rss
email
twitter
facebook
Mostrando postagens com marcador História da Igreja. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História da Igreja. Mostrar todas as postagens

domingo, 16 de janeiro de 2011

Resumo dos quatro concílios ecumênicos da Igreja Primitiva

1. Nicéia, 325

Assunto: A Natureza de Cristo dentro da Trindade.

Personagens: Ário, de Alexandria; Alexandre, de Alexandria; Eusébio de Nicomédia.

Resolução: O imperador Constantino, chamou os bispos para Nicéia. Mais de 300 bispos se fizeram presentes. O credo oferecido por Eusébio de Cesaréia foi rejeitado. Escreveu-se o credo de Nicéia, com as declarações “gerado, não feito... consubstancial com o Pai (homo-úsios)”. Foram rejeitadas frases arianas, tais como “havia tempo quando ele não era”, e “feito do que não era”. Foram exilados os poucos que não aceitaram a fórmula nicena. A unidade eclesiástica foi o grande objetivo do imperador.

2. Constantinopola, 381

Assunto: O modo em que a humanidade e a divindade se relacionam em Jesus Cristo. Conflito entre a escola de Alexandria (alegorista) e a de Antioquia (literalista).

Personagens e Ensinos: Apolinário, bispo de Laodicéia na Síria... disse que Jesus teve corpo e alma humanos, mas que não teve espírito (mente) humano... no lugar do espírito (mente) humano estava o “Logos”. Deste jeito, Apolinário procurava destacar a unidade de Jesus e não a dualidade, pois “não existem dois Filhos de Deus” . Do outro lado, Damário, bispo de Roma, e Gregório de Nazianzo (um dos grandes capadócios) argumentaram que Deus salva o homem na sua totalidade... corpo, alma e espírito (mente). Na sua encarnação, Cristo juntou-se ao espírito humano para salvá-lo. Sem tal união, o espírito do homem não seria salvo. Deste jeito, destaca-se mais a dualidade de Cristo... espírito humano e espírito divino.

Resolução: Houve vários sínodos que se pronunciaram contra o apolinarismo, e este foi condenado, por fim, neste 2º concílio ecumênico em Constantinopola . Este concílio também re-afirmou as decisões de Nicéia contra o arianismo.

3. Éfeso, 421

Assunto: O modo em que a humanidade e a divindade de Jesus Cristo se relacionam... qual foi a maneira de Jesus Cristo vir ao mundo, e qual foi a sua natureza na encarnação. O termo mais controvertido foi “theótokos”, termo aplicado a Maria e significando “mãe de Deus/genitora de Deus”.

Personagens e Ensinos: Nestor e Anastácio de Constantinopola, Diodoro de Tarso, Teodoro de Mopsuéstia... ensinaram a plenitude da natureza humana em Cristo (como sempre foi o ensino da escola de Antioquia). Nestor, afirmou a presença em Cristo de duas pessoas, e não somente de duas naturezas. A união que existe entre a pessoa humana e a pessoa divina é uma conjugação ou “união moral”,. Do outro ladi, Cirilo de Alexandria, com o apoio de Celestino I, bispo de Roma. Eles argumentaram que simples união moral entre Deus e um ser humano não pode nos salvar.

Cirilo, era ciumento e tinha ambição inescrupulosa, querendo abalar os patriarcados de Antioquia e Constantinopola.

Resolução: Concílio ecumênico, convocado pelo imperador. Concílio aconteceu em circunstâncias de confusão. Em junho, sessão liderada por Cirilo, e dominada pelos bispos do Egito, condenou e depôs a Nestor. Em julho, João de Antioquia com seus seguidores (todos chegados atrasados) condenaram e depuseram Cirilo e seus seguidores. Em agosto, os legados papais (também chegados atrasados) juntaram-se a Cirilo e seus bispos, e declararam deposto não somente Nestor mas também a João. Ao mesmo tempo condenaram o pegianismo. Mais tarde Cirilo e João fizeram um acordo, mas Nestor não foi convidado a participar e ficou exilado até a morte.

4. Calcedônia, 451

Assunto: A humanidade e a divindade de Cristo. A questão de uma natureza ou duas.

Personagens e ensinos: Da escola de Alexandria... Dióscoro, bispo de Alexandria. Êutico, abade em Constantinopola, mas partidário do falecido Cirilo de Alexandria; Crisápio, capelão do imperador em Constantinopola e político poderoso. Êutico, negou que Cristo existisse em duas naturezas depois da encarnação e que fosse “consubstancial conosco” (da mesma natureza que o homem) por causa da sua humanidade. Da escola de Antioquia... Flaviano, bispo de Constantinopola; Pulquéria, irmã do imperador, e Marciano, marido de Pulquéria... com o apoio de Leão, o Grande, bispo de Roma.

Resolução: Este concílio, foi convocado em substituição a um concílio realizado em Éfeso, em 449, que foi presidido por Dióscoro... Êutico foi reabilitado e Flaviano foi condenado. Dióscoro, recusou ler carta doutrinária de Leão (“O Tomo”). Flaviano, foi batido e pisado, e morreu poucos dias depois. Leão chamou o concílio de Éfeso de “conciliábulo de ladrões”. Depois da morte do imperador, Pulquéria e Marciano convorcaram este novo Concílio em Calcedônia, 451. Estiveram presentes 520 bispos. Condenaram a Êutico e a Dióscoro. O Tomo de Leão foi lido e aprovado com aclamação. A definição aceita foi a de existir: “duas naturezas em uma só pessoa”.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O apelo da multidão

Um pastor para enfrentar os leões vorazes

No início de 391, a chamado de um funcionário imperial, Agostinho segue para Hipona. A cidade, com cerca de 30 mil habitantes, funcionava com grande centro comercial: no seu porto era embarcado o trigo enviado a Roma. Encostada nas montanhas cobertas de pinheiros, a segunda metrópole africana em importância gozava de posição privilegiada, sendo até mesmo bem protegida por fortificações.
Certo dia Agostinho assistia à missa quando o velho bispo da cidade, Valério, começou a explicar ao povo as necessidades da diocese, acentuando a urgência de ter um sacerdote que o ajudasse. Da multidão elevou-se, cada vez mais distinto, o pedido: "Agostinho padre". Agostinho procurou resistir, defendendo a tranqüilidade de sua vida monástica, mas a insistência da população triunfou: com os olhos cheios de lágrimas, ajoelha-se frente a Valério e é ordenado sacerdote. Tem 37 anos e sabe que pesadas tarefas o esperam; terá de lidar com necessidades objetivas do povo, ao lado de suas preocupações espirituais. Seu temperamento contemplativo, porém, permanecerá sempre fiel aos ideais de Cassiciaco e Tagaste. Funda, com Alípio, um segundo mosteiro. Seus discípulos serão, mais tarde, bispos em várias cidades da África – o catolicismo deste continente será marcadamente agostiniano.
Em 396, atendendo ao pedido de Valério, Agostinho é sagrado bispo auxiliar. Conserva o hábito de penitente, recusando-se a usar anel e mitra. Desde os primeiros dias de sua sagração, teve de se defrontar com "leões vorazes", os heréticos que estavam por toda parte. Ele mesmo, em seu livro sobre heresias, chegaria a contar 88. A principal delas era a seita dos donatistas, que, em fins de 312, se havia separado da Igreja, alegando que os católicos mostraram-se demasiado servis ao poder imperial por ocasião das perseguições de Diocleciano. Na época, os donatistas lutavam violentamente, e não só com discussões. O próprio Agostinho salvara-se por milagre de uma emboscada. Um outro bispo fora ferido de morte diante altar.
Ainda quando simples padre, Agostinho havia percebido a gravidade do cisma que se desencadeava sobretudo nas regiões berberes menos romanizadas, entre os pobres do campo oprimidos pelos proprietários rurais. Na agitação donatista havia um amplo aspecto de revolta social. Camponeses, escravos e desertores incendiavam e saqueavam os grandes domínios.
Sessenta cristãos já haviam sido trucidados. Era tempo, como escrevia Possídio, de que a Igreja "longamente humilhada reerguesse a cabeça". Agostinho iniciou a luta convidando os chefes donatistas para discussões públicas. Escreve contra eles mais de uma dúzia de livros e opúsculos, nos quais procura demonstrar que a santidade da Igreja universal não pode ser negada ou destruída pelas culpas de alguns de seus membros.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

OS PAIS APOLOGÉTICOS ORIENTAIS (GREGOS) E OCIDENTAIS (LATINOS)


No II e início do III século a Igreja cresceu tanto que chama a atenção dos pensadores pagãos que começam a atacá-la. Surgem dentro da própria Igreja elementos treinados em filosofia que conseguem responder a estes ataques e apresentar uma declaração positiva do que a Igreja é e o que ensina. Estes autores mostram um conhecimento de cultura e dialética que faltava aos pais apostólicos. Assim os primeiros apologistas procuravam defender o direito do cristão existir como cristão. Este intelectuais procuram defender o cristianismo contra 4 acusações básicas: Ateísmo, foram acusados de ateísmo por não adorar os deuses pagãos, coisa que os politeístas não podiam compreender. Paixão lasciva e incestuosa: suas reuniões nocturnas e secretas foram interpretadas como para dar oportunidade à carne. Canibalismo: ou malícia ou mal-entendido quanto ao comer o corpo e beber o sangue do Senhor. Ignorância: os mestres cristãos eram incultos.

Ao invés de aceitar que o cristianismo seja uma religião nova, os apologistas baseiam sua antiguidade sobre o próprio AT. O cristianismo é apresentado como sendo o cumprimento das profecias mosaicas. Como Filo, eles procuram mostrar que Socrátes e Platão tomaram suas idéias do Deus de Moisés. Para os apologistas Cristo veio para cumprir as profecias do AT. Eles põem grande ênfases sobre a profecia como a principal evidência da verdade do cristianismo. Ao mesmo tempo a pureza da vida e dos ensinos de Jesus, bem como o poder transformador do cristianismo são constantemente destacados.

As primeiras Apologias (Apologistas gregos)

Aristides
Eloquente filósofo em Atenas, dirigiu sua apologia ao imperador Adriano (antes de 138). Faz uma pequena introdução quanto à natureza de Deus (primeiro motor) e do mundo. Divide a humanidade entre bárbaros, gregos, judeus e cristãos. Mostra que os primeiros três, partiram da religião da reta razão. Só os cristãos acharam a verdade. Distinguem-se como povo que participa da divindade e pelo amor uns pelos outros. O mundo será julgado por Jesus.

Flávio Justino
Foi o mais importante destes do II século. Filósofo por vocação, foi o primeiro dos pais que pode ser chamado de "teólogo". Tentou mostrar que o cristianismo é a verdadeira filosofia. Foi martirizado em Roma em 166. Seu Diálogo com Trifon discute as relações entre o AT e o NT (em seus 142 capítulos). É uma vindicaçào do cristianismo a partir de Moisés e os profetas contra as objeções dos judeus. Nas 2 apologias: a primeira (com 68 capítulos) argumenta que é razoável abandonar as tradições que são más e seguir a verdade. Daí passa a fazer uma exposição da relação dos cristãos ao império e contrastar seus bons costumes com os maus dos pagãos.. A segunda (com 25 caps.) continua o argumento, dando atenção especial as relações entre o cristianismo e a filosofia pagã. Justino forma a transição entre os pais apostólicos e os patrísticos propriamente dito.

