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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Os credos da Reforma

Importância e objetivo dos credos

Os credos da Reforma são as confissões de fé e os catecismos produzidos nesse período ou sob sua inspiração teológica.

Os séculos IV e V foram para a elaboração dos credos [Credo de Nicéia, Credo de Calcedônia] o que os séculos XVI e XVII foram para a feitura das confissões e dos catecismos. A razão parece evidente: na Reforma, as igrejas logo sentiram a necessidade de formalizar a fé, apresentando sua interpretação sobre diversos assuntos que as distinguiam da Igreja Romana. Com o tempo, surgem outras denominações, que discordavam entre si sobre alguns pontos, o que gerou a necessidade de estabelecer princípios doutrinários próprios.

Calvino afirmou que a fé deve ser "explícita", mas ressaltou que muito do que cremos permanecerá nesta vida de forma implícita por duas razões: a) nem tudo foi revelado por Deus; b) nossa ignorância e pequenez espiritual. Por isso, o ensino e estudo constantes da Palavra do Senhor são necessários, a fim de que cada homem, responsável diante de Deus, tenha condições de se posicionar diante do Criador de forma consciente. [15] A fé explícita é patenteada pela Igreja mediante o ensino da Palavra.

Essa necessidade determina o uso da razão, a fim de apresentar a doutrina de forma mais razoável possível e simples ao mesmo tempo. Amplitude e simplicidade são dois marcos do ensino ortodoxo. O ser humano é responsável diante de Deus, a quem dará contas de si mesmo; portanto, tendo oportunidade, ele precisa conhecer devidamente a Palavra do Senhor em toda a plenitude revelada.

Essas declarações de fé precisavam ser, até certo ponto, completas e simples, para que o cristão não iniciado nas questões teológicas pudesse entender o que estava sendo dito, confrontar esse ensinamento com as Escrituras e assim compreender biblicamente sua fé. Esta não deveria ser apenas "implícita", [16] mas "explícita".


Os catecismos


Nesse contexto e com objetivos eminentemente didáticos surgem os catecismos (do gr. katekhéo = "ensinar", "instruir", "informar"; cf. Lc 1:4; At 18:25; 21:21,24; Rm 2:18; 1Co 14:19; Gl 6:6), constituídos, em boa parte, de perguntas e respostas. Até o século XVI, a palavra catecismo não fora usada nesse sentido. [17] Os catecismos visavam à instrução de crianças e adultos, e isso contribuiu decisivamente para sua proliferação, sendo que a maioria jamais passou da forma manuscrita, visto que muitos pastores os elaboravam apenas para a congregação local, objetivando atender necessidades doutrinárias.

A primeira obra a receber o título catecismo foi o de Andreas Althamer (c. 1500-1539) em 1528. [18] Os mais influentes no século XVI foram, porém, os de Lutero (1483-1546): o Catecismo maior (1529) e o Catecismo menor (1529), em cujo prefácio Lutero declara por que o redigiu e apresenta sugestões de como ensiná-lo à congregação. Ele quase sempre inicia os capítulos com este teor: "Como o chefe de família deve ensiná-lo com toda a simplicidade à sua casa", e outras expressões afins. A respeito de suas motivações, ele declarou: A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também eu fui visitador, [19] é que me obrigou e impulsionou a preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes para a obra do ensino. [...] Não sabem nem o Pai-Nosso, nem o Credo, nem os Dez Mandamentos. [20]

Mais tarde, Calvino elaborou um catecismo intitulado Instrução e confissão de fé, segundo o uso da Igreja de Genebra (1536-1537). [21] Desde 1561, todo ministro da igreja deveria jurar fidelidade aos ensinamentos nele expressos e comprometer-se a ensiná-los.


As confissões


Basicamente, as confissões não foram feitas para a instrução na fé cristã (essa era a função dos catecismos). Elas poderiam ser produzidas individualmente para uso privado (A segunda confissão helvética); por um concílio de uma igreja em particular (Cânones de Dort); por um indivíduo que age como representante de sua igreja (Confissão de Augsburgo); por um grupo de teólogos convocados pelo Estado (Confissão de Westminster); ou escrita como defesa de sua fé durante terrível perseguição (A confissão dos valdenses) etc.

Não havia regra para a elaboração de uma confissão; os contextos eram variados. Apesar de haver motivações comuns a todas elas, existiam circunstâncias especiais que conduziam a determinadas ênfases, especialmente no que se refere às questões relativas ao governo e à Igreja Romana.

Isso levanta o problema da unificação das confissões. Em 1530, Carlos V, imperador da Alemanha, convoca a Dieta de Augsburgo, cujo objetivo era a unificação político-religiosa dos seus domínios. Nasceu então a Confissão de Augsburgo, redigida por Melanchthon, com o consentimento de Lutero. O imperador não a aceitou e proibiu sua divulgação; mesmo assim, em pouco tempo, ela foi propagada em toda a Alemanha.

Calvino entende que a divergência em questões secundárias não deve servir de pretexto para a divisão da igreja; afinal, todos, sem exceção, estão envoltos de "alguma nuvenzinha de ignorância". [22] Após argumentar contra aqueles que chamavam os reformados de hereges, ele ressalta que a unidade cristã deve ser na Palavra, baseando-se em Efésios 4:5, Filipenses 2:1,5 e Romanos 15:5. [23]

Para os irmãos refugiados em Wezel (Alemanha), que sofriam diversas pressões dos luteranos e sobreviviam numa pequena igreja reformada, Calvino, em 1554, os consola mostrando que, apesar dos grandes problemas pelos quais passavam o mundo, Deus lhes havia concedido um lugar onde poderiam adorar a Deus em liberdade. Também os desafia a não abandonarem a igreja por pequenas divergências nas práticas cerimoniais, sendo tolerantes a fim de preservar a unidade. Contudo, os exorta a jamais fazerem acordos em pontos doutrinários. [24] Mesmo desejando a paz e a concórdia, Calvino entendia que essa paz nunca poderia ser em detrimento da verdade, pois, se assim fosse, essa "paz" seria maldita. [25]

Respondendo a uma carta de Thomas Cranmer (1489-1556) [26] convidando-o para uma reunião com o objetivo de preparar um credo que fosse consensual para as igrejas reformadas, Calvino, mesmo não podendo ir, o encoraja a manter esse objetivo. [27] A certa altura diz: "... Estando os membros da Igreja divididos, o corpo sangra. Isso me preocupa tanto que, se pudesse fazer algo, eu não me recusaria a cruzar até dez mares, se necessário fosse, por essa causa". [28]

Já no século XVII, algum progresso nesse sentido é evidente, através de formulações doutrinárias mais completas e também após passar o primeiro ardor apaixonado e exclusivista, ainda que surgissem novos debates teológicos nos séculos XVII e XVIII, no período denominado "ortodoxia protestante". Mesmo assim, as diferenças permaneceram, mas não ferem pontos cruciais da Reforma, como: A Bíblia como autoridade final, a justificação pela graça mediante a fé, o sacerdócio universal dos santos, a suficiência do sacrifício de Cristo para nos salvar etc.

Assim, os credos da Reforma tinham três objetivos específicos:

01. Evidenciar os fundamentos bíblicos de seus ensinos.

02. Demonstrar que suas doutrinas estavam em acordo com os principais credos da Igreja (Apostólico, Niceno, Constantinopolitano).

03. Demarcar sua posição teológica em relação à teologia romana e às demais correntes provenientes da Reforma.

As confissões provenientes da Reforma (sécs. XVI e XVII) são divididas em dois grupos: luteranas e calvinistas (reformadas).

