiro e que, se lhe for permitido, pode sacudir o mundo novamente.

III. Dei Notitiam et Nostri Res Esse Coniunctas – A Cosmovisão Calvinista

Qual é, então, a principal diferença entre o calvinismo e os outros movimentos cristãos protestantes e não-protestantes? É a maneira peculiar em que, no calvinismo, a fé cristã se relaciona com a cultura humana, a vida e o mundo que nos cerca. O calvinismo não é somente um sistema teológico completo em que as doutrinas estão tão profundamente interconectadas que ou se rejeitam todas ou se aceitam todas, mas também é uma completa biocosmovisão que determina para o calvinista o ponto de partida para toda sua reflexão e sua vida prática, que determina enfim as diretrizes pressuposicionais de qualquer área da vida e do pensamento humanos.(9) Calvino não visava em sua obra meramente uma reforma doutrinária e uma reforma da vida da igreja mas também a transformação de toda a cultura humana em nome de Jesus e para a glória de Deus. No calvinismo não há, portanto, dicotomismo entre cristianismo e cultura. Devido à compreensão calvinista da criação do cosmos, da universalidade da revelação de Deus na criação, e da organização cosmonômica da criação, o pensador calvinista não pode pensar em termos de uma distinção não-qualificada entre as esferas humana e divina de atuação. A soberania e iniciativa divinas englobam inclusive o curso da história e da cultura humanas que também se tomam veículos da revelação de Deus.

Entre os fundamentos da cosmovisão calvinista destacam-se o pensamento pressuposicional e antitético ante o pensamento apóstata, a heteronomia revelacional associada a pressupostos escriturísticos, a antropologia ptomática que inclui a afirmação da infinita diferença qualitativa entre o Criador e suas criaturas, dos efeitos noéticos do pecado e do sensus divinitatis, a escatologia palingenética que determina os rumos do pensamento sócio-político reformado, isso para citar apenas alguns dos principais fundamentos filosóficos que estão presentes em estado germinal ou latente na obra de Calvino.(10)

IV. Theologia Reformata ac Semper Reformanda - A Calviniana Hoje

Hoje estamos vivendo um tempo áureo dos estudos calvinianos. Há centros especializados no estudo do reformador espalhados por todo o mundo. Na década de 30 surgiu na Holanda a Sociedade por uma Filosofia Calvinista (Vereeniging voor Calvinistische Wijsbegeerte), uma iniciativa do filósofo holandês Herman Dooyeweerd, que iniciou a publicação do periódico Philosophia Reformata. (11) Esta sociedade possui hoje quase mil membros em todo o mundo e continua fazendo um trabalho sólido. Um dos mais renomados filósofos americanos da atualidade, Alvin Plantinga (Univ. de Notre Dame), é membro e já foi o presidente desta sociedade. O Congresso Internacional Permanente de Pesquisas Calvinianas não só organiza de tempo em tempo importantes simpósios como também patrocina congressos, colóquios e conferências regionais e publicações importantes como, por exemplo, a Ioannis Calvini Opera Omnia, e uma bibliografia internacional de estudos calvinianos. Grandes nomes têm aparecido e se destacado no meio acadêmico internacional como competentes especialistas em Calvino. Entre eles, James B. Torrance (Escócia), Alister E. McGrath (Inglaterra), Wilhelm H.Neuser (Alemanha), Richard Gamble (RUA), W. Stanford Reid (Canadá), Heiko A. Oberman (Alemanha e E.U.A.), Cornelis Augustijn (Holanda), Erik A.de Boer (África do Sul), Olivier Fatio (Suiça), Nobuo Watanabe (Japão), Alexandre Ganoczy (França), entre outros.

É de valia, creio eu, citar alguns dos temas que têm sido debatidos pelas principais autoridades em estudos calvinianos nos últimos vinte anos. Dividirei aqui os mesmos em três grupos: (a) questões biográficas e históricas, (b) questões teológicas, e (c) questões filosóficas.