Taciano
Vindo do oriente (talvez da Assíria), converteu-se em Roma sob a influência de Justino. Posteriormente fundo uma escola herética na Síria. Escreveu um Discurso aos Gregos e o Diatesseron, este último sendo uma harmonia dos 4 evangelhos. O Discurso... é uma ataque à civilização e a religião helênica em que Taciano expõe o cristianismo.

Atenágoras
Contemporâneo de Taciano, deixou 2 escritos: Súplica a Favor dos Cristãos e Sobre a Ressurreição dos Mortos. A súplica, escrito em 177, procura rebater as acusações principais ao cristianismo: ateísmo, incesto e antropofagismo. A Ressurreição... procura mostrar que a ressurreição é necessária para ter uma ideia adequada de Deus e da natureza humana.

Teofilo
Bispo de Antioquia. Escreveu Três Livros a Autólico (180) para mostra a este seu amigo a verdade do cristianismo. O primeiro trata de Deus, o segundo contrasta os poetas e o AT., e o terceiro mostra a excelência moral do cristianismo.

Clemente (150-220)
Escreveu o Protreptikos, onde exorta o leitor a abandonar seus costumes pagãos e tomar o caminho da salvação. Seus 12 capítulos atacam os erros pagãos sem negar os valores da cultura helenista. O Pedagogo é uma obra que se propõe guiar o crente na conduta cristã. O Stromateis, é uma série de apontamentos onde expõe o mais profundo do pensamento de Clemente. Procura desenvolver a relação entre a filosofia e a teologia. A filosofia foi dada aos gregos com o mesmo intúito da lei aos judeus: ser um aio a Cristo.

Orígenes (185-253)
A obra literária foi imensa, embora a grande parte foi perdida. Há 800 títulos conhecidos das suas obras. Contra Celso, é uma obra apologética, foi escrito para refutar, argumento por argumento, um livro deste filósofo pagão contra os cristãos. Embora Orígenes cria firmemente na inspiração da Bíblia sua interpretação foi "espiritual"e não ao pé-da-letra. Falou que qualquer texto bíblico tem 3 sentidos: um literal ou corporal, um moral ou psíquico e um intelectual ou espiritual. Este último pode ser alegórico ou tipológico.

2.Os Apologéticos Latinos

Irineu
Nasceu entre 130-135. Foi discípulo de Policarpo. Foi muito estudioso. Citou quase todos os clássicos gregos, conhecia bem tanto o AT, e o NT, citou quase todos os escritores cristãos de que temos conhecimento e conhecia bem a literatura herética de seu tempo e dos tempos anteriores. Homem piedoso e zeloso pela fé, foi missionário na região de Leão. Quando Potino, o pastor da igreja de Leão, foi martirizado em 177, Ireneu aceitou este posto perigoso. No período de seu pastorado a perseguição diminuiu sensivelmente. No seu lugar surgiu uma expansão rápida do gnosticismo e outras heresias. Irineu escreveu seus cinco livros Contra Heresias (Adv.Haer.) em torno de 185. Nestes 5 livros Adv. Haer. (Contra as Heresias) temos: no primeiro livro dá um relato histórico das seitas gnósticas e apresenta como contrapeso a declaração de fé da Igreja Católica, talvez a primeira em forma de proposições. No segundo livro, é uma ataque filosófico as doutrinas gnósticas. Rejeita a espiritualização do texto sagrado. O terceiro livro procurou refutar o gnosticismo apartir das Escrituras. O quarto livro, apartir das palavras de Cristo; e o quinto, procurou vindicar a doutrina da ressurreição. No último manteve a vera humanidade e a vera divindade de Cristo, para depois demonstrar que o corpo é passível de salvação. Também escreveu : Exposição da pregação Apostólica. Tem caráter catequético, edificatório e indiretamente polêmico. A primeira parte é teológica (monarquia, trindade, batismo); a segunda cristológica (Jesus, o Senhor, o Filho de Davi, o esplendor da cruz, o reino de Deus). Irineu, concebeu a Igreja como uma unidade orgânica transmitida através duma sucessão de presbíteros. Deus ênfase à liberdade e autonomia de cada igreja como princípio básico da constituição eclesiástica.

Hipólito
Escritor grego em Roma em princípios do III século. Possivelmente discípulo de Ireneu, foi homem ambicioso e rigorista. Escreveu sua Refutação de Todas as Heresias, em 222. Consiste de 10 livros. A primeira parte (I-IV) procura mostrar que os hereges haviam tomado sua doutrina da ciência dos pagãos e não da revelação cristã. A segunda parte (V-IX) contêm uma exposição de 33 sistemas gnósticos.

Tertuliano
Natural de Cartago, foi educado em direito romano e retórica. Alcançou iminência antes de se converter. Estudou grego e escreveu umas obras nesta língua. Foi grandemente influenciado pelo estoicismo posterior. A influência do direito romano e da filosofia estóica são claramente visíveis nos seus escritos. Seus escritos latinos são volumosos e hábeis. Deitaram os alicerces para a teologia latina, inclusive a toda a terminologia teológica. Os seus livros podem ser divididos em: Apologéticos: (Contra Naçòes, Apologeticum, Adv. Judaeos); Dogmáticos e Polêmicos (De Praescriptions Haereticorum, Adv. Marcionem, De Carnis Ressurretione, De Baptismo, De Anima) e Ascético e Prático (17 livros)

Cipriano (200-258)
Foi um brilhante professor de retórica antes de sua conversão. Pouco depois da sua conversão se tornou bispo da igreja de Cartago em 248. Seu episcopado durou 9 anos. O ataque de Décio em meados do III século foi dirigido especialmente aos líderes das igrejas. Sendo assim Cipriano fugiu e se escondeu para não deixar a igreja de Cartago acéfala. Este ato foi muito criticado e, por uns, foi considerado apostasia. Escreveu dois livros para tornar conhecida sua posição quanto à eclesiologia e o tratamento dos "caídos" (lapsi): Dos caídos e o outro Da unidade da Igreja. Na questão dos lapsi, tomou uma posição medianeira: mais rigoroso do que Roma, mas não tanto quanto os novacianos. Realizou um concílio em 255 que tomou uma posição mais rigorosa quanto à validade do batismo herético. Foi Cipriano que mais fez nesse período para o desenvolvimento de pontos de vista e princípios hierárquicos. Estabelece distinção nítida entre bispos e presbíteros, bem como a supremacia da igreja de Roma como cátedra de Pedro e centro de unidade da Igreja Universal. Para Cipriano a Igreja é a arca (como a de Noé) da salvação. Ele cunho a frase: "fora da Igreja não há salvação". Acrescentou outra: "quem não tem a Igreja por mãe, não pode ter Deus por Pai". Para ele a unidade da igreja está no episcopado sobre o qual ela é constituida.

Recomendamos a leitura: Gonzáles, J. A Era dos Mártires. p.79-132; Cairns Earle; O Cristianismo Através dos Séculos, p.85-98

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

OS PATRÍSTICOS PÓS-NICENOS

A influência dos pais sobre a Igreja posterior até a reforma é determinativa. As grandes catedrais quando não faziam outro ensino teológico, tiveram suas cópias, feitas à mão, dos escritos patrísticos. Estes foram lido, estudados e até pregados. Naturalmente uns tiveram mais influência que outros. Para alguns a influência teológica maior foi a de Agostinho, mas parece que é possível que a influência de Jerônimo tenha sido mais duradoura do que a de Agostinho. Jerônimo não foi um pensador como Agostinho, mas sua presença se tornou onipresente no oeste por duas obras dele: a tradução vulgata da Bíblia e a introdução do monaquismo.


1.Os Historiadores da Igreja

Eusébio de Cesaréia (260-340). Escreveu sua História Eclesiástica onde apresenta a história da Igreja desde seu início até 324. A sua Crônica começa com Abraão e vai a 323. Deu estrutura cronológica para toda a história medieval. Escreveu a Vida de Constantino onde louva o imperador. Foi acusado de ser semi-ariano.

Socrates. Nasce em Constantinopla e escreveu a história da Igreja de 305 até 439. É um autor não crítico, ignorava a Igreja no oeste. Ele apresenta uma coleção inestimável de dados e documentos.

Sozomen. Foi criado em Gaza mas viveu em Constantinopla após 406. Apresenta a história de 323 a 439. Foi educado para ser monge. Dá destaque ao monaquismo em detrimento de outros dados como a verdadeira filosofia cristã. A biografia é a principal força de sua história.

2. Os "Teólogos" da Igreja

Atanásio (298-373) Assistiu o Concílio de Nicéia, mas aparentemente não foi um grande luminário lá. Após a morte de Cirilo, Atanásio foi eleito bispo de Alexandria em 328. Durante seu bispado foi exilado 5 vezes por Constantino e seus sucessores. Sua força se tornou tão grande, que os últimos dois mandatos do exílio não podiam ser cumpridos. Nesse período a ortodoxia nicena já havia triunfado sobre o arianismo. Sua vida pode ser dividida em 3 etapas: Antes de Nicéia até 325; luta contra o arianismo 325-361 e período de vitória da ortodoxia, 361-373

João Crisóstomo (345-407). foi um grande expositor e orador. Ao princípio advogou segundo seu treino em direito. Após seu batismo em 368 se tronou monge. Com a morte da sua mãe em 374 seguiu uma vida extremamente ascética até 380. foi ordenado em 386 e se tornou patriarca de Constantinopla em 398. Foi banido em 404 por ter denunciado as vestimenta extravagantes da imperatriz, bem como a colocação de uma estatueta dela em prata na Igreja ao lado de Santa Sofia. Morreu no exílio em 407. Ainda existem 604 dos seus sermões. A leitura destes sermões mostra a força da sua pregação sem o acréscimo da personalidade de seu autor. A grande maioria destes sermões versam sobre as epístolas de Paulo. Procurava levar em consideração o contexto e aplicar aos dias dele o sentido literal do texto.

Teodoro de Mopsuéstia (350-428). Foi príncipe dos exegetas da antiguidade. em contraste com os alexandrinos, ele com Crisóstomo procuravam proclamar o sentido natural do texto. Foi defensor, pelo menos em parte, de Nestório. Defendeu insistentemente a integridade da humanidade de Cristo.

Basílio de Cesaréia (329-379) foi instalado na sé de Cesareia em 370. Logo em seguida começou uma série de negociações teológicas, primeiro com Atanásio e depois com o papa Dâmaso para promover a reunião das igrejas cismadas pela controvérsia sobre a Trindade. Graças a sua obra de organizador e legislador criou uma nova concepção da instituição monástica. Colocou como ideal o quadro dos cristãos em Jerusalém (At:2-4) e destacou daí a obediência ao superior.