Principais catecismos e confissões: subsídios históricos


Confissão gaulesa (1559)


Foi escrita por Calvino e seu discípulo Antoine de la Roche Chandieu (De Chandieu) (1534-1591), provavelmente com a ajuda de Theodore Beza (1519-1605) e Pierre Viret (1511-1571). No Sínodo Geral de Paris (26-28/5/1559), reunido secretamente, ela foi revista e ampliada. Calcula-se que a França possuía 400 mil protestantes, [29] existindo em fins de 1561 mais de 670 igrejas calvinistas. [30]

Em 1571, realizou-se o Sétimo Sínodo Nacional de La Rochelle, no qual essa confissão foi revisada, reafirmada e solenemente sancionada por Henrique IV, passando a ser chamada também de Confissão de Rochelle. A Confissão gaulesa influenciou profundamente a Confissão belga (1561) e a Confissão dos valdenses (1655).


Confissão escocesa (1560)


Foi escrita sob a liderança de John Knox (1505-1572) e adotada pelo Parlamento escocês em 17/8/1560, sendo ratificada em 1567. Em 1572, todos os ministros tiveram de subscrevê-la. Ela permaneceu como confissão oficial da Igreja Reformada Escocesa até 1647, quando então a Igreja adotou a Confissão de Westminster.


Confissão belga (1561)


Inspirada na Confissão gaulesa, foi escrita em francês em 1561 por Guido (ou Guy, Wido) de Brès (1523-1567) e outros, sendo revisada e publicada em holandês em 1562, chegando a ocupar lugar de suma importância na Igreja Reformada Holandesa. [31] Foi aprovada no Sínodo de Antuérpia (1566), no de Ambères (1566; após revisão) e em Wessel (1568), e adotada pelo Sínodo Reformado de Emden (1571), pelo Sínodo Nacional de Dort (1574), Middelburg (1581) e pelo grande Sínodo de Dort (29/4/1619), que a sujeitou a minuciosa revisão, comparando a tradução holandesa com o texto francês e latino. Foi traduzida para o holandês (1562) e para o inglês (1768).

A Confissão belga e o Catecismo de Heidelberg (veja mais adiante) são os símbolos de fé das Igrejas Reformadas na Holanda e Bélgica, sendo também o padrão doutrinário da Igreja Reformada na América e na Igreja Evangélica Reformada Holandesa no Brasil.


Trinta e nove artigos da Igreja da Inglaterra (1563)


Em 1552, o arcebispo de Cantebury, Thomas Cranmer, elaborou com outros clérigos Quarenta e Dois Artigos da Religião; após minuciosa revisão, foram publicados em 1553 sob a autoridade do rei da Inglaterra, Eduardo vi. Mais tarde, esses Artigos foram revistos e reduzidos a 39 pelo arcebispo de Cantebury, Matthew Parker (1504-1575), e outros bispos. Esse trabalho de revisão e redução foi ratificado pelas duas Casas de Convocação, sendo os Trinta e nove artigos publicados por autoridade do rei em 1563. Em 1571, tornou-se obrigatória a subscrição desses Artigos por todos os ministros ingleses.

Os Trinta e nove artigos e o Livro de oração comum (1549) são os símbolos de fé da Igreja da Inglaterra e, com algumas alterações, das demais igrejas da Comunhão Anglicana.


Catecismo de Heidelberg (1563)


Foi escrita por dois jovens teólogos: Caspar Olevianus (1536-c. 1587), professor de teologia na Universidade de Heidelberg, que recebeu influência de Melanchton e de Peter Martyr Vermigli (1560-1562), e Zacharias Ursinus (1534-1583), ex-aluno de Melanchton, em Wittenberg (1550-1557), e amigo de Calvino.

No prefácio da primeira edição, Frederico III, o "Piedoso" (1515-1576), estabeleceu três propósitos para esse catecismo: 1) instrução catequética; 2) guia para pregação; e 3) forma confessional de unidade. Ele foi o primeiro príncipe alemão a adotar um credo reformado distinto do luterano.

Adotado por um Sínodo de Heidelberg (19/1/1563), esse catecismo foi aceito também na Escócia, servindo de modo especial para o ensino das crianças. O Sínodo de Dort também o aprovou. Heidelberg é o símbolo das igrejas reformadas da Alemanha, da Holanda, dos Estados Unidos e do Brasil.

Os dois pontos fortes desse catecismo são o aspecto não polêmico (com exceção da pergunta 80) e o tom pastoral; suas respostas são uma declaração pessoal de fé, tendo as verdades teológicas aplicação bem direta às necessidades cotidianas do povo de Deus.

Por ter sido traduzido para todas as línguas européias e muitas asiáticas, P. Schaff (1819-1893) diz que Heidelberg "tem o dom pentecostal de línguas em raro grau". [32]


Segunda confissão helvética (1562-1566)


Foi primariamente elaborada em latim, em 1562, pelo amigo, discípulo e sucessor de Zuínglio (1484-1531), Henry Bullinger (1504-1575). Em 1564, quando a peste voltou a atacar em Zurique, Bullinger perdeu a esposa e as três filhas. Ele mesmo ficou doente, mas foi curado. Nesse ínterim, fez a revisão da confissão de 1562. Como espécie de testamento espiritual, anexou-a ao seu testamento, para ser entregue ao magistrado da cidade, caso falecesse. Essa confissão foi traduzida para vários idiomas (incluindo o árabe) e teve ampla aceitação em diversos países, sendo também adotada na Escócia (1566), Hungria (1567), França (1571) e Polônia (1578). Tornou-se "o elo [...] para as igrejas calvinistas espalhadas por toda a Europa". [33]


Cânones de Dort (1618-1619)


O Sínodo de Dort reuniu-se por autoridade dos Estados Gerais dos Países Baixos, em Dordrecht, Holanda, de 13/11/1618 a 9/5/1619. O Sínodo foi constituído de 35 pastores, um grupo de presbíteros das igrejas holandesas, 5 catedráticos de teologia dos Países Baixos, 18 deputados dos Estados Gerais e 27 estrangeiros, de diversos países da Europa, tais como Inglaterra, Alemanha, França e Suíça. Dort rejeitou os chamados "Cinco pontos do arminianismo". [34] Os Cânones de Dort foram aceitos por todas as igrejas reformadas como expressão correta do sistema calvinista.

Seguindo J. I. Packer, [35] podemos resumir o sistema arminiano e calvinista da seguinte forma:


Cinco pontos do arminianismo
Cinco pontos do calvinismo
1. O homem nunca é de tal modo corrompido pelo pecado que não possa crer salvaticiamente no evangelho, uma vez que este lhe seja apresentado.
1. O homem decaído, em seu estado natural, não tem capacidade alguma para crer no evangelho, tal como lhe falta toda a capacidade para dar crédito à lei, a despeito de toda indução externa que sobre ele possa ser exercida.


2. O homem nunca é de tal modo controlado por Deus que não possa rejeitá-lo.
2. A eleição de Deus é uma escolha gratuita, soberana e incondicional de pecadores, como pecadores, para que venham a ser redimidos por Cristo, para que venham a receber fé e para que sejam conduzidos à glória.


3. A eleição divina dos que serão salvos alicerça-se sobre o fato da provisão divina de que eles haverão de crer, por sua própria deliberação.


3. A obra remidora de Cristo teve como sua finalidade e alvo a salvação dos eleitos.


4. A morte de Cristo não garantiu a salvação para ninguém, pois não garantiu o dom da fé para ninguém (e nem mesmo existe tal dom); o que ela fez foi criar a possibilidade de salvação para todo aquele que crê.


4. A obra do Espírito Santo, ao conduzir os homens à fé, nunca deixa de atingir o seu objetivo.


5. Depende inteiramente dos crentes manterem-se em um estado de graça, conservando a sua fé; os que falham nesse ponto desviam-se e se perdem.


