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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Breves apontamentos sobre compatibilismo

"Alguns com mais arrogância que o próprio Lúcifer (…) não temem afirmar que, mesmo em um ato comum, a vontade deles vai em primeiro lugar, como uma dama independente, e que a tua vontade vem atrás dela, seguindo-a, como obsequiosa criada (…) A vontade de Deus é universalmente eficaz e invencível, é causa obrigatória. Não pode ser impedida, muitos menos derrotada e esvaziada por quaisquer meios, sejam quais forem." Gordon Clark

Quando se fala em livre arbítrio, como sendo uma liberdade autônoma ou independente, em um debate sobre a soberania de Deus, estamos falando de algo incompatível com a fé nas Escrituras. Se Deus é soberano, não importa quantas sejam as causas secundárias ou motivos que assinalamos para nossas escolhas, tanto as escolhas como todas as suas possíveis causas devem em última instância submeterem-se ao decreto divino.

O homem, mesmo após a queda, escolhe aquilo que está de acordo com a sua natureza, movido pelos seus desejos, contudo não devemos com isso tentar amenizar a verdade de que tudo, inclusive nossos desejos, são soberanamente estabelecidos e governados por Deus. Do ponto de vista da soberania, falar em compatibilizar as causas primárias e as causas secundárias, seria admitir, que em última instância elas não têm uma origem comum.

Deus é soberano sobre tudo e todos e essa soberania, conforme revelado nas Escrituras, diz respeito a todas as coisas, inclusive a vontade humana, que não pode em nenhum sentido ou nível ser livre de Deus. Compatibilizar sugere que a idéia de soberania é contrária ou paradoxal à responsabilidade humana, não creio que exista nada a ser compatibilizado, pelo padrão de Westminster a responsabilidade está determinada e disposta pela soberania. A Confissão de Fé de Westminster não nega a volição humana, e ainda ressalta a liberdade própria da natureza humana antes da queda, que não possuía nenhuma determinação natural para o mal ou para o bem, mas não a declara livre de Deus, não dá ao homem em qualquer de seus estados a autonomia para escolher à parte dos desígnios divinos, pelo contrário, à subjuga ao autor último dela, Deus.

Mesmo havendo um Deus soberano, o homem continua sendo um ser responsável pelas suas ações e como dizia Spurgeon não precisamos reconciliar a soberania de Deus com a responsabilidade humana, pois as mesmas não são inimigas. Caso houvesse algum tipo de liberdade metafísica entre Deus e o homem, então teríamos algo a ser compatibilizado, o que não é o caso.

O caso de José do Egito que ilustra a soberania de Deus usando as más ações de seus irmãos para cumprir um propósito secreto e maior, não ensina liberdades cooperativas dentro do debate sobre soberania, o texto não fala nada sobre liberdade da vontade humana em relação à soberania de Deus. Em última instância há uma única causa, e uma única origem, para tudo que há, a saber, a soberania nos decretos eternos e o santo propósito de Deus. A criatura não é co-criadora de realidades, que porventura precisem ser acomodadas dentro de um plano maior. Deus é realmente Deus e governa todas as coisas em seus mínimos detalhes. Isso não pode ser confundido com compatibilizar forças ou causas opostas, crer em um Deus todo poderoso é reconhecer uma verdadeira soberania que não pode ser menos que absoluta.

Assim sendo, não há realmente o que compatibilizar, já que não tratamos de forças distintas e opostas que misteriosamente se convergem. As causas secundárias não podem ser equiparadas à ação determinante de Deus. No calvinismo, tudo que há ou que ainda virá a existir, pode ser dito como sendo o resultado de um orquestramento de Deus, tudo é regido e mantido por ele, inclusive as causas secundárias. Quando nos perguntamos qual a causa de alguma coisa dentro da realidade administrada pelo Deus revelado na Bíblia, a resposta tem que ser em primeiro lugar que Deus é a causa. Tudo que possa ser chamado de outra causa para o mesmo acontecimento, deve ser entendido como secundário e logo causado em última instância por Deus, isso é uma verdade exemplificada no próprio caso de José do Egito.

O próprio termo compatibilizar implica que temos forças e causas distintas, pressupõe que haja alguma autonomia na vontade humana em relação ao plano de Deus, as vontades são equiparadas, para então serem de alguma forma compatibilizadas, dentro de um plano maior onde nem todos os acontecimentos são taxativamente estabelecidos previamente mas somente o seu final, garantindo ao homem certa liberdade de agir autonomamente, onde as causas secundárias e primárias, originadas respectivamente da liberdade humana e da soberania de Deus acabam cumprindo a vontade superior de Deus, contudo biblicamente falando, é necessário que essa vontade e agir do ser humano, esteja totalmente dentro do controle da vontade de Deus. Admitir esse controle encerra de vez a possibilidade de qualquer livre-arbítrio que signifique liberdade metafísica real em relação a Deus.