Gregório de Nissa (331-395). Irmão mais novo de Basílio, foi um estudante da Bíblia e de Orígenes. Foi eleito bispo em 371. Tornou-se o defensor mais avançado do credo de Nicéia. Foi o primeiro a procurar estabelecer por considerações racionais a totalidade das doutrinas ortodoxas. A filosofia se tornou uma auxiliadora da teologia. Embora divergiu de Orígenes, especialmente em cosmologia, na maior parte aceitou o ensino deste no que podia acomodá-lo à fé explícita da Igreja.

Gregório de Nazianso (330-390). Foi eleito bispo em 372, junto com os dois anteriores, procurou reconciliar as 2 proposições de Atanásio: a identidade de essência entre Pai e Filho com a distinção de pessoalidade entre Pai e Filho. Os 2 Gregório também procuravam salvar a reputação de Orígenes para a ortodoxia. Assim adotaram a doutrina de Orígenes que rezava que o Logos uniu-se com a natureza sensível pela mediação de uma alma humana racional. Acrescentaram que o Logos tomou todas as partes da natureza humana em comunhão consigo e as permeava.

Jerônimo (347-419). Foi o autor da Vulgata que ele insistiu traduzir do grego (NT) e hebraico (AT), salvo os Salmos que já foram traduzidos da Setuaginta (LXX). Jerônimo introduziu dois outros elementos à Igreja ocidental que tiveram grandes repercussões lá. Introduziu a vida ascética a Europa ocidental. A importância disto só pode ser avaliada à luz da forma que a Igreja toma na Europa medieval. Introduziu também Orígenes ao Oeste. Por causa de uma tradução tendenciosa por parte de Rufino, Jerônimo fez uma tradução ao pé da letra de Orígenes. Mais tarde ficou embaraçado de ter seu nome ligado a Orígenes. Condenou a doutrina deste, mas sempre admirou seu estilo de escritor. Além de suas traduções da Bíblia e de Orígenes, Jerônimo é famoso por seus comentários nas Escrituras. Seu primeiro (388) comentário foi sobre Eclesiástes, seguido no mesmo ano por Gálatas, Efésios e Tito. Três anos depois publicou um sobre 5 dos profetas menores. De 397 até 419 completou os profetas menores, bem como Jonas, Daniel, Isaias, Ezequiel e Jeremias. E do NT apenas Mateus.

Ambrósio de Milão (340-397). Foi um grande administrador eclesiástico; pregador e teólogo. Foi a pregação de Ambrósio que trouxe Agostinho ao evangelho. Era governador imperial da área ao redor de Milão quando o bispo da cidade morreu em 374. O povo unanimemente queria que Ambrósio aceitasse ser bispo. Crendo ser isto a vontade de Deus, renunciou ao seu cargo político, distribuiu seus bens aos pobres e, após sua eleição, iniciou um estudo intensivo das Escrituras. Foi um grande pregador apesar de sua exposição ser desfigurada pela interpretação alegórica das Escrituras. Resistiu ao imperador Teodósio, não permitindo-o participar da Ceia até que humilde e publicamente se arrependesse do massacre dos tessalonicenses. Aparentemente foi Ambrósio que introduziu o cantar de hinos na Igreja Ocidental.

O que se pode dizer em relação ao período patrístico, é que foi extremamente frutífero em termos de pensadores que analisara, a fundo a fé cristã. Foi seguido este período, pela escuridão intelectual denominada a Idade Média. Antes de cair a cortina, a fé cristã foi iluminada por estes grandes homens a quem tanto devemos.


Recomendamos a Leitura de: Cairns, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos. p.113-121. Gonzales, Justo. A Era dos Gigantes. p.113-162

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A nova reforma protestante

Por Ricardo Alexandre
Matéria publicada na Revista Época

Rani Rosique não é apóstolo, bispo, presbítero nem pastor. É apenas um cirurgião geral de 49 anos em Ariquemes, cidade de 80 mil habitantes do interior de Rondônia. No alpendre da casa de uma amiga professora, ele se prepara para falar. Cercado por conhecidos, vizinhos e parentes da anfitriã, por 15 minutos Rosique conversa sobre o salmo primeiro (“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios”). Depois, o grupo de umas 15 pessoas ora pela última vez – como já havia orado e cantado por cerca de meia hora antes – e então parte para o tradicional chá com bolachas, regado a conversa animada e íntima.

Desde que se converteu ao cristianismo evangélico, durante uma aula de inglês em Goiânia em 1969, Rosique pratica sua fé assim, em pequenos grupos de oração, comunhão e estudo da Bíblia. Com o passar do tempo, esses grupos cresceram e se multiplicaram. Hoje, são 262 espalhados por Ariquemes, reunindo cerca de 2.500 pessoas, organizadas por 11 “supervisores”, Rosique entre eles. São professores, médicos, enfermeiros, pecuaristas, nutricionistas, com uma única característica comum: são crentes mais experientes.

Apesar de jamais ter participado de uma igreja nos moldes tradicionais, Rosique é hoje uma referência entre líderes religiosos de todo o Brasil, mesmo os mais tradicionais. Recebe convites para falar sobre sua visão descomplicada de comunidade cristã, vindos de igrejas que há 20 anos não lhe responderiam um telefonema. Ele pode ser visto como um “símbolo” do período de transição que a igreja evangélica brasileira atravessa. Um tempo em que ritos, doutrinas, tradições, dogmas, jargões e hierarquias estão sob profundo processo de revisão, apontando para uma relação com o Divino muito diferente daquela divulgada nos horários pagos da TV.
Image
Irani Rosique (crédito: Revista Época)
Estima-se que haja cerca de 46 milhões de evangélicos no Brasil. Seu crescimento foi seis vezes maior do que a população total desde 1960, quando havia menos de 3 milhões de fiéis espalhados principalmente entre as igrejas conhecidas como históricas (batistas, luteranos, presbiterianos e metodistas). Na década de 1960, a hegemonia passou para as mãos dos pentecostais, que davam ênfase em curas e milagres nos cultos de igrejas como Assembleia de Deus, Congregação Cristã no Brasil e O Brasil Para Cristo. A grande explosão numérica evangélica deu-se na década de 1980, com o surgimento das denominações neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer. Elas tiraram do pentecostalismo a rigidez de costumes e a ele adicionaram a “teologia da prosperidade”. Há quem aposte que até 2020 metade dos brasileiros professará à fé evangélica.

Dentro do próprio meio, levantam-se vozes críticas a esse crescimento. Segundo elas, esse modelo de igreja, que prospera em meio a acusações de evasão de divisas, tráfico de armas e formação de quadrilha, tem sido mais influenciado pela sociedade de consumo que pelos ensinamentos da Bíblia. “O movimento evangélico está visceralmente em colapso”, afirma o pastor Ricardo Gondim, da igreja Betesda, autor de livros como Eu creio, mas tenho dúvidas: a graça de Deus e nossas frágeis certezas (Editora Ultimato). “Estamos vivendo um momento de mudança de paradigmas. Ainda não temos as respostas, mas as inquietações estão postas, talvez para ser respondidas somente no futuro.”

Nos Estados Unidos, a reinvenção da igreja evangélica está em curso há tempos. A igreja Willow Creek de Chicago trabalhava sob o mote de ser “uma igreja para quem não gosta de igreja” desde o início dos anos 1970. Em São Paulo, 20 anos depois, o pastor Ed René Kivitz adotou o lema para sua Igreja Batista, no bairro da Água Branca – e a ele adicionou o complemento “e uma igreja para pessoas de quem a igreja não costuma gostar”. Kivitz é atualmente um dos mais discutidos pensadores do movimento protestante no Brasil e um dos principais críticos da“religiosidade institucionalizada”. Durante seu pronunciamento num evento para líderes religiosos no final de 2009, Kivitz afirmou: “Esta igreja que está na mídia está morrendo pela boca, então que morra. Meu compromisso é com a multidão agonizante, e não com esta igreja evangélica brasileira.”

Essa espécie de “nova reforma protestante” não é um movimento coordenado ou orquestrado por alguma liderança central. Ela é resultado de manifestações espontâneas, que mantêm a diversidade entre as várias diferenças teológicas, culturais e denominacionais de seus ideólogos. Mas alguns pontos são comuns. O maior deles é a busca pelo papel reservado à religião cristã no mundo atual. Um desafio não muito diferente do que se impõe a bancos, escolas, sistemas políticos e todas as instituições que vieram da modernidade com a credibilidade arranhada. “As instituições estão todas sub judice”, diz o teólogo Ricardo Quadros Gouveia, professor da Universidade Mackenzie de São Paulo e pastor da Igreja Presbiteriana do Bairro do Limão. “Ninguém tem dúvida de que espiritualidade é uma coisa boa ou que educação é uma coisa boa, mas as instituições que as representam estão sob suspeita.”

Uma das saídas propostas por esses pensadores é despir tanto quanto possível os ensinamentos cristãos de todo aparato institucional. Segundo eles, a igreja protestante (ao menos sua face mais espalhafatosa e conhecida) chegou ao novo milênio tão encharcada de dogmas, tradicionalismos, corrupção e misticismo quanto a Igreja Católica que Martinho Lutero tentou reformar no século XVI. “Acabamos nos perdendo no linguajar ‘evangeliquês’, no moralismo, no formalismo, e deixamos de oferecer respostas para nossa sociedade”, afirma o pastor Miguel Uchôa, da Paróquia Anglicana Espírito Santo, em Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife. “É difícil para qualquer pessoa esclarecida conviver com tanto formalismo e tão pouco conteúdo.”
Image
Miguel Uchôa e bispo Robinson Cavalcanti,
da Diocese do Recife (crédito: Revista Época)
Uchôa lidera a maior comunidade anglicana da América Latina. Seu trabalho é reconhecido por toda a cúpula da denominação como um dos mais dinâmicos do país. Ele é um dos grandes entusiastas do movimento inglês Fresh Expressions, cujo mote é “uma igreja mutante para um mundo mutante”. Seu trabalho é orientar grupos cristãos que se reúnem em cafés, museus, praias ou pistas de skate. De maneira genérica, esses grupos são chamados de “igreja emergente” desde o final da década de 1990. “O importante não é a forma”, afirma Uchôa. “É buscar a essência da espiritualidade cristã, que acabou diluída ao longo dos anos, porque as formas e hierarquias passaram a ser usadas para manipular pessoas. É contra isso que estamos nos levantando.”

No meio dessa busca pela essência da fé cristã, muitas das práticas e discursos que eram característica dos evangélicos começaram a ser considerados dispensáveis. Às vezes, até condenáveis (leia o quadro na última pág.). Em Campinas, no interior de São Paulo, ocorre uma das experiências mais interessantes de recriação de estruturas entre as denominações históricas. A Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera não tem um templo. Seus frequentadores se reúnem em dois salões anexos a grandes condomínios da cidade e em casas ao longo da semana. Aboliram a entrega de dízimos e as ofertas da liturgia. Os interessados em contribuir devem procurar a secretaria e fazê-lo por depósito bancário – e esperar em casa um relatório de gastos. Os sermões são chamados, apropriadamente, de “palestras” e são ministrados com recursos multimídias por um palestrante sentado em um banquinho atrás de um MacBook. A meditação bíblica dominical é comumente ilustrada por uma crônica de Luis Fernando Verissimo ou uma música de Chico Buarque de Hollanda.

