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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Os credos da Reforma

Importância e objetivo dos credos

Os credos da Reforma são as confissões de fé e os catecismos produzidos nesse período ou sob sua inspiração teológica.

Os séculos IV e V foram para a elaboração dos credos [Credo de Nicéia, Credo de Calcedônia] o que os séculos XVI e XVII foram para a feitura das confissões e dos catecismos. A razão parece evidente: na Reforma, as igrejas logo sentiram a necessidade de formalizar a fé, apresentando sua interpretação sobre diversos assuntos que as distinguiam da Igreja Romana. Com o tempo, surgem outras denominações, que discordavam entre si sobre alguns pontos, o que gerou a necessidade de estabelecer princípios doutrinários próprios.

Calvino afirmou que a fé deve ser "explícita", mas ressaltou que muito do que cremos permanecerá nesta vida de forma implícita por duas razões: a) nem tudo foi revelado por Deus; b) nossa ignorância e pequenez espiritual. Por isso, o ensino e estudo constantes da Palavra do Senhor são necessários, a fim de que cada homem, responsável diante de Deus, tenha condições de se posicionar diante do Criador de forma consciente. [15] A fé explícita é patenteada pela Igreja mediante o ensino da Palavra.

Essa necessidade determina o uso da razão, a fim de apresentar a doutrina de forma mais razoável possível e simples ao mesmo tempo. Amplitude e simplicidade são dois marcos do ensino ortodoxo. O ser humano é responsável diante de Deus, a quem dará contas de si mesmo; portanto, tendo oportunidade, ele precisa conhecer devidamente a Palavra do Senhor em toda a plenitude revelada.

Essas declarações de fé precisavam ser, até certo ponto, completas e simples, para que o cristão não iniciado nas questões teológicas pudesse entender o que estava sendo dito, confrontar esse ensinamento com as Escrituras e assim compreender biblicamente sua fé. Esta não deveria ser apenas "implícita", [16] mas "explícita".


Os catecismos


Nesse contexto e com objetivos eminentemente didáticos surgem os catecismos (do gr. katekhéo = "ensinar", "instruir", "informar"; cf. Lc 1:4; At 18:25; 21:21,24; Rm 2:18; 1Co 14:19; Gl 6:6), constituídos, em boa parte, de perguntas e respostas. Até o século XVI, a palavra catecismo não fora usada nesse sentido. [17] Os catecismos visavam à instrução de crianças e adultos, e isso contribuiu decisivamente para sua proliferação, sendo que a maioria jamais passou da forma manuscrita, visto que muitos pastores os elaboravam apenas para a congregação local, objetivando atender necessidades doutrinárias.

A primeira obra a receber o título catecismo foi o de Andreas Althamer (c. 1500-1539) em 1528. [18] Os mais influentes no século XVI foram, porém, os de Lutero (1483-1546): o Catecismo maior (1529) e o Catecismo menor (1529), em cujo prefácio Lutero declara por que o redigiu e apresenta sugestões de como ensiná-lo à congregação. Ele quase sempre inicia os capítulos com este teor: "Como o chefe de família deve ensiná-lo com toda a simplicidade à sua casa", e outras expressões afins. A respeito de suas motivações, ele declarou: A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também eu fui visitador, [19] é que me obrigou e impulsionou a preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes para a obra do ensino. [...] Não sabem nem o Pai-Nosso, nem o Credo, nem os Dez Mandamentos. [20]

Mais tarde, Calvino elaborou um catecismo intitulado Instrução e confissão de fé, segundo o uso da Igreja de Genebra (1536-1537). [21] Desde 1561, todo ministro da igreja deveria jurar fidelidade aos ensinamentos nele expressos e comprometer-se a ensiná-los.