(a) questões biográficas e históricas — a atual nova busca do Calvino histórico; a natureza da conversão de Calvino: súbita ou gradativa?; o relacionamento de Calvino com diversos contemporâneos seus, como Farel, Beza, Budé, D’Etaples, Lutero, Bucer, Viret, Castellío, etc.; a natureza do Consensus Tigurinus ou consenso de Zurich; etc.

(b)questões teológicas — era Calvino um teólogo pactuísta (i.e., federalista)? Qual é a relação entre o pensamento de Calvino e o da chamada escolástica protestante do século XVII?; a concepção calviniana do matrimônio; a teologia da oração de Calvino; as nuances teológicas dos tratados menores, dos catecismos e das cartas de Calvino; a relação entre o pensamento de Calvino e Agostinho; a origem histórica da teologia de Calvino, isto é, que movimentos mais influenciaram Calvino (a teologia de Scotus e Ockham, a devotio moderna medieval, o pensamento de alguns pré-reformadores; o pensamento de Lutero; o humanismo de Budé, Campanella, Erasmo, e outros, o platonismo renascentista de Marcilio Ficino, a teologia neoagostiniana de Bernardo de Clairvaux, Bonaventura ou Gregório de Rimini, etc.); as influências sobre Calvino nas áreas da exegese bíblica e da prédica; e assim por diante.

(c)questões filosóficas — a natureza dos princípios essenciais do pensamento calviniano: são eles teológicos ou filosóficos, e quais eram eles?; era Calvino um humanista?; a influência de Calvino no surgimento das democracias modernas e da economia capitalista; a filosofia da linguagem de Calvino, a filosofia da história de Calvino, a epistemologia de Calvino, estes são alguns dos temas que, entre outros, têm sido abordados com freqüência pelos chamados Calvin scholars, os “experts” em Caivino.

V. Conclusão

Resta-nos dizer apenas que há motivos de sobra para estudar Calvino, e salientar a necessidade premente de fazê-lo, pois o estudo aprofundado do pensamento de Calvino pode ser de grande valia em qualquer área do conhecimento humano, e as repercussões destas interdisciplinaridades ainda pouquíssimo exploradas podem causar uma genuína revolução nas ciências divinas e humanas que a Editora Novo Século tem patronado com interesse e seriedade.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Os Cinco Solas da Reforma

Sola Scriptura, Sola Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria

por

Declaração de Cambridge





SOLA SCRIPTURA: A Erosão da Autoridade

Só a Escritura é a regra inerrante da vida da igreja, mas a igreja evangélica atual fez separação entre a Escritura e sua função oficial. Na prática, a igreja é guiada, por vezes demais, pela cultura. Técnicas terapêuticas, estratégias de marketing, e o ritmo do mundo de entretenimento muitas vezes tem mais voz naquilo que a igreja quer, em como funciona, e no que oferece, do que a Palavra de Deus. Os pastores negligenciam a supervisão do culto, que lhes compete, inclusive o conteúdo doutrinário da música. À medida que a autoridade bíblica foi abandonada na prática, que suas verdades se enfraqueceram na consciência cristã, e que suas doutrinas perderam sua proeminência, a igreja foi cada vez mais esvaziada de sua integridade, autoridade moral e discernimento.

Em lugar de adaptar a fé cristã para satisfazer as necessidades sentidas dos consumidores, devemos proclamar a Lei como medida única da justiça verdadeira, e o evangelho como a única proclamação da verdade salvadora. A verdade bíblica é indispensável para a compreensão, o desvelo e a disciplina da igreja.

A Escritura deve nos levar além de nossas necessidades percebidas para nossas necessidades reais, e libertar-nos do hábito de nos enxergar por meio das imagens sedutoras, clichês, promessas e prioridades da cultura massificada. É só à luz da verdade de Deus que nós nos entendemos corretamente e abrimos os olhos para a provisão de Deus para a nossa sociedade. A Bíblia, portanto, precisa ser ensinada e pregada na igreja. Os sermões precisam ser exposições da Bíblia e de seus ensino, não a expressão de opinião ou de idéias da época. Não devemos aceitar menos do que aquilo que Deus nos tem dado.