“Os seminários teológicos formam ministros para um Brasil rural em que os trabalhos são de carteira assinada, as famílias são papai, mamãe, filhinhos e os pastores são pessoas respeitadas”, diz Ricardo Agreste, pastor da Comunidade e autor dos livros Igreja? Tô fora e A jornada (ambos lançados pela Editora Socep). “O risco disso é passar a vida oferecendo respostas a perguntas que ninguém mais nos faz. Há muita gente séria, claro, dizendo verdades bíblicas, mas presas a um formato ultrapassado.”

Outro ponto em comum entre esses questionadores é o rompimento declarado com a face mais visível dos protestantes brasileiros: os neopentecostais. “É lisonjeador saber que atraímos gente com formação universitária e que nos consideram ‘pensadores’”, afirma Ricardo Agreste. “O grande problema dos evangélicos brasileiros não é de inteligência, é de ética e honestidade.” Segundo ele, a velha discussão doutrinária foi substituída por outra. “Não é mais uma questão de pensar de formas diferentes a espiritualidade cristã”, diz. “Trata-se de entender que há gente usando vocabulário e elementos de prática cristã para ganhar dinheiro e manipular pessoas.”

Esse rompimento da cordialidade entre os evangélicos históricos e os neopentecostais veio a público na forma de livros e artigos. A jornalista (evangélica) Marília Camargo César publicou no final de 2008 o livro Feridos em nome de Deus (Editora Mundo Cristão), sobre fiéis decepcionados com a religião por causa de abusos de pastores. O teólogo Augustus Nicodemus Lopes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, publicou O que estão fazendo com a Igreja: ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro (Mundo Cristão), retrato desolador de uma geração cindida entre o liberalismo teológico, os truques de marketing, o culto à personalidade e o esquerdismo político. Em um recente artigo, o presidente do Centro Apologético Cristão de Pesquisas, João Flavio Martinez, definiu como “macumba para evangélico” as práticas místicas da Igreja Universal do Reino de Deus, como banho de descarrego e sabonete com extrato de arruda.

Tais críticas, até pouco tempo atrás, ficavam restritas aos bastidores teológicos e às discussões internas nas igrejas. Livros mais antigos – como Supercrentes, Evangélicos em crise, Como ser cristão sem ser religioso e O evangelho maltrapilho (todos da editora Mundo Cristão) – eram experiências isoladas, às vezes recebidos pelos fiéis como desagregadores. “Parece que a sociedade se fartou de tanto escândalo e passou a dar ouvidos a quem já levantava essas questões há tempos”, diz Mark Carpenter, diretor-geral da Mundo Cristão.

O pastor Kivitz – que publicou pela Mundo Cristão seus livros Outra espiritualidade e O livro mais mal-humorado da Bíblia – distingue essa crítica interna daquela feita pela mídia tradicional aos neopentecostais “A mídia trata os evangélicos como um fenômeno social e cultural. Para fazer uma crítica assim, basta ter um pouco de bom-senso. Essa crítica o (programa) CQC já faz, porque essa igreja é mesmo um escracho”, diz ele. “Eu faço uma crítica diferente, visceral, passional, porque eu sou evangélico. E não sou isso que está na televisão, nas páginas policiais dos jornais. A gente fica sem dormir, a gente sofre e chora esse fenômeno religioso que pretende ser rotulado de cristianismo.”

A necessidade de se distinguir dos neopentecostais também levou essas igrejas a reconsiderar uma série de práticas e até seu vocabulário. Pastores e “leigos” passam a ocupar o mesmo nível hierárquico, e não há espaço para “ungidos” em especial. Grandes e imponentes catedrais e “cultos shows” dão lugar a reuniões informais, em pequenos grupos, nas casas, onde os líderes podem ser questionados, e as relações são mais próximas. O vocabulário herdado da teologia triunfalista do Antigo Testamento (vitória, vingança, peleja, guerra, maldição) é reconsiderado. Para superar o desgaste dos termos, algumas igrejas preferem ser chamadas de “comunidades”, os cultos são anunciados como “reuniões” ou “celebrações” e até a palavra “evangélico” tem sido preterida em favor de “cristão” – o termo mais radical. Nem todo mundo concorda, evidentemente. “Eles (os neopentecostais) é que não deveriam ser chamados de evangélicos”, afirma o bispo anglicano Robinson Cavalcanti, da Diocese do Recife. “Eles é que não têm laços históricos, teológicos ou éticos com os evangélicos.”

Um dos maiores estudiosos do fenômeno evangélico no Brasil, o sociólogo Ricardo Mariano (PUC-RS), vê como natural o embate entre neopentecostais e as lideranças de igrejas históricas. Ele lembra que, desde o final da década de 1980, quando o neopentecostalismo ganhou força no Brasil, os líderes das igrejas históricas se levantaram para desqualificar o movimento. “O problema é que não há nenhum órgão que regule ou fale em nome de todos os evangélicos, então ninguém tem autoridade para dizer o que é uma legítima igreja evangélica”, afirma.

Procurado por ÉPOCA, Geraldo Tenuta, o Bispo Gê, presidente nacional da Igreja Renascer em Cristo, preferiu não entrar em discussões. “Jesus nos ensinou a não irmos contra aqueles que pregam o evangelho, a despeito de suas atitudes”, diz ele. “Desde o início, éramos acusados disto ou daquilo, primeiro porque admitíamos rock no altar, depois porque não tínhamos usos e costumes. Isso não nos preocupa. O que não é de Deus vai desaparecer, e não será por obra dos julgamentos.” A Igreja Universal do Reino de Deus – que, na terceira semana de julho, anunciou a construção de uma “réplica do Templo de Salomão” em São Paulo, com “pedras trazidas de Israel” e “maior do que a Catedral da Sé” – também foi procurada por ÉPOCA para comentar os movimentos emergentes e as críticas dirigidas à igreja. Por meio de sua assessoria, o bispo Edir Macedo enviou um e-mail com as palavras: “Sem resposta”.

O sociólogo Ricardo Mariano, autor do livro Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Editora Loyola), oferece uma explicação pragmática para a ruptura proposta pelo novo discurso evangélico. Ateu, ele afirma que o objetivo é a busca por uma certa elite intelectual, um público mais bem informado, universitário, mais culto que os telespectadores que enchem as igrejas populares. “Vivemos uma época em que o paciente pesquisa na internet antes de ir ao consultório e é capaz de discutir com o médico, questionar o professor”, diz. “Num ambiente assim, não tem como o pastor proibir nada. Ele joga para a consciência do fiel.”

A maior parte da movimentação crítica no meio evangélico acontece nas grandes cidades. O próprio pastor Kivitz afirma que “talvez não agisse da mesma forma se estivesse servindo alguma comunidade em um rincão do interior” e que o diálogo livre entre púlpito e auditório passa, necessariamente, por uma identificação cultural. “As pessoas não querem dogmas, elas querem honestidade”, diz ele. “As dúvidas delas são as minhas dúvidas. Minha postura é, juntos, buscarmos respostas satisfatórias a nossas inquietações.”

Por isso mesmo, Ricardo Mariano não vê comparação entre o apelo das novas igrejas protestantes e das neopentecostais. “O destino desses líderes será ‘pescar no aquário’, atraindo insatisfeitos vindos de outras igrejas, ou continuar falando para meia dúzia de pessoas”, diz ele. De acordo com o presbiteriano Ricardo Gouveia, “não há, ou não deveria haver, preocupação mercadológica” entre as igrejas históricas. “Não se trata de um produto a oferecer, que precise ocupar espaço no mercado”, diz ele. “Nossa preocupação é simplesmente anunciar o evangelho, e não tentar ‘melhorá-lo’ ou torná-lo mais interessante ou vendável.”

O advento da internet foi fundamental para pastores, seminaristas, músicos, líderes religiosos e leigos decidirem criar seus próprios sites, portais, comunidades e blogs. Um vídeo transmitido pela Igreja Universal em Portugal divulgando o Contrato da fé – um “documento”, “autenticado” pelos pastores, prometendo ao fiel a possibilidade de se “associar com Deus e ter de Deus os benefícios” – propagou-se pela rede, angariando toda sorte de comentários. Outro vídeo, em que o pregador americano Moris Cerullo, no programa do pastor Silas Malafaia, prometia uma “unção financeira dos últimos dias” em troca de quem “semear” um “compromisso” de R$ 900 também bombou na rede. Uma cópia da sentença do juiz federal Fausto De Sanctis condenando os líderes da Renascer Estevam e Sônia Hernandes por evasão de divisas circulou no final de 2009. De Sanctis afirmava que o casal “não se lastreia na preservação de valores de ética ou correção, apesar de professarem o evangelho”. “Vergonha alheia em doses quase insuportáveis” foi o comentário mais ameno entre os internautas.

Sites como Pavablog , Veshame Gospel , Irmãos.com , Púlpito Cristão , Caiofabio.net ou Cristianismo Criativo fazem circular vídeos, palestras e sermões e debatem doutrinas e notícias com alto nível de ousadia e autocrítica. De um grupo de blogueiros paulistanos, surgiu a ideia da Marcha pela ética, um protesto que ocorre há dois anos dentro da Marcha para Jesus (evento organizado pela Renascer). Vestidos de preto, jovens carregam faixas com textos bíblicos e frases como “O $how tem que parar” e “Jesus não está aqui, ele está nas favelas”.

A maior parte desses blogueiros trafega entre assuntos tão diversos como teologia, política, televisão, cinema e música popular. O trânsito entre o “secular” e o “sagrado” é uma das características mais fortes desses novos evangélicos. “A espiritualidade cristã sempre teve a missão de resgatar a pessoa e fazê-la interagir e transformar a sociedade”, diz Ricardo Agreste. “Rompemos o ostracismo da igreja histórica tradicional, entramos em diálogo com a cultura e com os ícones e pensamento dessa cultura e estamos refletindo sobre tudo isso.”

Blogueiros se reunem para marchar pela ética evangélica
(crédito: Revista Época)

Em São Paulo, o capelão Valter Ravara criou o Instituto Gênesis 1.28, uma organização que ministra cursos de conscientização ambiental em igrejas, escolas e centros comunitários. “É a proposta de Jesus, materializar o amor ao próximo no dia a dia”, afirma Ravara. “O homem sem Deus joga papel no chão? O cristão não deve jogar.” Ravara publicou em 2008 a Bíblia verde, com laminação biodegradável, papel de reflorestamento e encarte com textos sobre sustentabilidade.

A então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, escreveu o prefácio da Bíblia verde. Sua candidatura à Presidência da República angariou simpatia de blogueiros e tuiteiros, mas não o apoio formal da Assembleia de Deus, denominação a que ela pertence. A separação entre política e religião pregada por Marina é vista como um marco da nova inserção social evangélica. O vereador paulistano e evangélico Carlos Bezerra Jr. afirma que o dever do político cristão é “expressar o Reino de Deus” dentro da política. “É o oposto do que fazem as bancadas evangélicas no Congresso, que existem para conseguir facilidades para sua denominação e sustentar impérios eclesiásticos”, diz ele.