As confissões


Basicamente, as confissões não foram feitas para a instrução na fé cristã (essa era a função dos catecismos). Elas poderiam ser produzidas individualmente para uso privado (A segunda confissão helvética); por um concílio de uma igreja em particular (Cânones de Dort); por um indivíduo que age como representante de sua igreja (Confissão de Augsburgo); por um grupo de teólogos convocados pelo Estado (Confissão de Westminster); ou escrita como defesa de sua fé durante terrível perseguição (A confissão dos valdenses) etc.

Não havia regra para a elaboração de uma confissão; os contextos eram variados. Apesar de haver motivações comuns a todas elas, existiam circunstâncias especiais que conduziam a determinadas ênfases, especialmente no que se refere às questões relativas ao governo e à Igreja Romana.

Isso levanta o problema da unificação das confissões. Em 1530, Carlos V, imperador da Alemanha, convoca a Dieta de Augsburgo, cujo objetivo era a unificação político-religiosa dos seus domínios. Nasceu então a Confissão de Augsburgo, redigida por Melanchthon, com o consentimento de Lutero. O imperador não a aceitou e proibiu sua divulgação; mesmo assim, em pouco tempo, ela foi propagada em toda a Alemanha.

Calvino entende que a divergência em questões secundárias não deve servir de pretexto para a divisão da igreja; afinal, todos, sem exceção, estão envoltos de "alguma nuvenzinha de ignorância". [22] Após argumentar contra aqueles que chamavam os reformados de hereges, ele ressalta que a unidade cristã deve ser na Palavra, baseando-se em Efésios 4:5, Filipenses 2:1,5 e Romanos 15:5. [23]

Para os irmãos refugiados em Wezel (Alemanha), que sofriam diversas pressões dos luteranos e sobreviviam numa pequena igreja reformada, Calvino, em 1554, os consola mostrando que, apesar dos grandes problemas pelos quais passavam o mundo, Deus lhes havia concedido um lugar onde poderiam adorar a Deus em liberdade. Também os desafia a não abandonarem a igreja por pequenas divergências nas práticas cerimoniais, sendo tolerantes a fim de preservar a unidade. Contudo, os exorta a jamais fazerem acordos em pontos doutrinários. [24] Mesmo desejando a paz e a concórdia, Calvino entendia que essa paz nunca poderia ser em detrimento da verdade, pois, se assim fosse, essa "paz" seria maldita. [25]

Respondendo a uma carta de Thomas Cranmer (1489-1556) [26] convidando-o para uma reunião com o objetivo de preparar um credo que fosse consensual para as igrejas reformadas, Calvino, mesmo não podendo ir, o encoraja a manter esse objetivo. [27] A certa altura diz: "... Estando os membros da Igreja divididos, o corpo sangra. Isso me preocupa tanto que, se pudesse fazer algo, eu não me recusaria a cruzar até dez mares, se necessário fosse, por essa causa". [28]

Já no século XVII, algum progresso nesse sentido é evidente, através de formulações doutrinárias mais completas e também após passar o primeiro ardor apaixonado e exclusivista, ainda que surgissem novos debates teológicos nos séculos XVII e XVIII, no período denominado "ortodoxia protestante". Mesmo assim, as diferenças permaneceram, mas não ferem pontos cruciais da Reforma, como: A Bíblia como autoridade final, a justificação pela graça mediante a fé, o sacerdócio universal dos santos, a suficiência do sacrifício de Cristo para nos salvar etc.

Assim, os credos da Reforma tinham três objetivos específicos:

01. Evidenciar os fundamentos bíblicos de seus ensinos.

02. Demonstrar que suas doutrinas estavam em acordo com os principais credos da Igreja (Apostólico, Niceno, Constantinopolitano).

03. Demarcar sua posição teológica em relação à teologia romana e às demais correntes provenientes da Reforma.

As confissões provenientes da Reforma (sécs. XVI e XVII) são divididas em dois grupos: luteranas e calvinistas (reformadas).