A obra do Espírito Santo na experiência pessoal não pode ser desvinculada da Escritura. O Espírito não fala em formas que independem da Escritura. À parte da Escritura nunca teríamos conhecido a graça de Deus em Cristo. A Palavra bíblica, e não a experiência espiritual, é o teste da verdade.

Tese 1: Sola Scriptura

Reafirmamos a Escritura inerrante como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado.

Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação.

SOLO CHRISTUS: A Erosão da Fé Centrada em Cristo

À medida que a fé evangélica se secularizou, seus interesses se confundiram com os da cultura. O resultado é uma perda de valores absolutos, um individualismo permissivo, a substituição da santidade pela integridade, do arrependimento pela recuperação, da verdade pela intuição, da fé pelo sentimento, da providência pelo acaso e da esperança duradoura pela gratificação imediata. Cristo e sua cruz se deslocaram do centro de nossa visão.

Tese 2: Solus Christus

Reafirmamos que nossa salvação é realizada unicamente pela obra mediatória do Cristo histórico. Sua vida sem pecado e sua expiação por si só são suficientes para nossa justificação e reconciliação com o Pai.

Negamos que o evangelho esteja sendo pregado se a obra substitutiva de Cristo não estiver sendo declarada e a fé em Cristo e sua obra não estiver sendo invocada.

SOLA GRATIA: A Erosão do Evangelho

A Confiança desmerecida na capacidade humana é um produto da natureza humana decaída. Esta falsa confiança enche hoje o mundo evangélico – desde o evangelho da auto-estima até o evangelho da saúde e da prosperidade, desde aqueles que já transformaram o evangelho num produto vendável e os pecadores em consumidores e aqueles que tratam a fé cristã como verdadeira simplesmente porque funciona. Isso faz calar a doutrina da justificação, a despeito dos compromissos oficiais de nossas igrejas.

A graça de Deus em Cristo não só é necessária como é a única causa eficaz da salvação. Confessamos que os seres humanos nascem espiritualmente mortos e nem mesmo são capazes de cooperar com a graça regeneradora.

Tese 3: Sola Gratia

Reafirmamos que na salvação somos resgatados da ira de Deus unicamente pela sua graça. A obra sobrenatural do Espírito Santo é que nos leva a Cristo, soltando-nos de nossa servidão ao pecado e erguendo-nos da morte espiritual à vida espiritual.

Negamos que a salvação seja em qualquer sentido obra humana. Os métodos, técnicas ou estratégias humanas por si só não podem realizar essa transformação. A fé não é produzida pela nossa natureza não-regenerada.

SOLA FIDE: A Erosão do Artigo Primordial

A justificação é somente pela graça, somente por intermédio da fé, somente por causa de Cristo. Este é o artigo pelo qual a igreja se sustenta ou cai. É um artigo muitas vezes ignorado, distorcido, ou por vezes até negado por líderes, estudiosos e pastores que professam ser evangélicos. Embora a natureza humana decaída sempre tenha recuado de professar sua necessidade da justiça imputada de Cristo, a modernidade alimenta as chamas desse descontentamento com o Evangelho bíblico. Já permitimos que esse descontentamento dite a natureza de nosso ministério e o conteúdo de nossa pregação.

Muitas pessoas ligadas ao movimento do crescimento da igreja acreditam que um entendimento sociológico daqueles que vêm assistir aos cultos é tão importante para o êxito do evangelho como o é a verdade bíblica proclamada. Como resultado, as convicções teológicas freqüentemente desaparecem, divorciadas do trabalho do ministério. A orientação publicitária de marketing em muitas igrejas leva isso mais adiante, apegando a distinção entre a Palavra bíblica e o mundo, roubando da cruz de Cristo a sua ofensa e reduzindo a fé cristã aos princípios e métodos que oferecem sucesso às empresas seculares.