O raciocínio antissectário se espalhou para a música. Nomes como Palavrantiga, Crombie, Tanlan, Eduardo Mano, Helvio Sodré e Lucas Souza se definem apenas como “música feita por cristãos”, não mais como “gospel”. Eles rompem os limites entre os mercados evangélico e pop. O antissectarismo torna os evangélicos mais sensíveis a ações sociais, das parcerias com ONGs até uma comunidade funcionando em plena Cracolândia, no centro de São Paulo. “No fundo, nossa proposta é a mesma dos reformadores”, diz o presbiteriano Ricardo Gouveia. “É perceber o cristianismo como algo feito para viver na vida cotidiana, no nosso trabalho, na nossa cidadania, no nosso comportamento ético, e não dentro das quatro paredes de um templo.”

A teologia chama de “cristocêntrico” o movimento empreendido por esses crentes que tentam tirar o cristianismo das mãos da estrutura da igreja – visão conhecida como “eclesiocêntrica” – e devolvê-lo para a imaterialidade das coisas do espírito. É uma versão brasileiramente mais modesta do que a Igreja Católica viveu nos tempos da Reforma Protestante. Desta vez, porém, dirigida para a própria igreja protestante. Depois de tantos desvios, vozes internas levantaram-se para propor uma nova forma de enxergar o mundo. E, como efeito, de ser enxergadas por ele. Nas palavras do pastor Kivitz: “Marx e Freud nos convenceram de que, se alguém tem fé, só pode ser um estúpido infantil que espera que um Papai do Céu possa lhe suprir as carências. Mas hoje gostaríamos de dizer que o cristianismo tem, sim, espaço para contribuir com a construção de uma alternativa para a civilização que está aí. Uma sociedade que todo mundo espera, não apenas aqueles que buscam uma experiência religiosa”.

[clique para ampliar]





***

Comentário de Leonardo Gonçalves:

O leitor do Púlpito Cristão sabe que não endossamos, sob nenhuma hipótese, o open theism (ou teologia relacional - pintam o poço, mas a água é a mesma) que transparece nos textos do Ricardo Gondim e de Ed René Kvitz, ao mesmo tempo que nos identificamos com Paulo Romeiro, Augustus Nicodemus e Ricardo Agreste, bem como apoiamos a marcha pela ética evangélica, realizada por Paulo e Vera nos dois últimos anos. Somos conservadores em nossa teologia, embora amplamente abertos ao debate cultural e novas perspectivas missiológicas.

Definitivamente não somos um grupo de teólogos liberais querendo modificar o cristianismo; somos cristãos apaixonados que buscam viver e ensinar a essência perdida do evangelho de Cristo. No entanto, a presente matéria é extremamente importante, pois nela fez-se distinção entre a liderança corrupta, mensaleira e vergonhosa, e crentes sinceros - ainda que imperfeitos, demonstrando que nem todo mundo é farinha do mesmo saco-gospel.

Espero (e oro) para que cada vez mais pessoas possam reconhecer essas diferenças, que mais gente entenda que existem pastores honrados, comunidades sérias e crentes pensantes - não intelectualóides, mas pensantes - que estão seriamente preocupados com os rumos da igreja evangélica brasileira.

Fonte: Pulpito Cristão




quarta-feira, 4 de agosto de 2010

EXPANSÃO DO CRISTIANISMO NOS PRIMEIROS TRÊS SÉCULOS

Os dados quanto à expansão do cristianismo nos primeiros séculos são precários. As vezes tem que ser deduzidos de outros. Por exemplo, deduz-se o tamanho da igreja em determinada localidade do número de bispos (ou viuvas) que ali estavam. Há uma série de razões que explicam esta falta de dados. Vejamos algumas: A igreja primitiva se interessava em ganhar pessoas para Cristo, não em contá-las. Embora Atos fale de 3.000 e de 5.000 (2:41; 4:4), em geral fala de "grande número", "multidão"ou outros termos indefinidos. Também como era considerada uma "religião illícita"os crentes de então procuravam não aparecer e assim chamar atenção a si mesmos. Além do mais, o historiador Lucas, como cronista da expansão da Igreja, tem seu interesse limitado pela visão da chegada do Evangelho em Roma. Assim abandonou a historia de Pedro em 12:17 e a de Paulo logo que este chegou lá. Dos demais movimentos de crescimento só relata no que tocam a este objectivo (e.g.8:4; 11:19). Ainda temos o fator de perda de quaisquer documentos que porventura existiram devido a precariedade da vida desta comunidade primitiva.



1.Primeira Expansão da Igreja



Devido à natureza fragmentária dos dados, é possível darmos peso demais às viagens missionárias de Paulo e da expansão que as acompanhou (Ásia Menor, Grécia, etc.). Não temos, por exemplo, conhecimento de como ou por quem o evangelho chegou a Alexandria ou a Roma. Também vemos um congregação em Damasco antes da conversão de Paulo (At:9:1-19), que certo historiador batista, sugere ter surgido apartir de contatos com os discípulos na Galileia. Alguns pensam que a missão paulina tenha desabado logo após da sua morte.



Os primeiros agentes da expansão missionária provavelmente foram os convertidos do dia de Pentecostes (At:2:9-11) que levaram o evangelho consigo quando voltaram para casa. AS regiões alistadas no texto já indicam a larga gama de países do mundo de então.



Uma segunda leva de "missionários" foram aqueles que foram espalhados por toda parte na perseguição que seguiu o martírio de Estevão At:8:4. Estes foram pregando na Fenícia, no Chipre e na Antioquia, mas sempre aos helenistas. Um dos convertidos de Chipre e de Cirene (Líbia) pregaram aos helenos (gregos) em Antioquia.



Como resultado da evangelização do eunuco por Filipe surgiu a Igreja na Etiópia: At:8:26-39.



Parece ser evidente que Paulo não foi o único missionário trabalhando fora da palestina. Além das viagens de Barnabé e Marcos (At:15:39), há referência a outros em Rm:15:19-20.



No período apostólico de expansão do evangelho, o NT relata a presença de crentes nos seguintes lugares sem nos indicar quem o levou ou como ouviram: Roma, Bitínia, Mísia, Pontus, Capadócia (1aPe1:1), Tiro, Sidom, Puteoli (perto de Nápoles). Tudo isso parte da obra missionária paulina.



2.Expansão no Império Romano Leste



Nos dados fragmentários que temos podem ser observado algumas regiões. Na Fenícia a fé cedo parece ter sido mais forte do que na própria Palestina. Entretanto é provável que aqui, como em quase todo o império, o cristianismo era um fenômeno urbano, desenvolvendo-se especialmente nas cidades costeiras. Tiro possuia uma igreja muito forte.



Na Síria se desenvolveu duas comunidades cristãs: a de fala grega que teve seu início em Antioquia e que se expandiu nas comerciais às cidades de fala grega na Síria. Embora a igreja de Antioquia possa ter sido bilíngue desde cedo, a comunidade de fala siríaca teve seu núcleo principal ao leste na cidade de Edessa. Foi de aqui que expandiu o cristianismo siríaco. A força da igreja na Síria pode ser constatada pela presença de 20 bispos seus no Concílio de Nicéia em 325.



Na Ásia Menor, foi área de trabalho de pelo menos dois apóstolos, Paulo e João, o cristianismo tinha sido adotado mais largamente do que qualquer outra região grande do Império até o fim do III século. Seu crescimento maior parece ter sido nas cidades onde a cultura local estava desintegrando-se diante do impacto da cultura que chegava a greco-romana. Nas cidades helênicas era menor e nas cidades onde a educação helenista era desconhecida era quase inexistente.. A carta de Plínio ao imperador Trajano na segunda década do II século atesta a larga expansão do cristianismo nas cidades e até no quadro rural de Bitinia.



Apesar da obra missionária de Paulo o número de cristãos na Grécia e nas Balcãs parece ter permanecido minoria até a ascensão de Constantino Os dados da época apostólica até o período de Marco Aurélio os dados são extremamente.



3.Expansão no Império Romano Africano



Quanto ao Egito a tradição faz de Marcos o missionário que lá plantou o evangelho. Sabemos que Apolo era de Alexandria, mas não sabemos se converteu-se lá ou se voltou para lá após sua conversão. Até o fim do segundo século a igreja já estava forte. Já incluia várias linhas teológicas, das quais uma das mais fortes foi o gnosticismo. Em Alexandria se desenvolveu mui cedo a famosa escola catequética em que teve entre seus professores Clemente e Orígenes. Já neste período traduções de porções das Escrituras foram feitas em línguas indígenas dando condições para o desenvolvimento da Igreja Copta.



A costa do norte da África o cristianismo se alastrou cedo especialmente nas regiões da Líbia, Tunísia, e Algeria. O progresso do cristianismo nesta região parece ter sido muito rápido, especialmente no III século. É de aqui que surgiu Tertuliano, Cipriano e, mais tarde, Agostinho. A igreja parece ter sido mais forte nas cidades e entre a população que falava latin.



4.Expansão no Império Romano Europeu



Na Itália. O evangelho chegou a Roma antes de Paulo, mas talvez não muito antes da agitação que resultou na expulsão dos judeus sob Cláudio (41-54) por causa dum certo "Chrestus. Cf. At:18:1-3. Até 250 a igreja em Roma cresceu sobremaneira. Uns calculam 30.000 membros; outros acham que foram muito mais. Até meados do III século na Itália havia cerca de 100 bispos. Com a expansão rápida do cristianismo que ocorreu nas últimas décadas daquele século, calcula-se que quase toda a cidade no centro-sul e na Sicília tinham um núcleo de cristãos. A penetração do norte da Itália foi bem mais lenta e veio da Dalmacia e regiões ao leste.



A Espanha, embora romanizada antes da África, foi muito mais lenta em receber o Evangelho. Cedo no III século o cristianismo parece firmemente estabelecido no sul, nas cidades costeiras.



5. Avanço do Cristianismo ao Leste Além dos Límites do Império Romano



A tradição indica que Tomé foi aos Partos e a Índia; Mateus a Etiopia; Bartolomeu a Índia e André aos citos.



Edessa estava localizada nas grandes rotas comerciais que corriam entre as montanhas da Armênia ao norte e os desertos da Síria ao sul. Até o fim do II século estava fora do império romano e dentro da esfera da influência dos Partos. A sucessão de bispos remonta a fins do II século. Embora centro de cultura grega, o cristianismo de Edessa era siríaco. No início do III século poucas cidades continham mais crentes que Edessa. Até o fim do século parece que ela estava predominantemente cristã. Edessa parece ter sido o ponto donde o evangelho penetrou mais na Mesopotâmia e até os limites da Pérsia.



As antigas religiões da Babilónia e da Assíria estavam em desintegração e não ofereceram muita oposição ao cristianismo. A oposição surgiu principalmente do zoroastrismo que mais tarde se tornou a religião do Estado persa (meados do III século). Os primeiros convertidos aparecem cerca de 100 a.D. Até o fim do primeiro quartel do III século havia mais de 20 dioceses na Mesopotâmia.