Principais catecismos e confissões: subsídios históricos


Confissão gaulesa (1559)


Foi escrita por Calvino e seu discípulo Antoine de la Roche Chandieu (De Chandieu) (1534-1591), provavelmente com a ajuda de Theodore Beza (1519-1605) e Pierre Viret (1511-1571). No Sínodo Geral de Paris (26-28/5/1559), reunido secretamente, ela foi revista e ampliada. Calcula-se que a França possuía 400 mil protestantes, [29] existindo em fins de 1561 mais de 670 igrejas calvinistas. [30]

Em 1571, realizou-se o Sétimo Sínodo Nacional de La Rochelle, no qual essa confissão foi revisada, reafirmada e solenemente sancionada por Henrique IV, passando a ser chamada também de Confissão de Rochelle. A Confissão gaulesa influenciou profundamente a Confissão belga (1561) e a Confissão dos valdenses (1655).


Confissão escocesa (1560)


Foi escrita sob a liderança de John Knox (1505-1572) e adotada pelo Parlamento escocês em 17/8/1560, sendo ratificada em 1567. Em 1572, todos os ministros tiveram de subscrevê-la. Ela permaneceu como confissão oficial da Igreja Reformada Escocesa até 1647, quando então a Igreja adotou a Confissão de Westminster.


Confissão belga (1561)


Inspirada na Confissão gaulesa, foi escrita em francês em 1561 por Guido (ou Guy, Wido) de Brès (1523-1567) e outros, sendo revisada e publicada em holandês em 1562, chegando a ocupar lugar de suma importância na Igreja Reformada Holandesa. [31] Foi aprovada no Sínodo de Antuérpia (1566), no de Ambères (1566; após revisão) e em Wessel (1568), e adotada pelo Sínodo Reformado de Emden (1571), pelo Sínodo Nacional de Dort (1574), Middelburg (1581) e pelo grande Sínodo de Dort (29/4/1619), que a sujeitou a minuciosa revisão, comparando a tradução holandesa com o texto francês e latino. Foi traduzida para o holandês (1562) e para o inglês (1768).

A Confissão belga e o Catecismo de Heidelberg (veja mais adiante) são os símbolos de fé das Igrejas Reformadas na Holanda e Bélgica, sendo também o padrão doutrinário da Igreja Reformada na América e na Igreja Evangélica Reformada Holandesa no Brasil.


Trinta e nove artigos da Igreja da Inglaterra (1563)


Em 1552, o arcebispo de Cantebury, Thomas Cranmer, elaborou com outros clérigos Quarenta e Dois Artigos da Religião; após minuciosa revisão, foram publicados em 1553 sob a autoridade do rei da Inglaterra, Eduardo vi. Mais tarde, esses Artigos foram revistos e reduzidos a 39 pelo arcebispo de Cantebury, Matthew Parker (1504-1575), e outros bispos. Esse trabalho de revisão e redução foi ratificado pelas duas Casas de Convocação, sendo os Trinta e nove artigos publicados por autoridade do rei em 1563. Em 1571, tornou-se obrigatória a subscrição desses Artigos por todos os ministros ingleses.

Os Trinta e nove artigos e o Livro de oração comum (1549) são os símbolos de fé da Igreja da Inglaterra e, com algumas alterações, das demais igrejas da Comunhão Anglicana.


Catecismo de Heidelberg (1563)


Foi escrita por dois jovens teólogos: Caspar Olevianus (1536-c. 1587), professor de teologia na Universidade de Heidelberg, que recebeu influência de Melanchton e de Peter Martyr Vermigli (1560-1562), e Zacharias Ursinus (1534-1583), ex-aluno de Melanchton, em Wittenberg (1550-1557), e amigo de Calvino.

No prefácio da primeira edição, Frederico III, o "Piedoso" (1515-1576), estabeleceu três propósitos para esse catecismo: 1) instrução catequética; 2) guia para pregação; e 3) forma confessional de unidade. Ele foi o primeiro príncipe alemão a adotar um credo reformado distinto do luterano.