5. Os crentes são guardados na fé na graça pelo poder inconquistável de Deus, até que eles cheguem à glória.




Confissão de Westminster e catecismos (1647-1648)

A Confissão de Westminster, o Catecismo maior (1648) e o Catecismo menor (1647) foram redigidos na Inglaterra, na Abadia de Westminster, por convocação do Parlamento. A assembléia funcionou de 1º/7/1643 a 22/2/1649. O objetivo primário era a revisão dos Trinta e nove artigos. Trabalharam no texto da confissão 121 teólogos e 30 leigos nomeados pelo Parlamento (20 da Casa dos Comuns e 10 da Casa dos Lordes), 8 representantes escoceses, 4 pastores e 4 presbíteros, "os melhores e mais preclaros homens que possuía". [36]

Os principais debates não foram de ordem teológica (quase todos eram calvinistas), mas sobre o governo da Igreja. "Embora houvesse diversidade quanto à Eclesiologia, havia unidade quanto à Soteriologia". [37] Nesse ponto, havia quatro partidos: episcopais, presbiterianos, independentes (congregacionais) e erastianos. [38] Esses últimos entendiam que o trabalho do pastor era o de ensino; o pastor é o mestre. Prevaleceu, no entanto, o sistema presbiteriano de governo.

O Breve catecismo foi elaborado para instruir as crianças; o Catecismo maior, especialmente para a exposição no púlpito, mas não exclusivamente. Eles substituíram em grande parte os catecismos e as confissões mais antigos adotados pelas igrejas reformadas de fala inglesa. Apesar de a teologia dos catecismos e da Confissão de Westminster ser a mesma, sendo por isso sempre adotados os três, parece que os mais usados são o Catecismo menor e a Confissão.

Esses credos foram logo aprovados pela Assembléia Geral da Igreja da Escócia. Eles tiveram e têm grande influência no mundo de fala inglesa, máxime entre os presbiterianos embora também tenham sido adotados por diversas igrejas batistas e congregacionais. No Brasil, esses credos são adotados pela Igreja Presbiteriana do Brasil, Presbiteriana Independente e Presbiteriana Conservadora.


O uso de catecismos e confissões reformados

Limites

Os credos evangélicos no que se refere à formulação doutrinária são relevantes. Depreciá-los "é uma negação prática da direção que no passado deu o Espírito Santo à Igreja". [39] contrapartida, temos de entender aliás, como sempre foi entendido pelos reformados que os credos têm limite; eles são uma resposta do homem à Palavra de Deus e sumariam os artigos essenciais da fé cristã. Dessa forma, os credos pressupõem a fé, mas não a geram; esta é obra do Espírito Santo através da Palavra (Rm 10:17).

Os credos baseiam-se na Palavra, mas não são a Palavra nem isso foi cogitado por seus formuladores; eles não podem substituir a Bíblia; somente ela gera vida pelo poder de Deus (1Pe 1:23; Tg 1:18). Para os reformados, os credos têm autoridade decorrente das Escrituras; seu valor não é intrínseco, mas extrínseco: eles são recebidos e cridos enquanto permanecem fiéis à Bíblia; assim, a autoridade deles é relativa. Para que então os credos, se temos a Bíblia? O dr. A. A. Hodge (1823-1886) apresenta relevante observação: Todos os que estudam a Bíblia fazem isso necessariamente no próprio processo de compreender e coordenar seu ensino; e pela linguagem de que os sérios estudantes da Bíblia se servem em suas orações e outros atos de culto, e na sua ordinária conversação religiosa, todos tornam manifesto que, de um ou outro modo, acharam nas Escrituras um sistema de fé tão completo como no caso de cada um deles lhe foi possível. Se os homens recusarem o auxílio oferecido pelas exposições de doutrinas elaboradas e definidas vagarosamente pela Igreja, cada um terá de elaborar o próprio credo, sem auxílio e confiando apenas na sua sabedoria. A questão real entre a Igreja e os impugnadores de credos humanos não é, como eles muitas vezes dizem, uma questão entre a Palavra de Deus e os credos dos homens, mas é questão entre a fé provada do corpo coletivo do povo de Deus e o juízo privado e a sabedoria não auxiliada do objetor individual. [40]

Os credos são somente aproximação e relativa exposição correta da verdade revelada. Eles podem ser modificados pelo progressivo conhecimento da Bíblia, que é infalível e inesgotável. Por isso, não devemos tomá-los como autoridade final para definir um ponto doutrinário: os limites da reflexão teológica estão na Palavra. Os credos não estabelecem o limite da fé, antes a norteiam. As Escrituras sempre serão mais ricas que qualquer pronunciamento eclesiástico, por mais bem elaborado e mais fiel que seja à Bíblia. A firmeza e vivacidade da teologia reformada estão justamente em basear seu sistema em todo o desígnio de Deus, submetendo-o ele, que fala através da sua Palavra. A Confissão de Westminster diz:

O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura. [41]


Valor e importância

A idéia de credos desagrada a muitas pessoas, que os imaginam como empobrecimento espiritual ou amordaçamento do Espírito etc. Nessa perspectiva, a doutrina tem pouco valor; o que importa é a "vida cristã". Daí as ênfases nas "experiências" que, via de regra, pretendem convalidar a Palavra ou num "evangelho" puramente ético-social. Todavia, ambos os comportamentos equivocados pecam por não compreender que a base da vida cristã autêntica é a sólida doutrina vivenciada (cf. 1Tm 4:16). Esse ponto foi salientado por D. M. Lloyd-Jones (1899-1981):

Toda a doutrina cristã visa levar, e foi destinada a levar a um bom resultado prático. [...] A doutrina visa levar-nos a Deus, e a isso foi destinada. Seu propósito é ser prática [...] a nossa vida cristã nunca será rica, se não conhecermos e não aprendermos a doutrina. [42]

Você não poderá ser santo se não conhecer bem a doutrina. Doutrina é a ligação direta que leva à santidade. É somente quando compreendemos estas verdades fundamentais que podemos atender ao apelo lógico para a conduta e o comportamento agradáveis a Deus. [43]


Os elementos a seguir atestam a importância e o valor dos credos:

1. Facilitam a confissão pública de nossa fé.

2. Oferecem de forma abreviada o resultado de um processo cumulativo da história, reunindo as melhores contribuições de servos de Deus na compreensão da verdade. A ciência não é privilégio de um povo ou de um indivíduo. Todo cientista usando a figura de João de Salisbury (c. 1110-1180) equivale a um anão nos ombros de gigantes, valendo-se das contribuições dos predecessores, a fim de poder enxergar um pouco além deles. Podemos aplicar essa figura à teologia e à tradição, como o fez J. I. Packer: "A tradição nos permite ficar sobre os ombros de muitos gigantes que pensaram sobre a Bíblia antes de nós. Podemos concluir pelo consenso do maior e mais amplo corpo de pensadores cristãos, desde os primeiros pais até o presente, como recurso valioso para compreender a Bíblia com responsabilidade. Contudo, tais interpretações (tradições) jamais serão finais; precisam sempre ser submetidas às Escrituras para mais revisão". [44]

3. São uma exigência natural da própria unidade da Igreja, que exige acordo doutrinário (Ef 4:11-14; Fp 1:27; 1Co 1:10; Jd 3; Tt 3:10; Gl 1:8-9; 1Tm 6:3-5).

4. Visto que o cristianismo é um modo de vida fundamentado na doutrina, os credos oferecem uma base sintetizada para o ensino das doutrinas bíblicas, facilitando sua compreensão, a fim de que os cristãos sejam habilitados para a obra de Deus. Spener (1635-1705), luterano e "fundador" do "Pietismo" que se opunha ao "escolasticismo protestante" , insistia com os pastores em que ensinem às crianças e aos adultos, com as Escrituras, o Catecismo menor, de Lutero, visto ser fundamental para a sedimentação da fé. [45]

5. Preservam a doutrina bíblica das heresias surgidas no decorrer da história, revelando-se de grande utilidade, especialmente nas questões controvertidas, dando-nos uma exposição sistemática e norteadora a respeito do assunto.