Porque dizemos que o homem é livre para escolher fazer o que quer? Certamente isso não deve significar jamais que o homem pode escolher à parte dos propósitos eternos ou livre dos desígnios divinos. O homem escolherá fazer aquilo que é de acordo com sua própria natureza, resultado de sua volição, mas ninguém pode afirmar que essa volição humana é livre de Deus. Deus não apenas previu o mau que os irmãos de José iriam fazer, Deus decretou todos os acontecimentos e escolhas que levaram José ao Egito para assim cumprir seu bom propósito. A causa imediata da ação dos irmãos de José foi sem dúvida os seus maus desígnios, e regendo todos esses acontecimentos, a causa última de tudo o que aconteceu, foi o decreto de Deus. Isso não precisa ser compatibilizado, porque essas não são causas interdependentes. As causas secundárias, nesse caso as escolhas humanas, são também partes do plano a que se propõe a causa última, ou seja, o propósito de Deus. Por isso afirmamos que há uma só causa última para todas as coisas, inclusive para as escolhas humanas.

Portanto, caso essa expressão "escolhas voluntárias" usada comumente para defender um tipo de liberdade compatibilizada signifique que elas sejam independentes das escolhas de Deus, temos ai apenas uma caso de arminianismo disfarçado, e nesse caso entendemos a necessidade lógica de se falar em compatibilização. Visto que, como calvinistas não aceitamos o livre-arbítrio, o termo compatibilizar é no mínimo inconsistente a um sistema teológico que proclama Soberania absoluta de Deus sobre sua criação, e as idéias são auto-excludentes.

Deus é sempre Deus e o homem nunca foi e nunca será livre de Deus.
Embora continue afirmando a volição humana e que a liberdade das escolhas são provenientes dos ensejos da própria criatura humana, o que faz do ser humano um agente livre e um ser pessoal, reitero que o homem não tem autonomia alguma em relação a Deus.

Na queda o homem perdeu uma parte de seu poder e de sua liberdade, esse poder e essa liberdade eram maiores antes da queda, mas mesmo assim, isso não fazia do homem um ser autônomo, logo esse poder e essa liberdade nunca disseram respeito a Deus. Mesmo depois da queda o homem continua a ser um ser pessoal, ele faz escolhas, essas escolhas são de acordo com sua natureza pecaminosa decaída.

Pois é do interior, do coração dos homens, que procedem os maus pensamentos, as prostituições, os furtos, os homicídios, os adultérios. (Marcos 7:21)

A determinação divina do pecado e do mal acontece de forma que Deus não pode ser tido como o autor do pecado, ele é onibenevolente e aborrece o mal, somente as causas secundárias podem pecar, e assim o fazem, o modo como isso é operado na economia divina, faz da criatura e das ações secundárias as "culpadas" pelo pecado, o calvinismo não atribui à Deus, que a tudo governa, a resposabilidade pelo mal. Também é verdade que se a vontade soberana de Deus rege a vontade humana, não há livre-arbítrio algum em relação a Deus e nada a ser compatibilizado, caso contrário, sugere-se duas respostas absolutas e últimas, para a mesma pergunta, ou seja, se querem compatibilizar vontades é porque insistem que essas vontades são interdependentes.

No caso de José, usado pelos que defendem a liberdade compatibilista, enfatizam que quem criou a realidade de sua ida para o Egito, foram de fato os seus irmãos e Deus aparece passivamente, apenas como um administrador dos acontecimentos e seus maus desígnios, convergindo-os para o bem.
Mas não é assim que as coisas são apresentadas no calvinismo bíblico. Neste caso em específico, acreditamos e defendemos que Deus quis que José fosse para o Egito, e certamente ele não dependia das escolhas humanas para cumprir seu propósito. A resposta última de um calvinista para tudo que há, jamais será dupla, a soberania é absoluta, logo a reposta é uma só. Deus quis, o resto é conseqüência disto.

Se a liberdade humana não diz respeito à soberania, logo não é lógico defender que elas precisam ser compatibilizadas como se estivessem ao mesmo nível. Uma depende totalmente da outra, ao nível da soberania e sob a sua perspectiva nem existe essa tal liberdade humana. Elas não estão equiparadas metafisicamente, para que necessitem ser compatibilizadas.

Se perguntamos por que somos salvos a resposta pode parecer ser dupla:

- Porque Deus nos elegeu para a salvação.
- Porque cremos em Cristo.