Adotado por um Sínodo de Heidelberg (19/1/1563), esse catecismo foi aceito também na Escócia, servindo de modo especial para o ensino das crianças. O Sínodo de Dort também o aprovou. Heidelberg é o símbolo das igrejas reformadas da Alemanha, da Holanda, dos Estados Unidos e do Brasil.

Os dois pontos fortes desse catecismo são o aspecto não polêmico (com exceção da pergunta 80) e o tom pastoral; suas respostas são uma declaração pessoal de fé, tendo as verdades teológicas aplicação bem direta às necessidades cotidianas do povo de Deus.

Por ter sido traduzido para todas as línguas européias e muitas asiáticas, P. Schaff (1819-1893) diz que Heidelberg "tem o dom pentecostal de línguas em raro grau". [32]


Segunda confissão helvética (1562-1566)


Foi primariamente elaborada em latim, em 1562, pelo amigo, discípulo e sucessor de Zuínglio (1484-1531), Henry Bullinger (1504-1575). Em 1564, quando a peste voltou a atacar em Zurique, Bullinger perdeu a esposa e as três filhas. Ele mesmo ficou doente, mas foi curado. Nesse ínterim, fez a revisão da confissão de 1562. Como espécie de testamento espiritual, anexou-a ao seu testamento, para ser entregue ao magistrado da cidade, caso falecesse. Essa confissão foi traduzida para vários idiomas (incluindo o árabe) e teve ampla aceitação em diversos países, sendo também adotada na Escócia (1566), Hungria (1567), França (1571) e Polônia (1578). Tornou-se "o elo [...] para as igrejas calvinistas espalhadas por toda a Europa". [33]


Cânones de Dort (1618-1619)


O Sínodo de Dort reuniu-se por autoridade dos Estados Gerais dos Países Baixos, em Dordrecht, Holanda, de 13/11/1618 a 9/5/1619. O Sínodo foi constituído de 35 pastores, um grupo de presbíteros das igrejas holandesas, 5 catedráticos de teologia dos Países Baixos, 18 deputados dos Estados Gerais e 27 estrangeiros, de diversos países da Europa, tais como Inglaterra, Alemanha, França e Suíça. Dort rejeitou os chamados "Cinco pontos do arminianismo". [34] Os Cânones de Dort foram aceitos por todas as igrejas reformadas como expressão correta do sistema calvinista.

Seguindo J. I. Packer, [35] podemos resumir o sistema arminiano e calvinista da seguinte forma:


Cinco pontos do arminianismo
Cinco pontos do calvinismo
1. O homem nunca é de tal modo corrompido pelo pecado que não possa crer salvaticiamente no evangelho, uma vez que este lhe seja apresentado.
1. O homem decaído, em seu estado natural, não tem capacidade alguma para crer no evangelho, tal como lhe falta toda a capacidade para dar crédito à lei, a despeito de toda indução externa que sobre ele possa ser exercida.


2. O homem nunca é de tal modo controlado por Deus que não possa rejeitá-lo.
2. A eleição de Deus é uma escolha gratuita, soberana e incondicional de pecadores, como pecadores, para que venham a ser redimidos por Cristo, para que venham a receber fé e para que sejam conduzidos à glória.


3. A eleição divina dos que serão salvos alicerça-se sobre o fato da provisão divina de que eles haverão de crer, por sua própria deliberação.


3. A obra remidora de Cristo teve como sua finalidade e alvo a salvação dos eleitos.


4. A morte de Cristo não garantiu a salvação para ninguém, pois não garantiu o dom da fé para ninguém (e nem mesmo existe tal dom); o que ela fez foi criar a possibilidade de salvação para todo aquele que crê.


4. A obra do Espírito Santo, ao conduzir os homens à fé, nunca deixa de atingir o seu objetivo.


5. Depende inteiramente dos crentes manterem-se em um estado de graça, conservando a sua fé; os que falham nesse ponto desviam-se e se perdem.