6. No que se refere à compreensão bíblica, permitem distinguir nossas igrejas das demais.

7. Servem de elemento regulador do ensino ministrado na Igreja, bem como de seu governo, disciplina e liturgia. James Orr (1844-1913), na obra-prima O progresso do dogma, disse: ".... A idade da Reforma se destacou por sua produtividade de credos. Faremos bem se não menosprezarmos o ganho que resulta para nós destas criações do espírito do século xvi. Cometeremos grave equívoco se, seguindo uma tendência prevalecente [1897], nos permitirmos crer que são curiosidades arqueológicas. Estes credos não são produtos ressecados como o pó, senão que surgiram de uma fé viva, e encerram verdades que nenhuma Igreja pode abandonar sem certo detrimento de sua própria vida. São produtos clássicos de uma época que se comprazia em formular credos, com o qual quero dizer, uma época que possuía uma fé que é capaz de definir-se de modo inteligente, e pela qual está disposta a sofrer se for necessário e que, portanto, não pode por menos que expressar-se em formas que não tenham validade permanente [...]. Estes credos se têm mantido erguidos como testemunhos, inclusive em período de decaimento, às grandes doutrinas sobre as quais foram estabelecidas as Igrejas; têm servido como baluartes contra os assaltos e a desintegração; têm formado um núcleo de reunião e reafirmação em tempos de avivamento; e talvez têm representado sempre com precisão substancial a fé viva da parte espiritual de seus membros...". Os credos da Reforma dão, e praticamente pela primeira vez, uma exposição conjunta de todos os grandes artigos da doutrina cristã.

8. Servem de desafio para que continuemos a caminhada na preservação da doutrina e na aplicação das verdades bíblicas aos novos desafios de nossa geração, integrando-nos à nobre sucessão dos que amam a Deus e sua Palavra e que buscam entendê-la e aplicá-la, em submissão ao Espírito, à vida da Igreja. Uma tradição saudável tem compromisso com o passado na geração do futuro. [46] Portanto, "o conservadorismo criativo utiliza-se da tradição, não como autoridade final ou absoluta, mas como recurso importante colocado à nossa disposição pela providência de Deus, a fim de nos ajudar a entender o que a Escritura está nos dizendo sobre quem é Deus, quem somos nós, o que é o mundo ao nosso redor e o que fomos chamados para fazer aqui e agora". [47]

O Antigo e o Novo Testamento usaram esse recurso para auxiliar os crentes na vida doutrinária e prática cristã, expressando também o que a Igreja cria. A teologia reformada honra a Bíblia e os credos da Igreja, enquanto estes permanecerem fiéis às Escrituras.


Nota

[15] Veja As institutas, III.I.3. Cf. tb. III.2.5s.

[16] Calvino combatera a "fé implícita", patente na teologia católica romana, chamando-a de "espectro papista" que "separa a fé da Palavra de Deus" (cf. Exposição de Romanos, p. 375).

[17] Veja D. F. Wright, "Catecismos", em Walter A. Elwell, Enciclopédia histórico-teológica da Igreja cristã, vol. i, 249.

[18] Idem, p. 250.

[19] Lutero viajou pela Saxônia Eleitoral e por Meissen, entre 22/10/1528 e 9/1/1529.

[20] "Catecismo Menor", em Os catecismos, p. 363.

[21] Esse catecismo (em português: Instrução na fé [Goiânia: Logos, 2003]) é um resumo da primeira edição de As institutas (1536).

[22] As institutas, iv.1.12. Cf. tb. iv.1.15 e O Livro dos Salmos, vol. 2, p. 401.

[23] As institutas, iv.2.5. Calvino afirmou: "... onde os homens amam a disputa, estejamos plenamente certos de que Deus não está reinando ali" (Exposição de 1Coríntios, p. 436). Timothy George comenta: "Calvino não estava disposto a comprometer pontos essenciais em favor de uma paz falsa, mas ele tentou chamar a igreja de volta à verdadeira base de sua unidade em Jesus Cristo" (Teologia dos reformadores, p. 182-183).

[24] To the Brethren of Wezel, "Letter", John Calvin Collection, [cd-rom], n.º 346, p. 32-34.

[25] Exposição de 1Coríntios, p. 437.

[26] Arcebispo de Canterbury, que em 1549 havia elaborado o Livro de oração comum, no qual enfatizava o culto em inglês, a leitura da Palavra de Deus e o aspecto congregacional da adoração cristã.

[27] Todavia, num primeiro momento, era impossível qualquer tentativa nesse sentido, visto haver problemas geográficos, políticos, objetivos circunstanciais diferentes e mesmo problemas doutrinários.

[28] Letters of John Calvin, p. 132-133.

[29] Veja W. Walker, História da Igreja cristã, vol. ii, p. 111.

[30] Veja Jean Delumeau, O nascimento e afirmação da Reforma, p. 149-150. Delumeau cita estatística de Coligny, constando a França, em 1562, de mais de 2.150 "comunidades" reformadas (A civilização do Renascimento, vol. i, p. 129).

[31] Frans L. Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês (1630-1654), vol. 25, p. 27.

[32] The Creeds of Christendom, vol. i, p. 536.

[33] O. G. Oliver Jr., "Bullinger", em Walter A. Elwell, Enciclopédia histórico-teológica da Igreja cristã, vol. i, p. 216.

[34] Discípulos de James Arminius [Jacó Armínio] (1560-1609), antigo aluno do sucessor de Calvino em Genebra Theodore de Beza (1519-1605).

[35] O "antigo" evangelho, p. 6.

[36] Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A. A. Hodge, p. 41.

[37] R. T. Kendall, "A modificação puritana da teologia de Calvino", em: W. Stanford Reid, Calvino e sua influência no mundo ocidental, p. 264.

[38] Assim chamados por seguirem o pensamento de Thomas Erasto (1524-1583), médico de Heidelberg, que defendia a supremacia do Estado sobre a Igreja.

[39] Louis Berkhof, Introduccion a la Teologia Sistematica, p. 22. John Stott arremata: "Desrespeitar a tradição e a teologia histórica é desrespeitar o Espírito Santo que tem ativamente iluminado a Igreja em todos os séculos" (A cruz de Cristo, p. 8).

[40] Esboços de Theologia, p. 99.

[41] Capítulo I, seção 10.

[42] As insondáveis riquezas de Cristo, p. 85-86.

[43] Idem, p. 254.

[44] "O conforto do conservadorismo", em Michael Horton, Religião de poder, p. 235.

[45] Veja Ph. J. Spener, Mudança para o futuro, p. 32-33, 57-58, 118.

[46] "A tradição é o sangue da teologia. Separada da tradição, a teologia é como uma flor cortada sem suas raízes e sem o solo, logo murcha na mão. Uma sã teologia nunca nasce de novo. Ao honrar a sã tradição, se assegura a continuidade teológica com o passado. Ao mesmo tempo, a tradição cria a possibilidade de abrir novas portas para o futuro. Como diz o provérbio: `A tradição é o prólogo do futuro.' Por isso, toda dogmática que se preze como tal deve definir sua posição em uma ou outra tradição confessional" (Gordon J. Spykman, Teologia reformacional, p. 5).

[47] J. I. Packer, "O conforto do conservadorismo", em Michael Horton, Religião de poder, p. 241.


Autor: Hermisten Maia Pereira da Costa


Fonte: Fundamentos da teologia reformada, pg. 9-24, Editora Mundo Cristão.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Resumo dos quatro concílios ecumênicos da Igreja Primitiva

1. Nicéia, 325

Assunto: A Natureza de Cristo dentro da Trindade.

Personagens: Ário, de Alexandria; Alexandre, de Alexandria; Eusébio de Nicomédia.

Resolução: O imperador Constantino, chamou os bispos para Nicéia. Mais de 300 bispos se fizeram presentes. O credo oferecido por Eusébio de Cesaréia foi rejeitado. Escreveu-se o credo de Nicéia, com as declarações “gerado, não feito... consubstancial com o Pai (homo-úsios)”. Foram rejeitadas frases arianas, tais como “havia tempo quando ele não era”, e “feito do que não era”. Foram exilados os poucos que não aceitaram a fórmula nicena. A unidade eclesiástica foi o grande objetivo do imperador.