Contudo na cosmovisão realmente calvinista, uma das ações precisa ser causada pela outra, elas não são equivalentes como causas. É verdade que para sermos salvos, nós cremos em Cristo, mas não independente da eleição e sim por causa dela. Então podemos coerentemente dar toda a glória a Deus, ao afirmar que fomos salvos porque Deus quis e não porque nós escolhemos crer, fomos salvos porque fomos escolhidos para crer.

Livre-arbítrio, como sendo uma autonomia de Deus, é um mito muito popular no meio cristão, mas ainda é um mito e a rejeição ao calvinismo levado a suas implicações últimas, resulta na rejeição do Deus bíblico. O arminianismo pode se manifestar como um simples semi-pelagianismo, mas pode também desembocar no pelagianismo que é uma heresia no que é essencial ao cristianismo. Se vamos falar de alguma liberdade humana que não seja em relação à soberania, e assumamos que caso essa tal liberdade defendida não esteja na mesma dimensão ou ao mesmo nível da liberdade de Deus, falar em compatibilizá-las é inapropriado. Não nego a volição humana e sei que contingências secundárias também são causas, mas a ação humana dentro de uma cosmovisão determinista será sempre causada, e isso em uma linguagem popular quer dizer que o homem não tem liberdade alguma para criar realidades que fogem ao propósito divino.

A meu ver, esse tal compatibilismo associado ao calvinismo, não passa de um jogo de palavras para tentar amenizar a dificuldade humana de aceitar Deus como soberano e absoluto, para tentar quebrar a resistência a um ensino de difícil compreensão, a saber, como se relaciona a responsabilidade humana em seus atos pecaminosos com a soberania absoluta e determinista de Deus. Se for assim, então só posso concluir que esse ensino peca da mesma forma que o puro arminianismo, já que tenta resolver o problema, supondo que a responsabilidade moral pressupõe um tipo de liberdade humana que seria uma contingência para as realidades tanto quanto a determinação divina, colocada assim, a pé de igualdade com a liberdade soberana e criadora de Deus, propõe-se uma compatibilização.

No campo da filosofia o termo compatibilismo é conhecido por defender uma compatibilidade entre determinismo e libertarianismo, mantendo que um não exclui o outro. Reduzir o calvinismo a um determinismo compatibilista, além de causar grande confusão terminológica, também trás sérias e estranhas inconsistências lógicas indissolúveis para dentro da cosmovisão, um desvio desses nas mãos dos incautos, rapidamente destrói todo o fundamento do calvinismo, tornando-o mais incoerente e antibíblico que o próprio arminianismo. Caso mantenha-se que essa tal liberdade não diz respeito a uma liberdade metafísica real, então esse tipo de liberdade que é defendida para o homem, não deveria nem ser considerada ao tratarmos o tema da soberania de Deus.

Por Djalma Oliveira Santiago

2 comentários:

Ricardo Mamedes disse...

Tudo o que foi brilhantemente exposto converge para uma única direção: o desejo humano de ser "igual a Deus", ou, quiçá, superior a Ele.

É impossível àquele que cultiva a "liberdade" metafísica, essa quimera, dobrar-se inteiramente à soberania do Deus realmente déspota. É, em suma, pura soberba humana e humanista!

Para mim, ser efetivamente servo inclui, obrigatoriamente, dobrar-se ao Deus Altíssimo, depender dEle para as mínimas ações, reconhecendo que dEle vêm todas as coisas. Quero a "coincidência" da minha vontade com a vontade de Deus decretada para mim na eternidade. A Ele, honra, glória e exaltação.

Ricardo.

Fernando Pillet disse...

"Para os arminianos a queda do homem, embora tenha trazido algum prejuízo não afetou totalmente o homem, sendo que, continua em seu estado natural a ter habilidades para escolher a salvação, para escolher agradar a Deus. Desta forma, a depravação não foi total. [..] Por isso, os arminianos são considerados semi-pelagianos, pois pensam que o homem depois da queda tenha capacidade para fazer escolhas certas."

"Neste estado [caído], o livre-arbítrio do homem para o verdadeiro bem não está apenas ferido, enfermo, inclinado, e enfraquecido; mas ele está também preso, destruído, e perdido. E os seus poderes não só estão debilitados e inúteis a menos que seja assistido pela graça, mas não tem poder algum exceto quando é animado pela graça divina." - Jacobus Arminius: The Writings of James Arminius (three vols.), tr. James Nichols and W.R. Bagnall (Grand Rapids: Baker, 1956), I:252

Por favor, peço que o autor explique aos seus leitores porque razão a sua explicação sobre a doutrina arminiana contradiz a afirmação do próprio Armínio sobre o livre-arbítrio.

Agradeço,
Fernando