5. Os crentes são guardados na fé na graça pelo poder inconquistável de Deus, até que eles cheguem à glória.




Confissão de Westminster e catecismos (1647-1648)

A Confissão de Westminster, o Catecismo maior (1648) e o Catecismo menor (1647) foram redigidos na Inglaterra, na Abadia de Westminster, por convocação do Parlamento. A assembléia funcionou de 1º/7/1643 a 22/2/1649. O objetivo primário era a revisão dos Trinta e nove artigos. Trabalharam no texto da confissão 121 teólogos e 30 leigos nomeados pelo Parlamento (20 da Casa dos Comuns e 10 da Casa dos Lordes), 8 representantes escoceses, 4 pastores e 4 presbíteros, "os melhores e mais preclaros homens que possuía". [36]

Os principais debates não foram de ordem teológica (quase todos eram calvinistas), mas sobre o governo da Igreja. "Embora houvesse diversidade quanto à Eclesiologia, havia unidade quanto à Soteriologia". [37] Nesse ponto, havia quatro partidos: episcopais, presbiterianos, independentes (congregacionais) e erastianos. [38] Esses últimos entendiam que o trabalho do pastor era o de ensino; o pastor é o mestre. Prevaleceu, no entanto, o sistema presbiteriano de governo.

O Breve catecismo foi elaborado para instruir as crianças; o Catecismo maior, especialmente para a exposição no púlpito, mas não exclusivamente. Eles substituíram em grande parte os catecismos e as confissões mais antigos adotados pelas igrejas reformadas de fala inglesa. Apesar de a teologia dos catecismos e da Confissão de Westminster ser a mesma, sendo por isso sempre adotados os três, parece que os mais usados são o Catecismo menor e a Confissão.

Esses credos foram logo aprovados pela Assembléia Geral da Igreja da Escócia. Eles tiveram e têm grande influência no mundo de fala inglesa, máxime entre os presbiterianos embora também tenham sido adotados por diversas igrejas batistas e congregacionais. No Brasil, esses credos são adotados pela Igreja Presbiteriana do Brasil, Presbiteriana Independente e Presbiteriana Conservadora.


O uso de catecismos e confissões reformados

Limites

Os credos evangélicos no que se refere à formulação doutrinária são relevantes. Depreciá-los "é uma negação prática da direção que no passado deu o Espírito Santo à Igreja". [39] contrapartida, temos de entender aliás, como sempre foi entendido pelos reformados que os credos têm limite; eles são uma resposta do homem à Palavra de Deus e sumariam os artigos essenciais da fé cristã. Dessa forma, os credos pressupõem a fé, mas não a geram; esta é obra do Espírito Santo através da Palavra (Rm 10:17).

Os credos baseiam-se na Palavra, mas não são a Palavra nem isso foi cogitado por seus formuladores; eles não podem substituir a Bíblia; somente ela gera vida pelo poder de Deus (1Pe 1:23; Tg 1:18). Para os reformados, os credos têm autoridade decorrente das Escrituras; seu valor não é intrínseco, mas extrínseco: eles são recebidos e cridos enquanto permanecem fiéis à Bíblia; assim, a autoridade deles é relativa. Para que então os credos, se temos a Bíblia? O dr. A. A. Hodge (1823-1886) apresenta relevante observação: Todos os que estudam a Bíblia fazem isso necessariamente no próprio processo de compreender e coordenar seu ensino; e pela linguagem de que os sérios estudantes da Bíblia se servem em suas orações e outros atos de culto, e na sua ordinária conversação religiosa, todos tornam manifesto que, de um ou outro modo, acharam nas Escrituras um sistema de fé tão completo como no caso de cada um deles lhe foi possível. Se os homens recusarem o auxílio oferecido pelas exposições de doutrinas elaboradas e definidas vagarosamente pela Igreja, cada um terá de elaborar o próprio credo, sem auxílio e confiando apenas na sua sabedoria. A questão real entre a Igreja e os impugnadores de credos humanos não é, como eles muitas vezes dizem, uma questão entre a Palavra de Deus e os credos dos homens, mas é questão entre a fé provada do corpo coletivo do povo de Deus e o juízo privado e a sabedoria não auxiliada do objetor individual. [40]