2. Constantinopola, 381

Assunto: O modo em que a humanidade e a divindade se relacionam em Jesus Cristo. Conflito entre a escola de Alexandria (alegorista) e a de Antioquia (literalista).

Personagens e Ensinos: Apolinário, bispo de Laodicéia na Síria... disse que Jesus teve corpo e alma humanos, mas que não teve espírito (mente) humano... no lugar do espírito (mente) humano estava o “Logos”. Deste jeito, Apolinário procurava destacar a unidade de Jesus e não a dualidade, pois “não existem dois Filhos de Deus” . Do outro lado, Damário, bispo de Roma, e Gregório de Nazianzo (um dos grandes capadócios) argumentaram que Deus salva o homem na sua totalidade... corpo, alma e espírito (mente). Na sua encarnação, Cristo juntou-se ao espírito humano para salvá-lo. Sem tal união, o espírito do homem não seria salvo. Deste jeito, destaca-se mais a dualidade de Cristo... espírito humano e espírito divino.

Resolução: Houve vários sínodos que se pronunciaram contra o apolinarismo, e este foi condenado, por fim, neste 2º concílio ecumênico em Constantinopola . Este concílio também re-afirmou as decisões de Nicéia contra o arianismo.

3. Éfeso, 421

Assunto: O modo em que a humanidade e a divindade de Jesus Cristo se relacionam... qual foi a maneira de Jesus Cristo vir ao mundo, e qual foi a sua natureza na encarnação. O termo mais controvertido foi “theótokos”, termo aplicado a Maria e significando “mãe de Deus/genitora de Deus”.

Personagens e Ensinos: Nestor e Anastácio de Constantinopola, Diodoro de Tarso, Teodoro de Mopsuéstia... ensinaram a plenitude da natureza humana em Cristo (como sempre foi o ensino da escola de Antioquia). Nestor, afirmou a presença em Cristo de duas pessoas, e não somente de duas naturezas. A união que existe entre a pessoa humana e a pessoa divina é uma conjugação ou “união moral”,. Do outro ladi, Cirilo de Alexandria, com o apoio de Celestino I, bispo de Roma. Eles argumentaram que simples união moral entre Deus e um ser humano não pode nos salvar.

Cirilo, era ciumento e tinha ambição inescrupulosa, querendo abalar os patriarcados de Antioquia e Constantinopola.

Resolução: Concílio ecumênico, convocado pelo imperador. Concílio aconteceu em circunstâncias de confusão. Em junho, sessão liderada por Cirilo, e dominada pelos bispos do Egito, condenou e depôs a Nestor. Em julho, João de Antioquia com seus seguidores (todos chegados atrasados) condenaram e depuseram Cirilo e seus seguidores. Em agosto, os legados papais (também chegados atrasados) juntaram-se a Cirilo e seus bispos, e declararam deposto não somente Nestor mas também a João. Ao mesmo tempo condenaram o pegianismo. Mais tarde Cirilo e João fizeram um acordo, mas Nestor não foi convidado a participar e ficou exilado até a morte.

4. Calcedônia, 451

Assunto: A humanidade e a divindade de Cristo. A questão de uma natureza ou duas.

Personagens e ensinos: Da escola de Alexandria... Dióscoro, bispo de Alexandria. Êutico, abade em Constantinopola, mas partidário do falecido Cirilo de Alexandria; Crisápio, capelão do imperador em Constantinopola e político poderoso. Êutico, negou que Cristo existisse em duas naturezas depois da encarnação e que fosse “consubstancial conosco” (da mesma natureza que o homem) por causa da sua humanidade. Da escola de Antioquia... Flaviano, bispo de Constantinopola; Pulquéria, irmã do imperador, e Marciano, marido de Pulquéria... com o apoio de Leão, o Grande, bispo de Roma.

Resolução: Este concílio, foi convocado em substituição a um concílio realizado em Éfeso, em 449, que foi presidido por Dióscoro... Êutico foi reabilitado e Flaviano foi condenado. Dióscoro, recusou ler carta doutrinária de Leão (“O Tomo”). Flaviano, foi batido e pisado, e morreu poucos dias depois. Leão chamou o concílio de Éfeso de “conciliábulo de ladrões”. Depois da morte do imperador, Pulquéria e Marciano convorcaram este novo Concílio em Calcedônia, 451. Estiveram presentes 520 bispos. Condenaram a Êutico e a Dióscoro. O Tomo de Leão foi lido e aprovado com aclamação. A definição aceita foi a de existir: “duas naturezas em uma só pessoa”.

sábado, 29 de maio de 2010

O Credo Apostólico

Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do Céu e da terra.

Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao Hades; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao Céu; está sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Universal; na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém.



Origens do Credo
Ele não surgiu do dia para a noite e nem teve data de
lançamento marcada com antecedência. O Credo Apostólico
foi resultado da necessidade que a Igreja teve, ao desenvolver
sua história especialmente nos primeiros séculos, de definir os
pontos fundamentais que deveriam ser aceitos por todos que
desejassem filiar-se a ela. Já naqueles tempos havia muitos que
se diziam cristãos mais desconheciam ou mesmo rejeitavam os
ensinos bíblicos. Era preciso adotar um padrão de fé.
Por Que “Credo Apostólico”?Alguns pensam que os Apóstolos é que prepararam
uma espécie de livrinho, colocaram as expressões de Credo e o
foram passando para as igrejas. Mas não foi assim. O nome
Credo vem de uma palavra latina que significa Creio. Desde o
começo a Igreja Cristã exigiu uma declaração de fé dos que
queriam ser batizados. Lembra-se da condição que Filipe
impôs ao batismo do Eunuco (At 8.36-38)? Com o passar do
tempo a declaração de fé (Profissão de Fé) foi incluindo mais
elementos. Assim chegou-se ao Credo Apostólico. Esse nome
nos recorda que seu conteúdo é a verdadeira mensagem Cristã
como foi pregada desde os dias Apostólicos.
A Necessidade do Credo
Problemas de dentro e de fora levaram a Igreja a
cuidar dos seus ensinos, a Doutrina Cristã. A partir do terceiro
século, com o crescimento da Igreja, começaram as
especulações, as indagações, especialmente entre os cristãos de
origem grega, levados pela influência de seu espírito filosófico.
Aí, começaram a surgir as mais diversas interpretações com
relação a Pessoa e o Ministério de Cristo. Diante dessas
diversas interpretações e opiniões, não só com relação a Cristo
mas também relativas a outros assuntos fundamentais da Fé
Cristã, como a Ressurreição e a Vida Eterna, a Igreja se viu na
obrigação de estabelecer o padrão doutrinário que recebeu o
nome de Credo Apostólico.
ConclusãoÉ importante lembrar que o Credo surgiu do cuidado
da Igreja para com as verdades bíblicas. Ele não é invenção da
igreja Romana. Ele é chamado Apostólico por incluir
ensinamentos que a igreja abraça desde os tempos apostólicos.
E ele teve sempre a intenção de expressar uma fé que existia no
âmbito da comunidade mais era pessoal e íntima, não formal e
externa. Por isso ele não pode virar uma reza.


Extraído das últimas páginas do Hinário Novo
Cântico.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Modificações e Acréscimos à Confissão de Fé de Westminster

Nota Histórica de J.M.K., extraída da edição da EPPL - Rio de Janeiro, 1943

Desde Julho de 1643 até Fevereiro de 1649, reuniu-se em uma das salas da Abadia de Westminster, na cidade de Londres, o Concílio conhecido na história pelo nome de Assembléia de Westminster. Este Concílio foi convocado pelo Parlamento Inglês, para preparar uma nova base de doutrina e forma de culto e governo eclesiástico que devia servir para a Igreja do Estado nos Três Reinos. [Inglaterra, Escócia e País de Gales]

Em um sentido, a ocasião não foi propícia. Já começara a luta entre o Parlamento e o rei Carlos I, e durante as sessões do Concílio o país foi agitado pela revolução em que o rei perdeu a vida e Cromwell tomou as rédeas do governo. Em outro sentido, a ocasião foi oportuna. Os teólogos mais eruditos daquele tempo tomaram parte nos trabalhos da Assembléia. A Confissão de Fé e os Catecismos foram discutidos ponto por ponto, aproveitando-se o que havia de melhor nas Confissões já formuladas, e o resultado foi a organização de um sistema de doutrina cristã baseado na Escritura e notável pela sua coerência em todas as suas partes.