Embora possam crer na teologia da cruz, esses movimentos a verdade estão esvaziando-a de seu conteúdo. Não existe evangelho a não ser o da substituição de Cristo em nosso lugar, pela qual Deus lhe imputou o nosso pecado e nos imputou a sua justiça. Por ele Ter levado sobre si a punição de nossa culpa, nós agora andamos na sua graça como aqueles que são para sempre perdoados, aceitos e adotados como filhos de Deus. Não há base para nossa aceitação diante de Deus a não ser na obra salvífica de Cristo; a base não é nosso patriotismo, devoção à igreja, ou probidade moral. O evangelho declara o que Deus fez por nós em Cristo. Não é sobre o que nós podemos fazer para alcançar Deus.

Tese 4: Sola Fide

Reafirmamos que a justificação é somente pela graça somente por intermédio da fé somente por causa de Cristo. Na justificação a retidão de Cristo nos é imputada como o único meio possível de satisfazer a perfeita justiça de Deus.

Negamos que a justificação se baseie em qualquer mérito que em nós possa ser achado, ou com base numa infusão da justiça de Cristo em nós; ou que uma instituição que reivindique ser igreja mas negue ou condene sola fide possa ser reconhecida como igreja legítima.

SOLI DEO GLORIA: A Erosão do Culto Centrado em Deus

Onde quer que, na igreja, se tenha perdido a autoridade da Bíblia, onde Cristo tenha sido colocado de lado, o evangelho tenha sido distorcido ou a fé pervertida, sempre foi por uma mesma razão. Nossos interesses substituíram os de Deus e nós estamos fazendo o trabalho dele a nosso modo. A perda da centralidade de Deus na vida da igreja de hoje é comum e lamentável. É essa perda que nos permite transformar o culto em entretenimento, a pregação do evangelho em marketing, o crer em técnica, o ser bom em sentir-nos bem e a fidelidade em ser bem-sucedido. Como resultado, Deus, Cristo e a Bíblia vêm significando muito pouco para nós e têm um peso irrelevante sobre nós.

Deus não existe para satisfazer as ambições humanas, os desejos, os apetites de consumo, ou nossos interesses espirituais particulares. Precisamos nos focalizar em Deus em nossa adoração, e não em satisfazer nossas próprias necessidades. Deus é soberano no culto, não nós. Nossa preocupação precisa estar no reino de Deus, não em nossos próprios impérios, popularidade ou êxito.

Tese 5: Soli Deo Gloria

Reafirmamos que, como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de Deus e devemos glorificá-lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de Deus, sob a autoridade de Deus, e para sua glória somente.

Negamos que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundido com entretenimento, se negligenciarmos ou a Lei ou o Evangelho em nossa pregação, ou se permitirmos que o afeiçoamento próprio, a auto-estima e a auto-realização se tornem opções alternativas ao evangelho.

Fonte: Declaração de Cambridge

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A Questão do Desarmamento no Brasil


O desarmamento serve para desarmar o cidadão e armar os bandidos.
Por Victor Targino de Araujo
Trazer à tona, novamente, esta questão, demonstra, no mínimo, a leviandade e hipocrisia com que o legislador e as autoridades tratam a segurança pública no Brasil, sobretudo quanto à presença de armas de fogo na sociedade.

Proibir, quando é possível uma regulamentação e controle, ainda que rígidos, por parte do Estado, é um retrocesso. O acesso lícito às armas pela população civil, no Brasil, é alvo de uma das legislações mais duras, cujo controle é feito minuciosamente pela autoridade pública. Porém, em contrapartida, existem armas ilícitas no país aos montes - inclusive algumas que nem o exército possui - reforçando os arsenais de bandidos e organizações criminosas pelo território nacional.