Os credos são somente aproximação e relativa exposição correta da verdade revelada. Eles podem ser modificados pelo progressivo conhecimento da Bíblia, que é infalível e inesgotável. Por isso, não devemos tomá-los como autoridade final para definir um ponto doutrinário: os limites da reflexão teológica estão na Palavra. Os credos não estabelecem o limite da fé, antes a norteiam. As Escrituras sempre serão mais ricas que qualquer pronunciamento eclesiástico, por mais bem elaborado e mais fiel que seja à Bíblia. A firmeza e vivacidade da teologia reformada estão justamente em basear seu sistema em todo o desígnio de Deus, submetendo-o ele, que fala através da sua Palavra. A Confissão de Westminster diz:

O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura. [41]


Valor e importância

A idéia de credos desagrada a muitas pessoas, que os imaginam como empobrecimento espiritual ou amordaçamento do Espírito etc. Nessa perspectiva, a doutrina tem pouco valor; o que importa é a "vida cristã". Daí as ênfases nas "experiências" que, via de regra, pretendem convalidar a Palavra ou num "evangelho" puramente ético-social. Todavia, ambos os comportamentos equivocados pecam por não compreender que a base da vida cristã autêntica é a sólida doutrina vivenciada (cf. 1Tm 4:16). Esse ponto foi salientado por D. M. Lloyd-Jones (1899-1981):

Toda a doutrina cristã visa levar, e foi destinada a levar a um bom resultado prático. [...] A doutrina visa levar-nos a Deus, e a isso foi destinada. Seu propósito é ser prática [...] a nossa vida cristã nunca será rica, se não conhecermos e não aprendermos a doutrina. [42]

Você não poderá ser santo se não conhecer bem a doutrina. Doutrina é a ligação direta que leva à santidade. É somente quando compreendemos estas verdades fundamentais que podemos atender ao apelo lógico para a conduta e o comportamento agradáveis a Deus. [43]


Os elementos a seguir atestam a importância e o valor dos credos:

1. Facilitam a confissão pública de nossa fé.

2. Oferecem de forma abreviada o resultado de um processo cumulativo da história, reunindo as melhores contribuições de servos de Deus na compreensão da verdade. A ciência não é privilégio de um povo ou de um indivíduo. Todo cientista usando a figura de João de Salisbury (c. 1110-1180) equivale a um anão nos ombros de gigantes, valendo-se das contribuições dos predecessores, a fim de poder enxergar um pouco além deles. Podemos aplicar essa figura à teologia e à tradição, como o fez J. I. Packer: "A tradição nos permite ficar sobre os ombros de muitos gigantes que pensaram sobre a Bíblia antes de nós. Podemos concluir pelo consenso do maior e mais amplo corpo de pensadores cristãos, desde os primeiros pais até o presente, como recurso valioso para compreender a Bíblia com responsabilidade. Contudo, tais interpretações (tradições) jamais serão finais; precisam sempre ser submetidas às Escrituras para mais revisão". [44]

3. São uma exigência natural da própria unidade da Igreja, que exige acordo doutrinário (Ef 4:11-14; Fp 1:27; 1Co 1:10; Jd 3; Tt 3:10; Gl 1:8-9; 1Tm 6:3-5).

4. Visto que o cristianismo é um modo de vida fundamentado na doutrina, os credos oferecem uma base sintetizada para o ensino das doutrinas bíblicas, facilitando sua compreensão, a fim de que os cristãos sejam habilitados para a obra de Deus. Spener (1635-1705), luterano e "fundador" do "Pietismo" que se opunha ao "escolasticismo protestante" , insistia com os pastores em que ensinem às crianças e aos adultos, com as Escrituras, o Catecismo menor, de Lutero, visto ser fundamental para a sedimentação da fé. [45]

5. Preservam a doutrina bíblica das heresias surgidas no decorrer da história, revelando-se de grande utilidade, especialmente nas questões controvertidas, dando-nos uma exposição sistemática e norteadora a respeito do assunto.