O Parlamento não conseguiu o que almejava quando nomeou os membros do Concílio. A Confissão de Fé foi aprovada, mas apenas poucos meses a Igreja Presbiteriana foi nominalmente a Igreja do Estado na Inglaterra.

A Confissão de Westminster foi a última das confissões formuladas durante o período da Reforma. Até agora tem havido na história da Igreja somente dois períodos que se distinguiram pelo número de credos ou confissões que neles foram produzidos. O primeiro pertence aos séculos IV e V, que produziram os credos formulados pelos concílios ecumênicos de Nicéia, Constantinopla, Éfeso e Calcedônia; o segundo sincroniza com o período da Reforma. Os símbolos do primeiro período chamam-se "credos", os do segundo "confissões". Uma comparação entre o Credo dos Apóstolos, por exemplo, e a Confissão de Westminster mostrará a diferença. O Credo é a fórmula de uma fé pessoal e principia com a palavra "Creio". A Confissão de Fé de Westminster segue o plano adotado no tempo da Reforma, é mais elaborada e apresenta um pequeno sistema de teologia. Esse sistema é conhecido pelo nome de Calvinismo, por ser o que João Calvino ensinou e foi aceito pelas Igrejas Reformadas, que diferiam das Luteranas.

A utilidade de uma Confissão de Fé evidenciou-se na história das Igrejas Reformadas ou Presbiterianas. Sendo a Confissão de Westminster a mais perfeita que elas têm podido formular, serve de laço de união e estreita as relações entre os presbiterianos de todo o mundo. Os Catecismos especialmente têm servido para doutrinar a mocidade nas puras verdades do Evangelho.

No tempo em que se reuniu a Assembléia, e por muito tempo antes, todos sustentavam a necessidade da união da Igreja e do Estado, e originalmente havia no Capítulo que trata do Magistrado Civil uma secção ensinando essa necessidade.

Ao formar-se a Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América do Norte, em 1788, essa secção foi omitida, pois ali quase todos entendiam que a Igreja devia estar livre de toda união com o Estado, sendo ambos livres e independentes na esfera que lhes pertence. Em 1887, ou quase cem anos mais tarde, a Igreja geralmente chamada Igreja do Norte eliminou a última parte da Secção IV do Capítulo XXIV, que dizia:

"O viúvo não pode desposar nenhuma parenta carnal de sua mulher nos graus de parentesco em que não possa desposar uma das suas próprias parentas, nem a viúva poderá casar-se com um parente carnal de seu marido nos graus de parentesco em que não possa casar-se com um de seus próprios parentes".

O Sínodo do Brasil organizado em 1888 fez igual eliminação.

No ano 1903 a mesma Igreja do Norte dos Estados Unidos fez outras emendas mais importantes que, por serem de interesse geral, ficam aqui registradas. As duas Secções que foram modificadas, rezam do modo seguinte:

CAPÍTULO XVI - SECÇÃO VII

As obras feitas pelos não regenerados, embora sejam quanto à matéria coisas que Deus ordena e em si mesmas louváveis e úteis, e embora o negligenciá-las seja pecaminoso e ofensivo a Deus, não obstante, em razão de não procederem de um coração purificado pela fé, elas não são feitas devidamente - segundo a Palavra - nem para um fim justo - a glória de Deus - e ficam aquém do que Deus exige e não podem preparar homem algum para receber a graça de Deus.

CAPÍTULO XXV - SECÇÃO VI

Nosso Senhor Jesus Cristo é o único Cabeça da Igreja, e a pretensão de qualquer homem ser vigário de Cristo e cabeça da Igreja, é contrária à Escritura nem tem base alguma na História e é uma usurpação que desonra o nosso Senhor Jesus Cristo.

Também foram acrescentados mais dois Capítulos à Confissão de Fé, que são os seguintes:

CAPÍTULO XXXIV - DO ESPÍRITO SANTO

CAPÍTULO XXXV - DO AMOR DE DEUS E DAS MISSÕES

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

EXPRESSANDO A NOSSA CONFESSIONALIDADE.


A DOUTRINA DA SALVAÇÃO NO PRESBITERIANISMO[1]
Professor: João Ricardo Ferreira de França.
Introdução:
É deveras curioso vir a uma conferência como esta e falar sobre este assunto. Qualquer pessoa que se insere dentro do sistema presbiteriano consegue nitidamente perceber que de fato há uma forma distinta de se abordar a questão da salvação.
Mas é também notório o desconhecimento de muitos desta percepção singular que oferece o Presbiterianismo. Falar sobre a doutrina da Salvação para os presbiterianos é ter dois pensamentos: Primeiro edificar a Igreja naquilo que ela já crê a respeito do plano redentivo de Deus para o homem; e o segundo pensamento seria, ensinar as doutrinas fundamentais que os presbiterianos sempre acreditaram, mas que tem sido desconhecido entre os próprios presbiterianos; e sinceramente, sempre o segundo pensamento é que tem predominado.
Em qual destes pensamentos esta Igreja deveria se encaixar? Este é o nosso primeiro desafio. O segundo desafio é a vastidão deste assunto: O assunto concernente a salvação poderia ser abordado sob os seguintes tópicos da teologia: A visão pactual – onde Deus progressivamente se revela como redentor do seu povo estabelecendo um pacto com o homem; a segunda maneira de abordarmos poderia ser estudando aspectos específicos ou temas específicos da teologia sistemática – como regeneração, santificação, conversão, a fé redentora e o papel do Espírito na conversão de pecadores; mas, penso que o que se enquadra adequadamente para os nossos propósitos – e para o tema desta aula – a abordagem dos cinco pontos do calvinismo.
Talvez alguns de vocês não tenham conhecimento disto, mas a nossa Igreja é Calvinista quanto a questão da salvação. Mas o que é o calvinismo?
O calvinismo é um ponto de vista universal, derivado de uma clara visão de Deus como o Criador e Rei do mundo inteiro. O calvinismo é a tentativa coerente de reconhecer o Criador como o Senhor, Aquele que faz todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade. O calvinismo é uma maneira teocêntrica de pensar acerca da vida, sob a direção e controle da própria Palavra de Deus. Em outras palavras, o calvinismo é a teologia da Bíblia vista da perspectiva da Bíblia — a visão teocêntrica que vê o Criador como a origem, o meio e o fim de tudo quanto existe, tanto no âmbito da natureza quanto no âmbito da graça. O calvinismo, assim sendo, reflete o teísmo (a crença em Deus como o fundamento de todas as coisas), reflete a religião (a dependência a Deus como o doador de todas as coisas), e reflete a posição evangélica (a confiança em Deus através de Cristo, para todas as coisas), tudo na sua forma mais pura e mais altamente desenvolvida. O cal­vinismo é uma filosofia unificada da história, que encara a inteira diversidade de processos e eventos que têm lugar no mundo de Deus, como nada mais e nada menos do que a concretização de Seu grandioso plano preordenado, visando Suas criaturas e Sua Igreja. Os cinco pontos asseveram precisamente que Deus é sobe­rano quando salva o indivíduo; mas o calvinismo, como tal, preocupa-se com assertivas muito mais am­plas, acerca do fato que Deus é soberano em tudo (PACKER, 1992, Pg. 6).