Destarte, somente o cidadão de bem, se preocuparia em atender a todos os requisitos legais para obter uma arma, efetuando seu devido registro, pagando impostos e efetuando testes psicológicos. Que dirá obter porte de arma, algo ainda mais difícil e restrito. Portanto, não resta dúvida, que para roubar, matar, extorquir mediante seqüestro etc., os criminosos vão recorrer ao mercado clandestino, livre e de muito mais fácil acesso que o pequeno e limitado, mercado lícito. Ora, por que o legislador, ao invés de tentar coibir o tráfico e a criminalidade, tenta reprimir o cidadão de bem, retirando-lhe o direito de adquirir uma arma em uma loja, seja qual for o motivo (coleção, desporto, defesa etc.), e equiparando-o a um meliante da pior espécie, que busca, na ilicitude, desafiar o patrimônio, a liberdade e a vida das pessoas?

Desarmar populações civis sempre foi atitude corriqueira na cartilha de governos desumanos e autoritários. Hitler, Stalin, Mao-Tsé-Tung, Pol Pot, compõem o rol de déspotas que se utilizaram desta prática, como forma de opressão e dominação sócio-política sobre seus subjugados, isto é, o povo. Por que o Brasil, um Estado Social e Democrático de Direito, deveria associar sua imagem a governos conduzidos por pessoas do mais baixo caráter, cuja restrição de direitos civis e cujo desrespeito aos direitos humanos sempre foram elementos norteadores de suas condutas?

Notório que a esmagadora maioria dos crimes que ocorrem no Brasil, são cometidos mediante uso de arma de fogo obtida no “mercado negro”, seja ela proveniente do exterior ou não. Isto reforça a ideia de que, o legislador, ao retomar a proposta de desarmamento, visa coibir aquele cidadão que, dentro da lei, quer comprar sua arma de fogo. Não resta dúvida de que o “matador do Realengo” não adquiriu sua arma em qualquer loja, sequer possuía porte e tampouco participou de qualquer teste psicológico – e se o tivesse feito, certamente não seria autorizado a tê-la –, tornando a sociedade, mais uma vez, refém do tráfico de armas e da hipocrisia do legislador, que propõe cercear um direito concedido a um cidadão de bem, mas por outro lado, não traz qualquer medida ou solução para as armas ilícitas presentes aos montes na Federação, objetos da grande maioria dos crimes cometidos.

Mesmo a menor parcela dos crimes no Brasil, aqueles mediante armas de fogo lícitas, são em sua maioria, praticados por autoridades, sejam elas policiais, promotores, juízes etc., que possuem e continuarão possuindo porte de arma, qualquer que seja o resultado de um futuro plebiscito ou referendo. Tal medida proposta pelo Senado atingiria, somente, a parte mínima da mínima dos ilícitos penais cometidos na República, dando a entender que o legislador prefere dar atenção aos menores problemas possíveis e deixar com que os grandes se resolvam sozinhos.

Isto leva a crer que, enquanto, na mídia, trata-se insistentemente de questões já resolvidas por referendo, como esta, fatos muito mais importantes, como o tráfico e comércio de armas ilícitas, ou a falta de aparelhamento das polícias e exército para um combate mais rígido à criminalidade, são deixadas ao léu pelas autoridades públicas. Mesmo as formas de participação popular direta, pilares norteadores da democracia, como plebiscitos, referendos e consulta pública, são deixadas de lado pelo Parlamento, ignorando-se o interesse do povo em decidir o melhor para o país. Desde a promulgação da atual Carta Magna, em 1988, só houve um plebiscito (forma de governo) e um referendo (desarmamento!), atingindo-se a incrível média de um a cada 11 anos. Agora, insiste o legislador em discutir, por plebiscito ou referendo, o que fora discutido em outro referendo.

O curioso é que, não obstante a escassíssima utilização das formas de consulta popular, o legislador pretende empregá-las duas vezes para o mesmo assunto, fazendo parecer com que o povo brasileiro pudesse ter decidido equivocadamente na primeira vez. Portanto, não só a extinção de um direito, mas reacender a ideia de desarmamento hoje, no Brasil, ao promover outro referendo ou plebiscito, é, conforme bem colocado nas palavras do Presidente da OAB, Dr. Ophir Cavalcante, “um desrespeito à vontade popular manifestada em referendo realizado em 2005”. Não há dúvida que, por ora, a referida questão está superada, e que esta atitude de “bater na tecla”, por parte do Senado, não deixa de ser uma inegável afronta à soberania popular, que encerrou, há apenas cinco anos, o presente debate.