6. No que se refere à compreensão bíblica, permitem distinguir nossas igrejas das demais.

7. Servem de elemento regulador do ensino ministrado na Igreja, bem como de seu governo, disciplina e liturgia. James Orr (1844-1913), na obra-prima O progresso do dogma, disse: ".... A idade da Reforma se destacou por sua produtividade de credos. Faremos bem se não menosprezarmos o ganho que resulta para nós destas criações do espírito do século xvi. Cometeremos grave equívoco se, seguindo uma tendência prevalecente [1897], nos permitirmos crer que são curiosidades arqueológicas. Estes credos não são produtos ressecados como o pó, senão que surgiram de uma fé viva, e encerram verdades que nenhuma Igreja pode abandonar sem certo detrimento de sua própria vida. São produtos clássicos de uma época que se comprazia em formular credos, com o qual quero dizer, uma época que possuía uma fé que é capaz de definir-se de modo inteligente, e pela qual está disposta a sofrer se for necessário e que, portanto, não pode por menos que expressar-se em formas que não tenham validade permanente [...]. Estes credos se têm mantido erguidos como testemunhos, inclusive em período de decaimento, às grandes doutrinas sobre as quais foram estabelecidas as Igrejas; têm servido como baluartes contra os assaltos e a desintegração; têm formado um núcleo de reunião e reafirmação em tempos de avivamento; e talvez têm representado sempre com precisão substancial a fé viva da parte espiritual de seus membros...". Os credos da Reforma dão, e praticamente pela primeira vez, uma exposição conjunta de todos os grandes artigos da doutrina cristã.

8. Servem de desafio para que continuemos a caminhada na preservação da doutrina e na aplicação das verdades bíblicas aos novos desafios de nossa geração, integrando-nos à nobre sucessão dos que amam a Deus e sua Palavra e que buscam entendê-la e aplicá-la, em submissão ao Espírito, à vida da Igreja. Uma tradição saudável tem compromisso com o passado na geração do futuro. [46] Portanto, "o conservadorismo criativo utiliza-se da tradição, não como autoridade final ou absoluta, mas como recurso importante colocado à nossa disposição pela providência de Deus, a fim de nos ajudar a entender o que a Escritura está nos dizendo sobre quem é Deus, quem somos nós, o que é o mundo ao nosso redor e o que fomos chamados para fazer aqui e agora". [47]

O Antigo e o Novo Testamento usaram esse recurso para auxiliar os crentes na vida doutrinária e prática cristã, expressando também o que a Igreja cria. A teologia reformada honra a Bíblia e os credos da Igreja, enquanto estes permanecerem fiéis às Escrituras.


Nota

[15] Veja As institutas, III.I.3. Cf. tb. III.2.5s.

[16] Calvino combatera a "fé implícita", patente na teologia católica romana, chamando-a de "espectro papista" que "separa a fé da Palavra de Deus" (cf. Exposição de Romanos, p. 375).

[17] Veja D. F. Wright, "Catecismos", em Walter A. Elwell, Enciclopédia histórico-teológica da Igreja cristã, vol. i, 249.

[18] Idem, p. 250.

[19] Lutero viajou pela Saxônia Eleitoral e por Meissen, entre 22/10/1528 e 9/1/1529.

[20] "Catecismo Menor", em Os catecismos, p. 363.

[21] Esse catecismo (em português: Instrução na fé [Goiânia: Logos, 2003]) é um resumo da primeira edição de As institutas (1536).

[22] As institutas, iv.1.12. Cf. tb. iv.1.15 e O Livro dos Salmos, vol. 2, p. 401.