Esta é a verdaeira visão do calvinismo expresso no Presbiterianismo. Diante disso iremos agora discorrer sobre os cinco pontos do calvinismo. Antes de tudo precisamos situar cada um de vocês no devido contexto histórico da problemática sobre Calvinismo e Arminianismo.
Na Holanda do século XVI houve um homem chamado de Jacob Armínio que questionara os ensinos das Igrejas presbiterianas (conhecidas como reformadas) quanto a questão da salvação do pecador. Ao morrer Armínio deixou um grupo de discípulos que ficaram conhecidos como os Remonstrance – este grupo elaborou cinco artigos de fé para derrubar as confissões presbiterianas na época – Confissão de fé Belga e Catecismo de Heidelberg – então, na Cidade de Dort é convocado,nos anos de 1618-1619, um Sínodo para resolver a questão soteriológica.
Os teólogos calvinistas constituídos de 84 renomados eruditos reformados reuniram-se na cidade de Dort, na Holanda, após sete meses de discussões em 154 seções. Colocaram-se contra a Remonstrance e suas proposições: Livre-arbitrio, eleição condicional, expiação universal, vocação resistível e perca da salvação. Estes pontos da Remonstrance ficaram conhecidos como os cinco pontos do arminianismo.
Os teólogos de Dort formularam as suas respostas ao arminianismo e formularam os cinco pontos do calvinismo, uma homenagem ao grande teólogo do Presbiterianismo João Calvino. Um século depois nos anos 1643-1649 a Confissão de Fé de Westminster é redigida re-confirmando e aceitando, como bíblico, os cinco pontos do calvinismo.
I – A DEPRAVAÇÃO TOTAL DO HOMEM.
Este é o primeiro ponto do Calvinismo no qual se entende que homem depois da queda em pecado conforme vemos em Gênesis 3. Ele se tornou indisposto e incapaz na prática de todo e qualquer bem que o acompanhe, é exatamente isto que nos ensina a nossa Confissão de Fé de Westminster no capítulo 9 seção 3:
O homem, com a sua queda num estado de pecado, perdeu totalmente a capacidade da vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação; de tal maneira que o homem natural, tornando-se totalmente indisposto no tocante àquele bem, e morto em pecado, não é capaz, por sua própria força, de converte-se nem ainda preparar-se para isto.

Este ensino reflete o que a Bíblia nos ensina em Romanos 3.10-18 onde o Apóstolo Paulo inspirado pelo Espírito Santo nos diz:

10 como está escrito: Não há justo, nem um sequer, 11 não há quem entenda, não há quem busque a Deus; 12 todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. 13 A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, 14 a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; 15 são os seus pés velozes para derramar sangue, 16 nos seus caminhos, há destruição e miséria; 17 desconheceram o caminho da paz. 18 Não há temor de Deus diante de seus olhos.

Em outro texto lemos que o homem é morto espiritualmente falando conforme Efésios 2.1,5: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, -- pela graça sois salvos,”. Isto tem implicações significativas na vida da Igreja Presbiterina de forma específica. A primeira delas é a prática do apelo após os sermões; é comum em nossa época ouvirmos pregadores que depois do sermão costumam chamar os pecadores arrependidos a virem até a frente e confessar a Cristo.
Tal posição nega taxativamente que o homem é totalmente depravado em seus pecados, nega que ele está morto e que não pode fazer nada em favor de sua alma. E que a sua vontade está corrompida e que não pode querer o evangelho apresentado por Cristo.
A segunda implicação deste ensino é que não há amigos do evangelho; muitos crentes convidam os descrentes a virem para a igreja, mas ao apresentá-los dizem: “alí está um homem ou mulher que não é crente, mas é amigo do evangelho”; este não é uma pressuposição bíblica – o homem está em rebeldia contra Deus! Este é o ensino claro das Escrituras. Então, quem é presbiteriano não prática o sistema de apelo e nem diz que pecadores impenitentes são amigos do evangelho de Cristo.
II – ELEIÇÃO INCONDICIONAL
Este também é um dos pontos do calvinismo e do sistema de salvação presbiteriano; este assunto é pertubador para muitos crentes. Este aspecto é conhecido como sendo a doutrina da predestinação. Ou seja, os presbiterianos acreditam, ensinam e defendem a PREDESTINAÇÃO.
No Presbiterianismo não há lugar para o acaso ou sorte, ou mesmo para o livre-arbítrio do homem. Não há espaço para o fatalismo ou determinismo fatalista; há no presbiterianos um determinismo bíblico, teocêntico onde Deus deterimina tudo o que há de acontecer neste mundo.
O catecismo Maior de Westminster na pregunta 12 define decreto (predestinação) nos seguintes termos:
“Os decretos de Deus são so seus atos sábios, livres e santos do conselho de sua vontade, pelos quais , desde toda a eternidade, Ele para a sua própria glória, imutalvelmente predestinou tudo o que acontece, especialmente com referência aos anjos e aos homens”
A nossa Confissão de Fé de Westminster tratando da providência no capítulo 5 seção 1 nos ensina:
Pela sua mui sábia providência, seundo a sua infalível presciência e o livre e imútável conselho de sua própria vontade, Deus, o grande Criador de todas as coisas, para o louvor da glória da sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as suas criaturas, todas as ações de todas as coisas, desde a maior até a menor]

Deus decreta todas as coisas conforme lhe apraz é a sua vontade que decreta tudo. Ou seja, a salvação é realmente de Deus conforme nos ensina Jonas 2.8 “porque a Salvação é do Senhor”.A doutrina da eleição incondicional é o contra-ponto do sistema que acredita que Deus espera uma decisão do livre-arbítrio do homem para poder salvá-lo.
No presbiterinismo a salvação é planejada por Deus desde toda a eterinidade. Isto é lógico, pois, se o homem está morto em pecado o que ele precisa para sair da situação na qual se encontra. Alguém disse:
O criador deve intervir misericordiosamente para salvar esses rebeldes, mesmo quando eles escorregam alegremente para a cova. Desde a eternidade, Deus desejou, decidiu, planejou, pretendeu e escolheu salvar alguns pecadores...Eleger é escolher, e eleição é, portanto, a escolha de Deus de quem será salvo. Se Deus não tivesse escolhido salvar alguns e não fizesse o que era necessário para salvá-los, ninguém seria salvo. (WRITH, 1998, p.129)

A Escritura é clara sobre a doutrina da eleição conforme lemos em João 15.16: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda.”
Outro texto é Atos 13.48: “Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna.” Quem creu na mensagem pregada por Paulo? Os que haviam sido predestinados para a vida eterna. Mas um texto forte em favor da eleição e reprovação divinas é Romanos 9:11-15:
1 E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), 12 já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço. 13 Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú. 14 Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! 15 Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão.

III – EXPIAÇÃO LIMITADA OU SACRIFÍCIO PARTICULAR.

O que temos visto até o presente momento nos indica a seqüência lógica da soteriologia do Presbiterianismo histórico; um vez que o homem está morte em delitos e pecados, sendo totalmente depravado, Deus antes que fossem lançado os fundamentos do universo decidiu escolher que ele salvaria da massa humana caída no pecado; isto leva-nos para o questionamento: Então, Jesus Cristo não morreu para salvar cada pessoa deste mundo?
Nas igrejas evangélicas de nosso tempo predomina um ensinamento de que Cristo na cruz do calvário morreu para salvar toda a humanidade indiscriminadamente. Ou seja, a salvação segundo estes ensino estende-se a todos os homens de forma que a morte na Cruz tem efeito eficaz sobre todos os homens.
Mas, o ensino bíblico não é este. A Bíblia ensina que Jesus Cristo morreu para salvar apenas os eleitos de Deus, pois, apenas estes são os que hão de ser certamente salvos. A nossa confissão de fé nos declara isso:
Visto que Deus designou os eleitos para a glória assim ele, pelo seu eterno e mui livre propósito de sua vontade, preordenou todos os meios para se alcançar este propósito. Por conseguinte, aqueles que são eleitos, achando-se caídos em Adão, são redimidos por Cristo; ...nenhum outro é redimido, eficazmente chamado, justificado, adotado, santificado e salvo por Cristo, senão unicamente os eleitos (WESTMINSTER, cap. 3. seção: 6).