No leste o cristianismo não só não teve os mesmos êxitos que conseguiu no império, como também eventualmente quase desapareceu. Isto possivelmente se deva a três razões: A política religiosa dos Sassanidas (dinastia persa) que favoreceu o zoroastrismo. A forte hierarquia de este com o apoio da monarquia levantou uma forte resistência ao cristianismo. Também o próprio êxito do cristianismo no império, após sua adoção por Constantino, o tornou a religião do inimigo principal dos persas. E por último, a forma herética em que o cristianismo foi pregado



Recomendamos a leitura de: Gonzáles, Justo; A Era dos Mártires p.31-47 e Cairns, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos p.45-56

terça-feira, 3 de agosto de 2010

PAIS APOLOGÉTICOS: AURÉLIO AGOSTINHO (354-430)

Fora do círculo apostólico, difícil é achar um homem de maior estatura que Agostinho. Bispo, místico, santo, pregador, administrador, estudioso, teólogo, polemista, filósofo, historiador, epistolário, comentador, mestre e autor. Entre seus muitos livros, talvez estes 3 sejam os livros mais importantes; A Cidade de Deus, As Confissões, Sobre a Doutrina Cristã (Todos existem em português). É o pai do misticismo medieval, o monaquismo e o escolasticismo. dominou a teologia da Idade Média como autoridade maior. Calvino disse que poderia ter escrito a teologia dele dos livros de Agostinho. Além de intelectual, foi também místico. Confissões, orações e adoração faziam parte do seu regime diário. ‘E considerado o fundador da filosofia moderna porque lutou com conceitos como: o eu cônscio, a personalidade, o tempo, a história, o livre arbítrio, a verdade subjetiva. Por sua vez Agostinho foi muito influenciado por Platão.

1.A Odisséia Intelectual de Agostinho

Antes de tornar-se cristão (354-386), foi acordado para o amor à filosofia pela leitura de Hortesius de Cícero. Este livro trouxe 2 aspectos polares ao pensamento de Agostinho: a idéia de Deus como fonte do ser e da inteligência, e a idéia da alma como uma natureza espiritual que pode achar sua realização em Deus. Em Cartago, Agostinho se tornou adepto do maniqueismo,e embora ele talvez não passou de "ouvinte"durante os 9 anos (dos 19 aos 28 anos) que era ligado à heresia. Foi fascinado durante muito anos pela astrologia embora não tenha chegado a praticar adivinhação. após esfriar sua simpatia para com o maniqueismo, Agostinho passou pelo ceticismo e pelas especulações neoplatônicas.

Converteu-se aos 32 anos sob a pregação de Ambrósio de Milão. Tornou-se apologético e usou seus dons intelectuais e espirituais para combater as filosofias que outrora havia seguido. Negou o conceito maniqueu de que há uma união do bem e do mal na alma humana. Contra o ceticismo achou inegável que o homem possui pelo menos uma parte da verdade. Insiste contra os neoplatônicos de que há salvação em Jesus Cristo.

Da conversão ao episcopado, (386-396). Escreveu 3 livros em 6 meses para se preparar para o batismo: Contra os Acadêmicos; Vida Alegre e Providência Divina. Ao morrer seu filho Adeodatus em 389 escreveu A vera Religião, o Professor, e Música. Foi consagrado sacerdote em 391 e bispo em 395, ambos em Hipona.

Seu episcopado, (396-430). Iniciou suas Confissões em 397 e terminou-as em 399. Iniciou-se seu longo conflito com os donatistas em 398; e em 412 com os pelagianos. Mesmo rejeitando o donatismo, Agostinho adotou a hermenêutica de Ticônio, um dos seus líderes. Em seus últimos anos Agostinho se dedicou ao problema da relação entre a soberania divina e a responsabilidade humana. Graça de Cristo e o Pecado Original (418), A Predestinação dos Santos e o Dom da Perseverança (429)

A controvérsia donatista foi sobre a santidade da Igreja. Os donatistas estavam preocupados principalmente com questões de disciplina. Não podiam separa o caráter apóstata do bispo e do valor dos atos litúrgicos celebrados por ele. Assim o caráter imoral ou indigno do oficiante destruia a santidade e assim o efeito divino do sacramento. Agostinho rejeitou a ligação donatista entre a santidade da Igreja e a santidade empírica do clero. Escreveu 7 livros sobre batismo contra os donatistas, bem como 3 outros para responder 2 cartas de Petiliano. No fim Agostinho se ajuntou aos que usariam a força para trazer os donatistas de volta ao arraial católico.

A controvérsia contra o pelagianismo. Também ocupou bastante a vida de Agostinho, usou 3 volumes na coleção de seus ensinos. O monge Pelágio acusou Agostinho de heresia. O Problema focalizado foi o da relação entre o poder divino para salvar e a vontade humana para responder ao poder salvador. Agostinho admitia alguma liberdade humana, mas insistia que tanto o poder salvador como a resposta humana vem de Deus. O ensino de Pelágio era que Adão foi criado mortal. Ele teria morrido mesmo sem a queda. O pecado de Adão feriu apenas Adão. Cada um nasce inocente, mas de fato cai no pecado. Assim que haviam homens sem pecado antes de Cristo. Para Pelágio, ao nascer a criança tem vida eterna, mesmo sem o batismo. Perde-a ao praticar pecado concreto ao chegar à idade da razão (perto dos 7 anos). O batismo não regenera. O mal, por sua vez, é comunicado pelo mau exemplo dos homens. Assim tanto Adão como Cristo influenciam a raça. Assim que a graça é necessária para redimir do pecado. Deus dá a regeneração bem como a habilidade de agir. A lei tem o efeito de trazer os perdidos a Cristo.

O ensino de Agostinho. Para ele, o pecado de Adão é transmitido a todos os homens pela semente humana, rm:5:12. também ensina que Adão foi nosso representante. distinguiu entre "voluntas"(vontade com capacidade de agir) e "velleitas"(desejo sem liberdade para agir). Os eleitos tem "voluntas"; os perdidos "velleitas. A graça que liberta o homem é preveniente e irresistível. Não há em Agostinho o conceito de dupla predestinaçào. Rejeita o dualismo maniqueu. O mal é ausência do bem. A criação tende a voltar ao não-ser donde surgiu.

Desde o seu retiro a Cassiciacum para se preparar para o batismo, Agostinho viveu nas Escrituras. Acima de tudo era um estudante da Bíblia. Todos os seus sermões tem por base as Escrituras: ou o texto do calendário ou outro por ele escolhido. Seu vocabulário e estilo são permeados com a maneira antiga e rude das antigas traduções latinas da Bíblia. Começou com a interpretação alegórica de Ambrósio (a Bíblia falava do mundo das idéias eternas). Mas o estudo o levou a ser preocupado com os eventos históricos. A sua interpretação continua influenciando os teólogos de hoje.



Recomendamos a Leitura de: Gonzales, Justo. A Era dos Gigantes p.162-182

sexta-feira, 30 de julho de 2010

ORIGEM E DESENVOLVIMENTO DO PAPADO


A autoridade monárquica do papa, hoje muito patente sobre a Igreja Católica Romana, é fruto de um longo processo. De um bispo igual aos outros, o de Roma passa a ser o primeiro entre os demais e finalmente cabeça incontestável da Igreja. Sem dúvidas que uma série de elementos contribuiram para este desenvolvimento. Para citar alguns dos mais óbvios temos: Uma linha contínua de bispos ortodoxos, com poucas excessões, nos séculos de formação e expansão e poder. Vários papas de grande envergadura, dos quais devemos citar: Inocêncio (402-417); Celestino (422-432); Leão I (440-461); e Gregório I (590-604). Também ajudou a situação caótica da administração do Império no oeste, dando oportunidade aos papas não só escaparem da tutela do imperador, como também serem elevados ao nível de representantes deste. Ajudou também o uso, devido ou não, dos escritos de Irineu e Cipriano que destacavam a primazia de Roma. Mais tarde seriam acrescentados os documentos falso, tais como a "Doação de Constantino"e os "Decretos de Isidoro". Ao mesmo tempo construiram sobre o conceito agostiniano da Cidade de Deus, sendo esta dirigida da nova Jerusalém, Roma. E por último, a conversão do povos quer posteriormente formariam a Inglaterra, França, Alemanha e o norte da Italia foi estritamente ligada ao apostolado da Igreja de Roma.

1.Até Constantino

Os antigos autores católicos tenham insistido que a Igreja de Roma foi fundada por Pedro e que tenha tido uma linha de papas, vigários de Cristo, desde então. Oscar Cullmann, teólogo protestante, examina detalhadamente a questão de Pedro ter estado em Roma. Conclui que estava lá e lá foi martirizado. Nega entretanto que tenha fundado a Igreja ou passado seus direitos aos bispos subsequentes.. Também temos que Inácio, em princípios do II século, escreveu aos cristãos em Roma. Endereçou a carta à Igreja e não a seu bispo. Todas as outras cartas de Inácio são endereçadas aos bispos das Igrejas. A diferença é significativa.

A lista dos primeiros bispos consta destes nomes: Lino, Cleto ou Anacleto, Clemente (91-100), Evaristo, Alexandre(109-119), Sixto I (119-127), Telesforo (127-138), Higino (139-142), Pio I (142-157), Aniceto (157-168), Soter (168-177), Eleutero (177-193). Estas datas são aproximadas e temos poucas informações do seu pontificado.

Vitor (193--202). Parece ser o primeiro a procurar estabelecer a autoridade papal além das fronteira de sua igreja.

Cipriano. Bispo em Cartago durante o pontificado de Cornêlio e Estevão, contribuiu bastante para fortalecer a autoridade do bispo de Roma. Defendeu as reivindicações petrinas (Mt:16:18) sem entretanto colocar o papa sobre os demais bispos.

Estevão (253-257). Procurou forçar as demais igrejas a seguir o costume romano quanto ao cálculo da data da páscoa.

Um outro elemento que contribuiu para fortalecer a posição de Roma neste período foi a crescente prática das igrejas rurais ou de pequenas cidades serem relacionadas a alguma igreja em cidade grande ou incorporadas num sistema diocesano. Esta prática começou no II século como resultado do sistema missionário das igrejas mães.

2.De Constantino a Gregório Magno

A oficialização da Igreja trouxe em seu bojo rápido desenvolvimento hierárquico. O declínio do Império e sua queda no oeste acelerou ainda mais este processo, particularmente em relação as igrejas ocidentais. Constantino se considerava bispo e até bispo dos bispos em coisas formais e até doutrinárias. Sem sua permissão não se pode reunir um sínodo. sua atuação preparou o caminho para o bispo de Roma se tornar "a episcoporum", como o foi a remoção do governo à Constantinopla.

Roma surge como árbitro entre as igrejas. No conflito entre os arianos e Atanásio, este contribuiu para fortalecer Júlio por ter recorrido ao bispo de Roma, pedindo que convocasse um concílio. Esta e outras questões entre as igrejas do leste e da África foram exploradas pelos papas para fortalecer suas próprias posições. Logo que Damasso foi eleito papa (366), Valentinian e Gratian promulgaram um edito que versava que o bispo de Roma deve ouvir e resolver disputas entre outros bispos. Assim questões religiosas seriam resolvidas pelo "sumo-pontífice"de religião e não pelos magistrados civis.