Fonte: Desarmamento no Brasil

quinta-feira, 7 de abril de 2011

“Ele sabia o que estava fazendo”

Para o psiquiatra forense Talvane Marins de Moraes, ex-diretor da Polícia Técnica do Rio de Janeiro, a hipótese mais provável é de que o assassino em massa de Realengo fosse esquizofrênico; um delírio místico pode tê-lo motivado a praticar o massacre.






A tragédia perpetrada em Realengo, no Rio de Janeiro, por Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, lembra ao psiquiatra forense Talvane Marins de Moraes, ex-diretor da Polícia Técnica fluminense, outro crime que chocou o País: o caso do “atirador do shopping”. O criminoso em questão, o ex-estudante de Medicina Mateus da Costa Meira”, matou três pessoas ao abrir fogo com uma submetralhadora contra a plateia que, em 3 de novembro de 1999, assistia a um filme em cinema do Morumbi Shopping, em São Paulo.

“O 'atirador do shopping', ficou comprovado, é esquizofrênico. Ainda é preciso realizar a a 'autópsia psicológica' do atirador de Realengo – ou seja, buscar informações, e conversar com parentes, amigos e colegas, para tentar levantar identificar as causas e motivações que o levaram a praticar o crime –, mas eu diria, numa primeira análise, que o rapaz que atacou a escola nesta manhã também devia sofrer de esquizofrenia”, afirma Moraes.

Esquizofrênicos vivem em um mundo à parte. Nos casos mais graves, os portadores do distúrbio se sentem permanentemente perseguidos e ameaçados. Há alguns anos, lembra o psiquiatra, um esquizofrênico foi ao consultório de seu médico, no Rio, e o matou a tiros, descarregando todas as balas de um revólver. “Ele disse à Polícia que não teve opção, pois o médico havia implantado um chip em seu cérebro e monitorava seus movimentos. O detalhe é que ele realmente acreditava naquela história”, diz Moraes.

Assim como no caso do chip, o massacre de Realengo foi premeditado. Para o psiquiatra forense, Wellington não estava sob efeito de drogas ou era portador de grave distúrbio mental que comprometesse seu raciocínio. Tanto é que, segundo relatos de testemunhas, teria dito ao segurança da escola que iria dar uma palestra no local e, depois, solicitou seu histórico escolar na unidade a uma funcionária. “Se estivesse drogado ou fora de si, o rapaz já teria começado a matança pelo segurança. Ele executava um plano, sabia o que estava fazendo, e estava munido de uma ira muito forte”, assinala o especialista.

Por que o atirador deu preferência às meninas, matando dez alunas e um garoto? Uma hipótese, segundo Moraes, é de um delírio místico, até porque Wellington teria abraçado o islamismo. Com base em informações sobre atos de violência contra mulheres no mundo muçulmano, ele poderia ter definido o gênero prioritário de seus jovens alvos. “Vítimas de delírios místicos acreditam que falam com Deus, ouvem vozes e convocações 'divinas' e, por vezes, acreditam que são, elas próprias, divindades”, observa Moraes.

O psiquiatra forense não tem a menor dúvida de que o assassino em massa do Realengo foi influenciado, também, por notícias sobre outros massacres, como os de Columbine e Virginia Tech, nos Estados Unidos. Esse fenômeno, aliás, é comprovado cientificamente, como destaca Moares. “Nos anos 1970, um estudo acadêmico constatou uma “febre” de suicídios na Ponte Rio-Niterói após a divulgação do primeiro caso, de um homem que pulou do vão central”, conta ele. “Como o mundo 'diminuiu', com o notável avanço das telecomunicações, esse fator de risco se torna mais preocupante.”

Fonte: Brasil 247