A Igreja Presbiteriana defende e crer que Deus enviou a Jesus Cristo para morrer unicamente pelos eleitos de Deus. Este é o ensino claro da Bíblia. Qual foi o propósito da morte de Cristo?
A) Salvar um grupo específico:

Mt.1.21 – “Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles.” Tito 2.14 – “qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras.” Cristo veio a este mundo com o objetivo de salvar os pecadores; e sabemos, que este objetivo foi alcançado Rm.5.8-10: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. 9 Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. 10 Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida;” Efésios 2.15-16: “aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, 16 e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade.”

B) Cristo se sacrificou por este grupo específico: Efésios 5.25-26: “Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, 26 para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra,”

Diante disso levanta-se uma pergunta: estão todos homens inseridos nestes textos que lemos nas Escrituras? Todos os homens tem os dons apresentados nestas passagens concernete a salvação de pecadores?
A partir de todas essas evidências, o ensino da Bíblia é claro: o propósito da vinda de Cristo foi (e realmente cumpre tal propósito) trazer perdão ao homem, no tempo presente, e glória no porvir. Por tanto se Cristo morreu por todos os homens, então 1) Todos os homens estão agora livres do pecado, 2) e estão perdoados e serão glorificados, ou: 3) Cristo falhou em Seu propósito (OWEN, 1996, p.18).

Esta é a conseqüência lógica se advogarmos que Cristo morreu para salvar toda a raça humana na cruz do calvário. John Owen levanta uma objeção significativa para a crença em uma expiação universal:
Colocamos o assunto da seguinte maneira: Cristo sofreu 1) Pelo pecado de todos os homens, ou 2) pelos pecados de alguns homens, ou 3) por alguns pecados de todos os homens. Se a última afirmativa é verdadeira, então todos os homens ainda tem alguns pecados, e, portanto, ninguém pode ser redimido. Se a primeira afirmativa é verdadeira, então por que não estão todos os homens livres do pecado? Você poderá dizer: “por causa da incredulidade deles”. Mas eu pergunto: “A incredulidade é um pecado”? Se não é, então por que todos os homens são punidos por causa dela? Se é um pecado, então deve estar incluída entre os pecados pelos quais Cristo morreu. Portanto, a primeira afirmativa não pode ser verdadeira! Assim, é claro que a única possibilidade restante é que Cristo levou sobre si todos os pecados de alguns homens, os eleitos, somente. Creio que este é o ensino da Bíblia. (OWEN, 1996, p.20-21).

IV – GRAÇA IRRESISTÍVEL OU VOCAÇÃO EFICAZ.

No Presbiterianismo histórico no que respeita a salvação entende-se que se Cristo morreu apenas pelos eleitos de Deus, segue-se que apenas estes serão salvos, chamados e atraídos pelo Espírito Santo e pela graça de Deus no Evangelho.
A Confissão de Fé da nossa Igreja Presbiteriana diz:
Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito; tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transportando-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os corações de pedra e dando-lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça ( WESTMINSTER, Cap.10, seção 1)
A doutrina enunciada no sistema presbiteriano de redenção é que os homens uma vez alvos da morte expiatória de Cristo são alvos da graça irresistível de Deus pela sua Palavra e Espírito.
O termo graça irresistível é ambíguo. Os calvinistas todos crêem que os homens podem resistir à graça de Deus, e o fazem. A pergunta é: ‘pode a graça da regeneração falhar em cumprir seu propósito?’ Lembre-se que as pessoas espiritualmente mortas são ainda biologicamente vivas. Elas ainda têm uma vontade que não é inclinada para Deus. Elas farão tudo ao seu alcance para resistir à graça de Deus.(SPROUL,2002, p.86)

O homem sendo incapaz de vir por suas próprias forças a Cristo Deus, em sua graça, traz o homem até Cristo (João. 6.44). Note o verbo “trazer” no texto bíblico. “e`lku,sh” no grego tem o sentido de arrastar. Este mesmo verbo aparece em passagens que indica o emprego de força persuasiva como Tiago 2.6. Então, não significa um convite para se ir para a cadeia, mas é um arrastar para lá. Logo a vocação é a ação de Deus em trazer o pecador a Cristo.
Paulo fala desta mesma forma em Efésios 1.19: “E qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder,” o coração dos pecadores são abertos pelo poder de Deus (Atos.16.14). As ovelhas de Cristo ouvem a sua voz e o segue (João 10.26-28) .
Sproul falando sobre João 6.44 diz que o “significado das palavras de Jesus é claro. Nenhum ser humano tem a possibilidade de poder vir a Cristo a menos que aconteça alguma coisa que torne possível que ele venha”(SPROUL, 2002,p.50) , esta condição é concedida pelo Pai apenas aos eleitos de Deus (João 6.65). É o Pai quem leva os pecadores até Cristo. Este é o ensino da Bíblia.
V – A PERSEVERANÇA DOS SANTOS.
O último ponto do Calvinismo e consequentemente do Presbiterianismo é que a salvação ela é eterna, uma vez que os homens estavam mergulhados no pecado, e Deus em sua graça os elegeu para serem alvos da redenção trazida por Cristo, sendo estes no tempo propício chamados eficazmente para a comunhão com Deus e com Cristo Pelo Espírito Santo; então, agora eles são preservados de cair total e finalmente da graça de Deus.
Neste aspecto a nossa Confissão de Fé ensina o seguinte: “Os que Deus aceitou em seu Filho amado, que ele chamou eficazmente e santificou pelo seu Espírito, não podem decair do estado da graça nem total, nem finalmente; mas, com toda certeza hão de perseverar nesse estado até o fim e serão eternamente salvos” (WESTMINSTER, Cap.17, seção 1)
A certeza da salvação é algo peculiar ao Presbiterianismo pois somos ensinados pela Escritura que a salvação é dom da graça de Deus (Ef.2.8). Os que não acreditam na segurança da salvação aceitam a noção de que a salvação pode ser perdida. Mas a doutrina da perseverança e segurança da salvação é assegurada pela Palavra de Deus em diversas passagens, vejamos algumas:
Philippians 1:6 6 Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.
John 10:27-29 27 As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. 28 Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. 29 Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar.
1 Peter 1:3-5 Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, 4 para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros 5 que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo.
Hebrews 10:14 4 Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados.
Romans 8:33-39 33 Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. 34 Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. 35 Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? 36 Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. 37 Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. 38 Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, 39 nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Conclusão: A Escritura é o nosso único fundamento, precisamos ressoar estas verdades mais uma vez em nossos púlpitos, pois, há uma necessidade de resgatarmos as bases sólidas de uma verdadeira doutrina da redenção; os motivos da salvação devem ser teocêntricos e não antropocêntricos .
Estas verdades redentoras devem nos conduzir à proclamação do evangelho de Cristo e gerar em nós amor pela almas perdidas que carecem ouvir a mensagem de redenção; temos consciência de que os homens estão mergulhados no pecado e que Deus planejou a salvação de uma multidão de eleitos que o número é como a areia do mar, mas também temos a ciência que o sucesso de nossa evangelização está no fato de que Cristo morreu por pessoas especificas, e que não é nosso argumento, teatro ou coisa afins que irá atrair os pecadores até Cristo, mas apenas Deus com a sua Palavra e seu Espírito. E uma vez o homem encontrado em Cristo ele está preservado e guardado no amor de Deus.



BIBLIOGRAFIA.
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WRIGHT, R.K. Mc Gregor. A Soberania Banida – Redenção para a Cultura pós-moderna, Tradutor:Héber Carlos de Campos., São Paulo: Cultura Cristã, 1998.


[1] Palestra proferida na 2aConferência Reformada na Igreja Presbiteriana em Ouro Preto – Olinda – PE. Tema Geral: Presbiterianismo – Doutrina e Identidade.Data desta Palestra: 19/10/2009.