Siricius (354-398). Conseguiu que um concílio realizado em Roma decretasse que nenhum bispo deve ser consagrado sem o conhecimento e consentimento do bispo de Roma. Mesmo que seja um decreto falso, é muito antigo e exerceu grande influência.

Inocêncio I (402-417). Demonstrou grande ousadia em explorar as reivindicações de Roma, exigindo submissão universal a sua autoridade. Nomeou Rufo bispo de Tessalônica. É a primeira vez que um bispo de Roma nomeia bispo para Iliricum. Insistia que era a obrigação de todas as igrejas ocidentais se conformarem aos costumes de Roma. Afirmava que todas as questões eclesiásticas no mundo devem ser, por direito divino, remetidas à sé apostólica para lá serem decididas. Esta nova reivindicação foi imediatamente rejeitada pelas igrejas da África. Mesmo assim , é a Inocêncio I que a eventual grandeza da Sé de Roma é devida.

Celestino (422-432). durante o exercício do seu papado foi resolvido a mui agitada questão do direito de apelar a Roma decisões nas províncias. Celestino manipulou as questões de uma maneira que sempre saia ganhando o prestígio de Roma, até o ponto de dispensar os cânones de um concílio geral (questão da transferência de bispos de uma sé a outra).

Leão I (440)-461). Homem humilde, insistia que era sucessor de Pedro e que não se pode infringir a autoridade deste. Conseguiu do jovem e fraco imperador Valentino III um edito em que este reconhece a primazia da sé de Pedro e insiste que ninguém pode agir sem a permissão desta sé. No Concilio de Calcedônia (451) os delegados de Leão condenaram um bispo em nome dele, como se fosse por autoridade dele. A este mesmo concílio Leão reclamou bastante porque em um dos seus cânone Constantinopla é elevada ao nível de Roma em direitos e privilégios. A estatura de Leão foi bastante fortificada quando conseguiu interceder com o inimigo e assim salvar Roma em 455 de ser destruída pelos vândalos.

Gregório I (589-604). Possivelmente o maior papa deste período. filho de um senador, adotou o costume monástico. Pretendia ser missionário aos ingleses quando foi consagrado papa aos 49 anos de idade. Reclamou que Máximo foi eleito patriarca de Constantinopla no lugar de seu candidato e suspendeu todos os bispos que o consagraram sob pena de anátema de Deus e do apóstolo Pedro. Repreendeu o patriarca de Constantinopla por ter assumido o título de bispo ecumênico. Eventualmente Máximo foi humilhado pela pressão de Gregório e teve que submeter-se a Gregório.


Recomendamos a leitura de: Cairns, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos. p.127-136

sábado, 17 de julho de 2010

A IGREJA NA HISTÓRIA - FORMAS DE ORGANIZAÇÃO

Podemos distinguir quatro padrões gerais, embora muitos grupos não se enquadrem exatamente em nenhum deles.


1. Episcopal

É o governo por meio de bispos (episkopoi). É a ordem adotada pelas igrejas anglicana, luterana, metodista (esta com modificações). Um ministério triplo é mantido, abrangendo bispos, pastores (principalmente o clero local, que exerce a liderança nas igrejas e nas paróquias) e diáconos/diaconisas, que trabalham como auxiliares da igreja. Na prática, os diáconos são quase sempre pastores-aprendizes. Só os bispos podem ordenar outros para o ministério e eles traçam a sucessão através dos séculos. Este sistema não tem como reivindicar base bíblica, no sentido de que o Novo Testamento apresente alguma exigência indiscutível quanto ao assunto. Os estudiosos de todas as tradições aceitam hoje a idéia de que os termos episkopos (bispo) e prebyteros (ancião) são equivalentes no Novo Testamento (At 20.17,28; Fp 1.1; Tt 1.5,7). Assim sendo, a idéia da palavra bispos no Novo Testamento não é em geral aquela encontrada no sistema episcopal. Eles eram oficiais da igreja local, havendo quase sempre alguns servindo na mesma igreja, segundo o modelo dos anciãos do Antigo Testamento, na sinagoga judaica.

Por outro lado, as igrejas episcopais destacam dois fatores significativos como apoio ao sistema. Primeiro, a presença de ministérios na igreja primitiva que transcendiam os da igreja local. Os apóstolos são o exemplo supremo neste caso; os profetas parecem Ter às vezes atuado nesse sentido. Timóteo, Tito e Tiago são vistos como exemplos especiais dessa terceira dimensão do ministério do Novo Testamento, desde que foram claramente investidos de responsabilidade sobre várias igrejas. Segundo, não pode haver dúvida de que a ordem de ministério tríplice retroceda quase até a era apostólica, sendo em meados do segundo século o padrão praticamente universal para o ministério cristão. Quando a igreja teve de enfrentar a perseguição extrema e a heresia em seu próprio meio, ela reforçou sua liderança oficial, principalmente o episcopado, a fim de fazer frente a esses desafios. Trata-se, portanto, de uma forma de ministério que provou ser de considerável valor para a igreja no decorrer dos séculos.



2. Presbiteriano

O governo por meio de anciãos (presbyteroi) caracteriza as igrejas Reformada e Presbiteriana em todo o mundo e, com certas modificações episcopais, o Metodismo. Os anciãos se reúnem geralmente num corpo central, como uma assembléia nacional, e nos presbitérios locais, com jurisdição sobre territórios geograficamente menores. Uma forma de presbiterianismo também opera onde uma igreja local é administrada por um grupo de líderes nomeados. Esta forma reivindica autorização bíblica direta, baseada no padrão do Novo Testamento, onde presbíteros são nomeados nas igrejas locais. Esses líderes aparecem consultando os apóstolos no Concílio de Jerusalém, em Atos 15. Entre os presbíteros na congregação local, um pode ser escolhido como presbítero-mestre, para administrar a Palavra e os sacramentos, à parte dos outros presbíteros administradores, que participam da liderança com ele (1 Tm 5.17). Em termos gerais, o governo é quase sempre exercido por um sistema de presbitérios, sínodos e concílios. O presbiterianismo também reconhece o direito de cada igreja participar da escolha dos pastores. Os diáconos realizam um ministério de apoio, ligado aos assuntos administrativos da igreja. De modo diferente dos episcopais, todos os pastores têm formalmente o mesmo status.



3. Congregacional (Independente)

É o governo através da igreja local em conjunto, seguido pelas igrejas batistas, congregacionais, pentecostais e outras igrejas independentes. A igreja local é a unidade básica: nenhum líder ou organização pode exercer qualquer autoridade sobre ela. Todas as decisões são tomadas por toda a igreja; o pastor, os diáconos e os presbíteros (se houver) acham-se no mesmo nível que os demais membros. Cada igreja local tem liberdade para interpretar a vontade de Deus sem interferência de outras igrejas ou grupos, embora na prática a maioria das igrejas independentes se una com outras de interesse comum. A ordenação para o ministério pode ser efetuada sem o envolvimento de outras igrejas, apesar de isso ser raro na prática; muitos congregacionalistas consideram essencial uma representação mais abrangente. O ministério é geralmente duplo, com pastores e diáconos, embora em alguns casos o pastor divida a responsabilidade espiritual com vários presbíteros. Algumas igrejas do tipo congregacional põem em dúvida a validade da idéia de nomear um determinado indivíduo para ministrar na congregação local.

Os congregacionalistas se baseiam no significado da igreja local no Novo Testamento. Como vimos, a Escritura faz uso da mesma linguagem, relativa à natureza da igreja, tanto para se referir à igreja local como à igreja universal. Além disso, não existe no Novo Testamento qualquer evidência quanto à imposição de grupos mais amplos ou oficiais de fora sobre a vida da igreja local, excetuando-se evidentemente os apóstolos ou seus representantes pessoais, como Tito e Timóteo. Subjacente a isso, acha-se a convicção de que a liderança de Cristo na igreja implica sua presença imediata entre o povo e o poder de transmitir a sua vontade sem a mediação de qualquer outro agente, quer pessoal ou corporativo.

Na prática, o congregacionalismo reconhece o valor da comunhão mútua e da cooperação entre as igrejas, embora não a ponto de restringir a suprema liberdade do grupo local para agir conforme a vontade do Senhor, segundo o seu discernimento.



4. Católico-Romano

O catolicismo é essencialmente uma expressão histórica específica do episcopalianismo. Existem sérios desvios das normas bíblicas em sua compreensão da igreja. O aspecto singular da organização católica é a primazia do Bispo de Roma, o Papa. A Igreja Católica difere outrossim das igrejas reformadas em seu conceito de um sistema eclesiástico sacerdotal, também encontrado nas igrejas ortodoxas do oriente e em algumas igrejas anglicanas.





Este breve resumo mostra que nem o sistema episcopal, nem o presbiteriano, nem o congregacional pode reivindicar o apoio total das Escrituras, embora isso possa ser negado por alguns, em cada tradição. Não queremos sugerir com isso que a evidência bíblica deva ser posta de lado e o assunto seja decidido em bases pragmáticas. Mas, a fim de nos identificarmos com o corpo de Cristo, precisamos unir-nos a um desses grupos, e um mínimo de compromisso com suas estruturas é algo essencial para dar significado à nossa adesão. Devemos reconhecer, entretanto, os limites assim como a extensão de nossas convicções em assuntos que não contradigam claramente o ensino bíblico e exercer aquele respeito mútuo fraternal que é o sinal que distingue o povo de Deus (Jo 13.14s).





FONTE: Conheça a Verdade Estudando as Doutrinas da Bíblia de Bruce Milne

Prefácio de J. I. Packer

Este artigo foi publicado no antigo portal Textos da Reforma

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A Bíblia Aberta: Herança da Reforma

Quando penso sobre a história do cristianismo, uma palavra sempre vem à mente: a palavra Zelo. O zelo pela Palavra de Deus que os cristãos tiveram para conservá-la cara e pura para que hoje pudéssemos conhecer o Caminho, a Verdade e a Vida Eterna. Mas percebe-se que o zelo varia no decorrer das épocas.


As Escrituras Sagradas são a pura e autêntica revelação da Palavra de Deus aos homens. Aos cristãos cabe o zelo de defendê-la, examiná-la, nela perseverar para que nos seja útil e nela nos seja revelado o caminho da Salvação.

O Zelo estava presente entre os apóstolos e a igreja apostólica quando perseveravam na doutrina. Mas os anos foram passando e o zelo dos cristãos diminuiu. Os homens, assim como Adão já fizera, ousaram ser iguais a Deus. Com as Escrituras fechadas passaram a promulgar "revelações", que se tornavam doutrinas. O zelo pela Palavra esvaziou e a ousadia em "revelar" chegou ao ápice quando as tornaram doutrina com a mesma autoridade da Bíblia, e, por vezes, até superior. Assim, aos poucos, a Bíblia fechada deu espaço às "revelações de doutrinas" promulgadas com fins humanos, pecaminosos e interesseiros atendendo aos anseios de poder e à astúcia política, chegando-se ao extremo de vender perdão dos pecados e o próprio céu como hoje se vende ingressos de cinema ou teatro.