[23] As institutas, iv.2.5. Calvino afirmou: "... onde os homens amam a disputa, estejamos plenamente certos de que Deus não está reinando ali" (Exposição de 1Coríntios, p. 436). Timothy George comenta: "Calvino não estava disposto a comprometer pontos essenciais em favor de uma paz falsa, mas ele tentou chamar a igreja de volta à verdadeira base de sua unidade em Jesus Cristo" (Teologia dos reformadores, p. 182-183).

[24] To the Brethren of Wezel, "Letter", John Calvin Collection, [cd-rom], n.º 346, p. 32-34.

[25] Exposição de 1Coríntios, p. 437.

[26] Arcebispo de Canterbury, que em 1549 havia elaborado o Livro de oração comum, no qual enfatizava o culto em inglês, a leitura da Palavra de Deus e o aspecto congregacional da adoração cristã.

[27] Todavia, num primeiro momento, era impossível qualquer tentativa nesse sentido, visto haver problemas geográficos, políticos, objetivos circunstanciais diferentes e mesmo problemas doutrinários.

[28] Letters of John Calvin, p. 132-133.

[29] Veja W. Walker, História da Igreja cristã, vol. ii, p. 111.

[30] Veja Jean Delumeau, O nascimento e afirmação da Reforma, p. 149-150. Delumeau cita estatística de Coligny, constando a França, em 1562, de mais de 2.150 "comunidades" reformadas (A civilização do Renascimento, vol. i, p. 129).

[31] Frans L. Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês (1630-1654), vol. 25, p. 27.

[32] The Creeds of Christendom, vol. i, p. 536.

[33] O. G. Oliver Jr., "Bullinger", em Walter A. Elwell, Enciclopédia histórico-teológica da Igreja cristã, vol. i, p. 216.

[34] Discípulos de James Arminius [Jacó Armínio] (1560-1609), antigo aluno do sucessor de Calvino em Genebra Theodore de Beza (1519-1605).

[35] O "antigo" evangelho, p. 6.

[36] Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A. A. Hodge, p. 41.

[37] R. T. Kendall, "A modificação puritana da teologia de Calvino", em: W. Stanford Reid, Calvino e sua influência no mundo ocidental, p. 264.

[38] Assim chamados por seguirem o pensamento de Thomas Erasto (1524-1583), médico de Heidelberg, que defendia a supremacia do Estado sobre a Igreja.

[39] Louis Berkhof, Introduccion a la Teologia Sistematica, p. 22. John Stott arremata: "Desrespeitar a tradição e a teologia histórica é desrespeitar o Espírito Santo que tem ativamente iluminado a Igreja em todos os séculos" (A cruz de Cristo, p. 8).

[40] Esboços de Theologia, p. 99.

[41] Capítulo I, seção 10.

[42] As insondáveis riquezas de Cristo, p. 85-86.

[43] Idem, p. 254.

[44] "O conforto do conservadorismo", em Michael Horton, Religião de poder, p. 235.

[45] Veja Ph. J. Spener, Mudança para o futuro, p. 32-33, 57-58, 118.

[46] "A tradição é o sangue da teologia. Separada da tradição, a teologia é como uma flor cortada sem suas raízes e sem o solo, logo murcha na mão. Uma sã teologia nunca nasce de novo. Ao honrar a sã tradição, se assegura a continuidade teológica com o passado. Ao mesmo tempo, a tradição cria a possibilidade de abrir novas portas para o futuro. Como diz o provérbio: `A tradição é o prólogo do futuro.' Por isso, toda dogmática que se preze como tal deve definir sua posição em uma ou outra tradição confessional" (Gordon J. Spykman, Teologia reformacional, p. 5).

[47] J. I. Packer, "O conforto do conservadorismo", em Michael Horton, Religião de poder, p. 241.


Autor: Hermisten Maia Pereira da Costa


Fonte: Fundamentos da teologia reformada, pg. 9-24, Editora Mundo Cristão.

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