Entretanto, a Palavra de Deus continuava viva e eficaz como espada de dois gumes. Ela não transformava corações e vidas porque estava fechada e inacessível às pessoas. Foi por causa dos interesses heréticos da cúpula da igreja que a Bíblia foi isolada do povo para que ninguém se "tornasse sábio para a Salvação" (1 Timóteo 3.15).

Mas a Igreja do Senhor Jesus tinha a promessa: "As portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mateus 16.18). Deus sempre manteve homens fiéis às Sagradas Letras, e, ainda, em tempo oportuno, usou de forma especial seus homens de fé para colocar a Bíblia de volta ao Púlpito, tornando-a o centro da igreja cristã. Para tanto usou homens de diferentes épocas, culminando no Dr. Martinho Lutero, quando desencadeou-se o movimento que conhecemos como Reforma Protestante (31/10/1517).

Foi em Lutero que a Bíblia passou a ser um livro aberto para o povo, quando fez a tradução para a sua língua nacional (Novo Testamento, em 1521, e a Bíblia completa, em 1534). As Escrituras foram colocadas à venda através da recém descoberta imprensa, por um custo 280 vezes menor do que as bíblias latinas manuscritas. Para Felipe Melachthon, "a tradução da Bíblia foi uma das maiores maravilhas que Deus realizou por intermédio de Lutero, antes do fim do mundo".

O crescimento e a força de retorno às Escrituras não foi mérito isolado da retórica, perspicácia e argumentação dos reformadores (Lutero, Melanchthon, Calvino, Zwinglio e outros) que deram o impulso da recristianização do povo. Foi a Bíblia aberta e compreensível que tornou o povo "sábio para a Salvação". É claro que existiu ambiente político, social e religioso favoráveis, mas a Bíblia aberta nas mãos do povo é que fez a diferença, pois a Bíblia é Deus falando aos corações das pessoas.

O que me preocupa é que hoje o filme começa a se repetir. Estão se proliferando instituições religiosas que, em nome da espiritualidade dos seus líderes, fecham as Escrituras para receberem revelações através da oração, da meditação ou diretamente do Espírito Santo. Em geral faltam critérios e não há quem "examine as Escrituras" para comprovar a veracidade. A Igreja Medieval também não teve a intenção de se afastar da verdade, mas quando a Bíblia foi fechada para serem ouvidas "palavras santas" ditas por "homens de fé", a igreja entrou em decadência. Hoje corremos este risco, pois, além de certas revelações tornarem-se ensino de igrejas, já surgem instituições que detêm ao seu líder o privilégio do contato com Deus e a revelação a ser seguida. Isto, sem contar que muitas doutrinas são ensinadas sem qualquer fundamento bíblico.

Amados pastores e leigos em geral, a nossa preocupação não questiona o poder do Espírito Santo e suas manifestações, pois isto é bíblico, mas chamamos a atenção ao que se faz e atribui ao Espírito Santo para alimentar poder e pensamento de homens. O Espírito, que continua o mesmo, não contradiz a revelação dada à cristandade – A Bíblia. Surgem doutrinas e preceitos sem fundamentação bíblica, ditados em nome de revelações sobrenaturais. Penso que se evidencia a advertência do apóstolo Paulo: "Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes que não pouparão o rebanho" (Atos 20.29). A Bíblia fechada e homens loquazes são instrumentos importantes para Satanás perturbar a igreja cristã.

Zelemos pela revelação Bíblica, devolvida ao povo com a Reforma; ela é a Herança dos Céus para a Salvação da Humanidade (Jo 20.30,31). Nesta obra não estamos sozinhos nem isolados, mas esta é uma obra própria de Deus para que as portas do inferno jamais prevaleçam contra a Igreja. O discernimento é um Dom de Deus que ele nos dará para o bem da igreja.

Para nós dirige-se a Palavra: "Vigiai e Orai" (Mateus 26.41) e a promessa: "Estarei convosco" (Mateus 28.20).

Por Rev. Airton S. Schroeder

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Colarinho Clerical


ORIGEM E SIGNIFICADO
O uso de vestes especiais por parte dos oficiais da igreja serve para representar o seu ministério entre o povo. Entre estas vestes especiais se destaca o colarinho clerical. Este é normalmente o colarinho de uma camisa ou colete com uma aba branca destacável frente. Originalmente era feito de algodão ou linho, mas normalmente é feito hoje de plástico. Às vezes (especialmente na prática católica romana) a aba é fixa com um colarinho que cobre quase completamente, deixando um quadrado branco pequeno à base da garganta. Em muitas igrejas e em muitos locais, por não saberem da origem e do significado, não se aceita o uso de colarinho clerical. Com a devida orientação os cristãos passarão a entender a conveniência e a oportunidade do seu uso.

Origem e uso: O colarinho clerical é uma invenção bastante moderna (é provável que tenha sido inventado em 1827). Aparentemente, foi inventado pelo Rev. Dr. Donald McLeod, pastor anglicano. Foi desenvolvido para ser usado no trabalho cotidiano do ministro (mais prático que a batina). Hoje é usado por pastores nas diversas denominações Cristãs como presbiteriana (é dito que o colarinho clerical se originou na Escócia), luterana, metodista, pentecostais e, também, por ministros Cristãos não denominacionais. Os católicos romanos passaram a usá-lo a partir do Concilio Vaticano II, em substituição a batina, em situações especiais, essa adoção deve-se aos padres Jesuítas. É usado por todos os graus de clero: bispos, presbíteros (padres) e diáconos, e também por seminaristas. Na tradição Oriental, às vezes, os subdiácono e leitores também o usam.

Significado: O colarinho clerical simboliza que quem o usa é um servo, pois este colarinho estava ao redor do pescoço dos escravos no mundo antigo. As pessoas que o usam servem como Ministros de sua Palavra. Toda a igreja tem compromisso com o testemunho de Cristo no mundo, no entanto, o pastor compromete-se de modo específico com o Ministério da Palavra. Assim, o colarinho clerical simboliza esse compromisso pastoral com o anúncio do Evangelho. O colarinho branco sobre fundo preto envolvendo a garganta é simbólico da Palavra de Deus proclamada.

Relevância: O uso de símbolos é um sinal e um testemunho vivo de Deus no mundo secularizado. Pois uma das características do movimento de secularização o desprezo por sinais e símbolos religiosos. Para as pessoas o fato de ver um ministro com o colarinho clerical já é um testemunho de fé. Assim como vendo um militar lembramos-nos da Lei, e vendo um enfermeiro (a) com seu uniforme branco lembramos o hospital. Igualmente é válido para os pastores que freqüentam lugares públicos usar o colarinho clerical.

Conclusão: O Revmº. Robinson Cavalcanti, Bispo anglicano, testemunha: “Sempre viajo, e me dirijo a eventos públicos, vestido de colarinho clerical (clergyman), sem vergonha de ser cristão e de ser ministro do Evangelho. Se pouquíssimas vezes fui por isso hostilizado na Universidade, perdi a conta das centenas de oportunidades para testemunhar de Cristo, a partir desse aspecto visual”. Em nosso mundo dessacralizado, os símbolos não podem ser esquecidos. Não podemos nos conformar com o século. O colarinho clerical é um símbolo importante. Sacraliza visivelmente o mundo sinalizando a dedicação ao ministério.

Recebi este texto através de e-mail pelo Rev. Jaziel Cunha, Igreja Presbiteriana Conservadora.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Lutero e as consequências da Reforma

E aí,são de fato consequências da reforma? ou não? aguardamos comentários...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Feliz 31 de Outubro com mais Huss e menos Lutero

Há 491 anos as “marteladas retumbantes” do monge agostiniano Martinho Lutero puseram fim a um longo e doloroso processo de tentativa de “reforma” da então única igreja cristã do ocidente. A partir do século V, com a chamada “pretensão petrina”, a igreja romana intensificou um verdadeiro processo de afastamento das Sagradas Escrituras. Desde então, muitos se levantaram contra esses desvios e desmandos do clero. Muitos morreram - fato comum aos verdadeiros profetas da verdade -, servindo, alguns, de combustível para as fogueiras romanas. Não é necessário repetirmos quantas vidas foram “doadas” em prol dessa “Reforma”.
Mas, o fato é que Lutero, apesar de ter a mesma intenção dos chamados pré-reformadores, isto é, o retorno da igreja ocidental às Escrituras Sagradas - reforma -, não conseguiu, pelo menos no que diz respeito à igreja visível, atingir seu objetivo. Na verdade, o que houve foi uma “ruptura” e a formação de outro grupo religioso e não a intentada reforma da igreja que já existia. As bruscas atitudes de Lutero, em relação a Roma, e suas pesadas “afirmações significaram seu rompimento definitivo e irrevogável com a igreja papal” (NICOLLS, 2002, p.159). Como bem sabemos, mesmo antes do século XVI, a insatisfação com a igreja papal era geral.
Protestos e levantes ocorriam em todas as partes do mundo. Isso nos faz levantar as seguintes questões:
será que a “Reforma” não ocorreria, naturalmente, dentro da própria igreja romana se não tivesse havido a ruptura Luterana?
Será que Lutero não se precipitou na empolgação dos importantes apoios políticos que recebera?
O que diriam os chamados “pré-reformadores” que “doaram” suas vidas para que a igreja fosse “reformada”, se tivessem a oportunidade de saber que não foi isso que ocorreu?
O que diria John Huss, queimado em Constança, tendo sido violado o seu salvo-conduto?
Se a igreja não foi “reformada”, morri em vão?

Devemos aprender com a história. Fala-se muito que a IPB precisa, urgentemente, passar por uma “nova reforma”. Novos “Luteros - Presbiterianos”, têm surgido, com o “mesmo martelo na mão”, dispostos, inclusive, a provocarem “novas rupturas”. É isso que queremos? Certamente que não! Não podemos negar que muitos líderes da IPB (e não a IPB) estão, perigosamente, se desviando das verdades escriturísticas, sistematizadas através dos seus símbolos de fé: Confissão e Catecismos de Westminster. Contudo, “atitudes isoladas” - quem sabe motivadas pela cobiça à fama de Lutero – em nada contribuem para a melhoria da IPB como instituição.
Por que todos querem ser Lutero e não Huss? Todos que amam as “antigas doutrinas da graça” e que querem a firmeza doutrinária da IPB devem “doar” suas vidas, assim como fez John Huss, em busca desse objetivo e não dar “marteladas” anacrônicas, fixando posturas extremadas que só servem para dividir, torná-los chatos e criar antipatia pelos ideais da reforma protestante.
--------------------------------------------------------------
Presb.Fábio Correia Secretário de Educação Religiosa do Presbitério Recife - PRRE. Mestre em Filosofia pela UFPE, Licenciado em Educação Religiosa pelo SPN, Licenciado m Filosofia pela Unicap, Professor de Filosofia da Faculdade Decisão-PE.